Em anúncio de saída, Moro cita interferência de Bolsonaro no Ministério da Justiça

Saída de Moro acontece após demissão do diretor-geral da PF, concretizada por Bolsonaro. (Foto: Andre Coelho/Getty Images)

O agora ex-ministro da Justiça Sergio Moro fez um anúncio contundente a respeito dos motivos de sua saída do governo de Jair Bolsonaro. O ex-juiz federal, alçado ao holofotes do combate à corrupção por sua atuação frente a Operação Lava-Jato, deixa o governo depois de o presidente exonerar Mauricio Valeixo, diretor-geral da Polícia Federal.

“Para mim, esse último ato (de exonerar Valeixo) é uma sinalização que o presidente me quer fora do cargo (...). Eu não tinha como aceitar essa substituição em respeito a minha biografia. Seria um tiro na Lava Jato se houvesse substituição de delegados, superintendentes e etc. Preciso preservar meu compromisso que fiz com o presidente de que seríamos firmes no combate à corrupção, crime organizado e violência”.

O ex-ministro alertou que a troca seria uma interferência política na PF e que Bolsonaro concordou que seria mesmo. “Essa interferência pode levar a relações impróprias entre diretor e superintendentes com o presidente e isso eu não posso concordar”, destacou. “O grande problema não é quem entra (na diretoria-geral da PF), e sim porque entra”, completou.

A troca de Valeixo seria, para Moro, uma violação da “carta branca” que ele teria recebido de Bolsonaro para que pudesse realizar nomeações nos escalões do Ministério da Justiça.

“Não é uma questão do nome, tem outros bons nomes para o cargo de diretor da PF, outros delegados competentes. O problema de realizar essa troca é que haveria uma violação na promessa de que me foi feita de que eu teria carta branca. Em segundo lugar, não haveria uma causa para essa substituição. E estaria claro que estaria havendo uma interferência política na Polícia Federal”.

Moro classificou como “ofensiva” a publicação no Diário Oficial da União da exoneração “a pedido” de Valeixo. Segundo o agora ex-ministro, Valeixo nunca haveria pedido a demissão.

AUTONOMIA AMEAÇADA

Moro disse, em seu pronunciamento no fim da manhã desta sexta-feira (24), que Bolsonaro sinalizou que gostaria de nomear um diretor da PF em que pudesse “ligar, pudesse colher informações e colher relatórios de inteligência”.

“Não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informações, as investigações têm que ser preservadas. Imagine se durante a Lava Jato, os ministros, a ex-presidente Dilma, o ex-presidente Luiz (Inácio Lula da Silva) ficassem ligando para diretores, superintendentes em Curitiba e pedindo informações”.

Segundo Moro, Bolsonaro passou a insistir na troca do comando da PF a partir do 2º semestre de 2019. O primeiro indício, segundo Moro, foi a intenção de Bolsonaro ao trocar o superintendente da PF no Rio de Janeiro.

O ex-juiz fez questão de destacar que nem durante os governos petistas a autonomia da Polícia Federal diante aos outros poderes foi desrespeitada.

“Desde 2014, quando estava a frente da Lava Jato, sempre tive preocupação constante de uma haver uma interferência do Executivo nos trabalhos da investigação. Seja através de de trocas de diretor-geral ou troca de superintendentes. Mesmo assim, foi garantida a autonomia da PF. É certo que o governo dessa época tinha inúmeros defeitos, crimes gigantes, mas foi fundamenta a autonomia da PF para realizar esse trabalho. Seja de bom grado ou por pressão da sociedade, a autonomia foi mantida”.

PREOCUPAÇÕES COM INQUÉRITOS NO STF

Moro relatou que Bolsonaro disse a ele que teria preocupação com inquéritos em curso no Supremo Tribunal Federal, e esse seria um dos motivos para troca de Valeixo do comando da PF. “O presidente informou que tinha preocupação em inquéritos em curso no STF e que a troca na PF seria oportuna por esses motivos. Isso gera grande preocupação”.

Nesta semana, o STF abriu uma investigação para apurar o financiamento de grupos que convocaram manifestações e pediram a volta do AI-5. Na mira desse inquérito, estão alguns deputados federais da base do governo Bolsonaro. O próprio presidente, no entanto, não está arrolado na investigação.

A saída de Moro gera uma grande crise política e acontece poucos dias depois da demissão de Luiz Henrique Mandetta, agora ex-ministro da Saúde, depois de diversos atritos com o presidente em relação a medidas de combate ao novo coronavírus.

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Após diversos desgastes, Valeixo negociava uma saída pacífica do cargo para meados de junho, mas a antecipação da demissão surpreendeu aliados. Agora, o presidente quer indicar um nome de sua confiança ao comando da PF.

Desde que assumiu o cargo, Bolsonaro ensaiou em mais de uma oportunidade mudar o comando da PF, minando a influência de Sergio Moro sobre a cúpula da corporação. Tentativas de ingerência se deram com a abertura e o avanço de investigações contra pessoas do entorno do presidente.

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O incômodo de Bolsonaro aumentou recentemente por causa de inquéritos que apuram um suposto esquema de fake news para atacar autoridades em redes sociais, entre elas alguns adversários, e atos pró-golpe militar promovidas por grupos bolsonaristas, no último domingo (19), o presidente foi a um deles.