Em agravamento da crise, Israel faz 1º ataque a Gaza por terra

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Exército israelense atacou nesta sexta-feira (14) —ainda noite de quinta (13) no Brasil— a Faixa de Gaza na primeira ação terrestre desde que começou a troca de foguetes e mísseis entre o Exército de Israel e o grupo islâmico Hamas no início da semana.

Tropas israelenses haviam se concentrado na fronteira nesta quinta, e militantes do Hamas mantiveram disparos de foguetes, em conflitos que causam preocupação internacional e acirram hostilidades entre judeus e a minoria árabe em várias cidades do país.

Desde o início desta nova fase do conflito, ao menos 116 pessoas morreram —109 em Gaza, incluindo 29 crianças, segundo o Ministério da Saúde local, e 7 em Israel, de acordo com autoridades médicas israelenses— e mais de 500 ficaram feridas.

Apenas nesta quinta-feira, o dia mais sangrento do confronto até agora, houve 52 mortes, todas do lado palestino.

Duas horas após o início da operação, o Exército de Israel disse que não invadiu a região, dando a entender que os disparos estão sendo feitos a partir do território israelense.

A última invasão a Gaza aconteceu em 2014 e resultou na morte de mais de 2.000 palestinos.

O anúncio da ação terrestre foi com apenas uma frase do Exército no Twitter, dizendo que "a aviação israelense e tropas em terra realizam atualmente um ataque na Faixa de Gaza". A informação foi confirmada pelo porta-voz Jonathan Conricus.

Moradores da região da fronteira disseram não ter visto os soldados israelenses no enclave, mas descreveram o uso de artilharia pesada e de dezenas de ataques aéreos.

O Exército israelense ordenou que todas as pessoas que vivam num raio de quatro quilômetros da fronteira se dirijam aos abrigos antibomba, segundo o jornal Times of Israel.

"Eu disse que nós iríamos cobrar um preço alto do Hamas e do resto das organizações terroristas", disse o premiê Binyamin Netanyahu, em comunicado após o início da operação. "Estamos fazendo isso, e vamos continuar a fazê-lo com grande força. Essa operação irá continuar enquanto for necessário para restaurar a paz e a segurança ao Estado de Israel."

Nos últimos dias, autoridades de Israel disseram que iriam realizar ações contra os líderes do Hamas, grupo que controla a Faixa de Gaza e é considerado terrorista por Israel e Estados Unidos.

O Hamas já lançou cerca de 1.800 foguetes, segundo Israel, que afirma ter bombardeado Gaza em mais de 600 ocasiões desde segunda-feira. A maior parte dos foguetes do grupo tem sido interceptada pelos sistemas de defesas antimísseis, que forçam a detonação dos projéteis inimigos a quilômetros de distância, muitas vezes ainda em território palestino.

O Hamas comanda desde 2007 a região da Faixa de Gaza e rivaliza com o Fatah, que controla a Cisjordânia e a ANP —tradicionalmente reconhecida pela comunidade internacional como representante oficial dos palestinos.

Entre a década de 1960 e o início dos anos 1990, o Fatah era considerado o principal grupo palestino e entrou diversas vezes em confrontos contra Israel. Nos últimos 30 anos, porém, a correlação de forças mudou, e o Hamas passou a liderar as ofensivas contra o país vizinho, com a ANP diminuindo a participação em ações violentas.

Apesar do histórico de guerras entre o Estado israelense e grupos palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, tradicionalmente as duas comunidades convivem de maneira relativamente pacífica dentro de Israel, sem grandes episódios de violência nas últimas décadas.

Desta vez, porém, a situação é diferente. Diversas cidades israelenses como Haifa, Jafa, Beersheva e Lod —que ordenou, nesta quinta, toque de recolher das 20h às 3h— têm sido palco de atos da população árabe em apoio à causa palestina. Sinagogas foram atacadas, e conflitos eclodiram nas ruas de algumas comunidades, levando prefeitos e até o presidente a alertar sobre o perigo de uma guerra civil.

Grupos judeus também danificaram lojas, hotéis e carros de moradores árabes. Em Bat Yam, ao sul de Tel Aviv, extremistas judeus realizaram uma marcha na qual, segundo imagens da TV israelense, uma multidão atacou um palestino.

A nova fase de hostilidades foi desencadeada por confrontos entre palestinos e forças de segurança israelenses na mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém. A cidade, sagrada para judeus, palestinos, cristãos e muçulmanos, vive um estado de tensão desde o início do ramadã, mês mais importante para a tradição religiosa islâmica.

No centro dos atuais conflitos estão a liberdade de culto em pontos da região de Jerusalém conhecida como Cidade Antiga —que os palestinos dizem estar sendo tolhida— e uma decisão judicial que prevê o despejo de famílias palestinas do bairro de Sheikh Jarrah que, por veredito de um tribunal regional, devem devolver os terrenos a judeus.

