‘Em 2021, protestos com símbolos fortes não precisam de multidão’, diz líder de manifestações contra racismo

Ana Carolina Diniz
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RIO — Ricardo Fernandes, coordenador do coletivo Frente Cidade de Deus, foi uma das principais lideranças do Rio nos protestos contra o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, homem negro assassinado por dois seguranças brancos em um supermercado Carrefour de Porto Alegre em 19 de novembro de 2020 — seis pessoas foram indiciadas por homicídio triplamente qualificado.No dia seguinte, feriado da Consciência Negra, manifestantes fecharam uma loja da rede na Barra da Tijuca em um ato pacífico e que envolveu mobilização presencial e também virtual.

Para 2021, ele defende mais protestos com estratégia e envolvimento de diversos setores, aumentando a capacidade de pressão sobre autoridades e empresas para efetuar mudanças. “Só o CEO ter que colocar a cara na televisão para dar explicação já é um avanço”, diz Fernandes.

Também profissional da indústria criativa — ele é diretor criativo da agência Brecha, fundador do grupo Arteiros e parceiro da Sobrecena filmes — ele ressalta que, além de ganhar as ruas, a manifestação em 2021 precisa também ser “corporativa, comunicativa e midiática”.

Como você vê os movimentos contra o racismo nos últimos tempos no mundo e no Brasil?

Consigo ver bastante evolução. No caso das articulações do caso Carrefour, das quais participei ativamente, fomos às ruas com uma mensagem clara: se a gente quiser quebrar, a gente quebra, mas a diferença é que lá nos Estados Unidos eles têm uma polícia que mata muito menos do que a nossa e bilionários pretos que conseguem pagar a fiança. Pensamos em um caminho diferente que é focar no poder das marcas, que são sensíveis à oscilação constante da bolsa de valores.

Como se traça esse caminho diferente que você menciona?

Não é fazer boicote de dois dias. Neste caso, o Carrefour começou a ser pressionado a fazer avanços. Pequenos, mas avanços. [Após o assassinato de João Alberto, o Grupo Carrefour anunciou o fim da terceirização dos serviços de segurança.] Só o CEO ter que colocar a cara na televisão para dar explicação já é um avanço.

Qual foi a estratégia?

Fomos às ruas para nos manifestar, mas há a manifestação corporativa, a comunicativa e a midiática. A pressão veio com muitas manifestações simultâneas acontecendo para enfrentar uma marca muito grande. Hoje, a gente vive num patamar muito mais elevado e temos pessoas pretas na academia, pessoas pretas nos meios de comunicação. Não são maioria, mas existem. Quando estávamos na rua, tinha gente nossa fazendo reuniões com os fornecedores do Carrefour, fazendo contato com a sede do Carrefour de Paris para relatar o que está acontecendo aqui no Brasil. Fomos criando multiestratégias. Gravamos vídeos em inglês para que a pauta pudesse ser reconhecida internacionalmente. Articulamos para que manifestantes fossem até a sede global do Carrefour na França para protestar com cartazes. Foram duas pessoas, mas cria um simbolismo muito forte. Não precisamos de multidão.

Por que vocês pediram a saída do CEO do Carrefour no Brasil (Noël Prioux)?

O símbolo das manifestações foi fugir do lugar comum do racismo estrutural. Quero saber quem é o racista, quem é a caneta que autoriza o chute, o soco, o enforcamento. Esta pessoa tem sangue nas mãos como os que socaram.

Você se vê representado pelo partidos políticos?

Nas manifestações, quando levantam bandeira de partidos, pedimos para abaixar. A gente está criando uma nova forma de ser porque as formas que existem não nos assistem. Defendo a narrativa de evangelização invertida: que a gente vá tirando o nosso povo da clareza do conservadorismo para a escuridão do respeito, da mesma consciência, da diversidade, de ver riqueza nos diferenças. E isto não vai ser feito pela esquerda, que tem narrativas constantes que nos marginalizam.

Qual seria uma forma de representatividade?

Somos pretos de favela. Precisamos desenvolver a teoria do favelismo. em comunismo, esquerdismo, nada nos contenta. O favelismo é o que nos contenta, sejam os pretos de dentro da favela e os de fora. Esse sentimento é importante porque é de comunidade e de tecnologia social que fez permanecer de pé o quilombo urbano, que são as favelas. É um sentimento que faz com que as pessoas permaneçam de pé, mesmo sendo destruídas por ver tanto tipo de atrocidade acontecer a olho nu.

Este sentimento esteve presente durante às ações que aconteceram nas favelas para enfrentamento da pandemia do coronavírus?

Estas ações ocorreram de forma mais independente, mas a gente já tinha relação estabelecida então pudemos potencializar as soluções criadas em cada território e as doações. Exemplo: ganhamos um caminhão inteiro de produtos de higiene pessoal, então dividimos com o Alemão e com a Maré, e eles mandaram outras doações. Isto foi importante para entender que a gente tinha “nós”. A gente não tinha as grandes fundações, as grandes instituições, o estado, os governos. Se não tivéssemos a nós mesmos estaríamos muito enfraquecidos. Desta vivência trazemos um lastro de manter a conexão das favelas para que cresçam uma puxando a outra. Temos que melhorar, continuar com a identidade orgânica, mas trazer uma formalização para que haja uma constância elaborada.