Em 3 meses, número de casos de sarampo na cidade do Rio supera o de todo o ano passado

Letícia Lopes
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Vacinação contra o sarampo em Copacabana: meta no estado é imunizar 3 milhões de pessoas

A designer gráfica Joana Duarte chegou a ficar apreensiva com a possibilidade de encontrar um posto de saúde lotado em tempos de coronavírus, mas aproveitou a companhia de colegas de trabalho e se vacinou nesta terça-feira contra o sarampo, em Copacabana. Muitas pessoas fizeram o mesmo, porém a quantidade de imunizados ainda não é suficiente. Desde janeiro, o município do Rio já registrou 127 casos da doença — mais do que o total do ano passado, que teve 115. E o estado, em três meses, soma 318, número que corresponde a 67% das 472 ocorrências de 2019.

— Acabei me enrolando, fui deixando para depois. Fiquei insegura de ir ao posto de saúde, mas falei com minha prima, que é médica, e ela me sugeriu tomar a vacina. É melhor se preocupar com uma coisa só do que com duas — disse Joana, referindo-se à Covid-19.

No dia 13 de janeiro, a Secretaria estadual de Saúde lançou uma campanha de vacinação, e, em dois meses, foram imunizadas 1,2 milhão de pessoas, o que corresponde a só um terço da meta, que era 3 milhões.

 

Para a virologista Clarissa Damaso, professora do Laboratório de Biologia Molecular da UFRJ, uma propagação de notícias falsas influenciou, nos últimos anos, a baixa cobertura vacinal e o aumento do número de casos de sarampo no país.

— Nós tínhamos uma camada da população extremamente obediente em termos de educação vacinal, que aderia às campanhas do personagem Zé Gotinha. No entanto, uma grande parcela deixou de levar os filhos aos postos de imunização porque acredita em fake news sobre vacinas que são divulgadas nas redes sociais — lamenta a virologista.

O sarampo tem um índice de contágio muito alto, que supera até mesmo o da Covid-19. De acordo com Clarissa Damaso, de 15 a 18 pessoas podem ser infectadas por um único portador da doença — estudos apontam que alguém com coronavírus pode transmitir o vírus para, em média, 2,5 pessoas.

Para a médica Mayumi Wakimoto, chefe do Serviço de Vigilância em Saúde do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), a falta de manutenção de uma cobertura vacinal alta (acima de 95%) em menores de 5 anos de idade é uma das hipóteses para o crescimento expressivo de casos de sarampo.

Em janeiro, o Estado do Rio registrou a primeira morte causada pela doença após 20 anos. David Gabriel dos Santos, de 8 meses, vivia numa instituição de acolhimento em Nova Iguaçu. Duas outras crianças e uma funcionária também contraíram o vírus do sarampo, mas já estão curadas. E, no último fim de semana, 17 detentos do Presídio Ary Franco, em Água Santa, entraram em quarentena por suspeita de contágio.