Ativistas palestinos em Israel afirmam ser vítimas de perseguição policial e que as forças de segurança reprimem com violência as manifestações árabes, embora permitam protestos de grupos judeus.

O Conselho de Segurança da ONU marcou uma reunião para o domingo (16) para discutir o agravamento da violência. O plano inicial proposto por China, Tunísia e Noruega era realizar o encontro já nesta sexta (14), mas a ideia foi vetada pelos EUA.

Um dos principais aliados de Israel, o governo americano também se opôs ao longo da semana a uma proposta de declaração conjunta do Conselho que pedia o fim dos confrontos, por considerá-la "contraproducente" e "inoportuna" neste momento. A proposta de resolução pedia, entre outros pontos, que Israel respeitasse a lei internacional, interrompesse a construção de assentamentos em territórios ocupados e se comprometesse a não realizar despejos de palestinos que vivem em Jerusalém Oriental —tema que está no centro da atual onda de violência.

Preocupados com o descontrole da situação, os Estados Unidos anunciaram que estão mandando um enviado à região.

"Os EUA continuarão a se envolver ativamente na diplomacia em alto nível para tentar diminuir as tensões", escreveu no Twitter a embaixadora americana na ONU, Linda Thomas-Greenfield.

Nesta quinta, o CPJ (Comitê para Proteção dos Jornalistas) divulgou que forças de Israel atacaram dois prédios em Gaza que abrigavam mais de dez escritórios de meios de comunicação, como Al-Araby TV e o site Al-Bawaba 24. Não há registros de vítimas, pois houve avisos para que os locais fossem evacuados antes dos ataques. Segundo o CPJ, o governo israelense confirmou as operações e disse que elas ocorreram porque os prédios também abrigavam membros da área de inteligência do Hamas.

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COMO FORAM OS ÚLTIMOS CONFRONTOS ENTRE ISRAEL E GRUPOS PALESTINOS

23 e 24.fev.20 Soldados israelenses acusaram um grupo de palestinos de tentar instalar um explosivo na cerca que separa Israel da Faixa de Gaza, o que gerou um conflito entre os dois lados. Em resposta, o grupo radical Jihad Islâmica disparou em um intervalo de 48 horas cerca de cem foguetes contra a região sul de Israel —que respondeu com bombardeios que deixaram quatro palestinos feridos.

3 a 6.mai.19 Depois de dois soldados israelenses que estavam próximos da divisa ficarem feridos por tiros disparados de Gaza, Israel fez um ataque contra alvos do Hamas na região. Em resposta, foram disparados 690 foguetes de Gaza contra Israel, sendo que 240 foram interceptados pelo sistema de defesa antiaérea. O confronto terminou com 25 mortos do lado palestino —incluindo duas mulheres grávidas e duas crianças— e 4 do lado israelense.

25 a 27.mar.19 Um foguete disparado da Faixa de Gaza destruiu uma casa na vila de Mishmeret, que fica ao norte de Tel Aviv, deixando sete israelenses feridos. O premiê Binyamin Netanyahu ordenou, então, o bombardeio de áreas do Hamas, que disparou foguetes contra a cidade de Ashkelon, no sul de Israel. A violência acabou depois de quase uma semana de confronto.

11 a 13.nov.18 Um homem de 40 anos morreu depois que um foguete atingiu sua casa em Ashkelon. Em resposta, equipes das Forças Especiais de Israel realizaram ações na Faixa de Gaza —sete palestinos e um agente israelense foram mortos. Na sequência, grupos de Gaza dispararam foguetes contra Israel que deixaram 53 feridos. As Forças Armadas israelenses, então, bombardearam Gaza, causando três mortos.

8 e 9.ago.18 O governo israelense chegou a cogitar uma ação terrestre em Gaza depois que o lançamento de quase 180 foguetes da região deixou mais de uma dezena de feridos. No fim, porém, Israel optou por um bombardeio contra 150 alvos, que deixou três palestinos mortos, incluindo um bebê.

jul. e ago.14 Integrantes do Hamas sequestraram e mataram três adolescentes israelenses em junho, em ação que deu início ao maior conflito dos últimos sete anos. Em resposta, Israel lançou uma ação contra alvos do grupo na Cisjordânia. Na sequência, tropas do Exército israelense entraram na Faixa de Gaza, em uma escalada do conflito, que se estendeu por sete semanas. Durante esse período, o Hamas e outros grupos lançaram 4.562 foguetes contra Israel, que revidou com ataques contra 5.262 alvos palestinos. Quando enfim os dois lados chegaram a um cessar-fogo, no fim de agosto, mais de 70 israelenses e 2.100 palestinos tinham morrido.

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