Em 'Anna', diretor Heitor Dhalia reflete sobre relações abusivas

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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL 23.01.2020 - Heitor Dhalia (diretor). (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL 23.01.2020 - Heitor Dhalia (diretor). (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

FOLHAPRESS - Falar de poder e denunciar abusos passou a ser, mais que uma mania, uma necessidade contemporânea. "Anna", novo longa de Heitor Dhalia, sonda essa dimensão inerente aos relacionamentos, construindo uma ficção que é também uma reflexão sobre a criação.

O teatro é o espaço que o filme elege, ciente de suas possibilidades. Um diretor seleciona o elenco para uma montagem de "Hamlet". O grupo de atores jovens e inexperientes se submete ao processo criativo do encenador, embora este demonstre mais de uma vez que sua reputação se confunde com tortura emocional e manipulação.

Durante os ensaios, a jovem Anna, candidata ao papel de Ofélia na tragédia shakespeariana, acata os comandos do diretor, ilustrando a confusão entre autoria e autoritarismo, desejo e submissão.

Depois de sete longas mais ambiciosos do que bem-sucedidos, o diretor Heitor Dhalia alcança, enfim, um equilíbrio entre estilização e mensagem. Desta vez, o filme deixa de ser um atraente catálogo de imagens, pois a intensidade do drama transfere para outro polo a inclinação de Dhalia para o esteticismo.

O enclausuramento é decisivo para este ganho. Em uma sala de teatro vazia, nossa atenção fica concentrada nas relações físicas e psicológicas que Arthur, renomado encenador argentino, impõe aos jovens da companhia.

Em vez de filmar o palco, como de costume, do ponto de vista da plateia, Dhalia inverte a perspectiva, situando-nos dentro, em meio ao grupo. A arquitetura de Lina Bo Bardi para o teatro do Sesc Pompeia converte-se em cenografia, proporcionando um contraste geométrico e cromático à desordem emocional que progride ao longo dos ensaios.

A construção de um espetáculo é também símbolo da criação de um filme, no qual o status do diretor pode levá-lo a se enxergar como um semideus ou um ditador.

Outro aspecto do enclausuramento aparece na opção pelos closes. Desde a primeira cena, na qual se impõe a face crispada de Boy Olmi, ator-diretor argentino que interpreta Arthur, o filme obedece a esta lógica visual e narrativa que sugere restrição e controle.

A "verdade" que Arthur exige e quer arrancar dos atores revela-se no cinema por meio dessa proximidade da câmera, que parece apalpar os corpos, tatear as faces e ir além das palavras. O roteiro de Nara Chaib Mendes, em parceria com Dhalia, sublinha isso ao dar espaço para o não dito, capturado em olhares e na tensão física.

Para alcançar isso, é decisiva a contribuição de Boy Olmi e, sobretudo, de Bela Leindecker, intérprete de Anna, que interagem como feras, reagem com silêncios que soam como ameaças.

Desse modo, o filme consegue abordar o tema do abuso e dos relacionamentos tóxicos sem ficar restrito à agenda contemporânea e sem depender exclusivamente do discurso, das opiniões que o precedem e das quais ele seria uma ilustração.

Muito antes das denúncias que o #MeToo trouxe à tona, as relações abusivas no mundo do cinema ficavam escondidas sob os vínculos entre produtores e diretores, de um lado e, de outro, atrizes que eles moldaram conforme suas obsessões.

Sternberg e Marlene Dietrich, depois Hitchcock e todas as loiras, Rossellini e Ingrid Bergman, Godard e Anna Karina, Bergman e Liv Ullmann, Bertolucci e Maria Schneider, Lars von Trier e Björk são os casos mais conhecidos de excessos no processo criativo, de objetificação da atriz por artistas que ignoraram limites.

"Anna" adota o teatro para refletir sobre algo que, se não é rotineiro, é tido como inerente ao processo de criação cinematográfica. Trazer essa questão à tona sem disfarçar suas ambiguidades torna o filme necessário.

ANNA

Avaliação Muito bom

Quando Estreia nesta quinta (24)

Onde Nos cinemas

Classificação 18 anos

Elenco Boy Olmi, Bela Leindecker, Gabriela Carneiro da Cunha

Produção Brasil, 2019

Direção Heitor Dhalia

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