Em artigo, Regina Duarte se diz vítima de 'infodemia' e tenta justificar citação à marchinha identificada com a ditadura

RIO — Em artigo publicado nesta sexta-feira no jornal "O Estado de São Paulo", a ex-secretária de Cultura, Regina Duarte, defende sua passagem pela pasta e se defende das críticas " à esquerda e à direita", que, segundo a atriz, a colocaram "numa posição intermediária dessa régua imaginária".

Regina começa o texto afirmado estar consciente de que sua passagem pela Secretaria seria alvo de críticas, e que assumiu a missão com a convicção de que teria de "enfrentar interesses entrincheirados em ideologias cujo anacronismo não parece suficiente para sepultá-las".

A ex-secretária afirma não ter fugido ao debate saudável, mas lamenta o que identifica como "a ação coordenada de apedrejar uma pessoa que, há mais de meio século, vem se dedicando às artes e à dramaturgia brasileira".

Ao citar a coerência de sua postura, Regina lembra seu papel na versão de 1985 da novela inspirada na obra do dramaturgo Dias Gomes: "Nos anos 80, na pele da Viúva Porcina e integrante do elenco da novela Roque Santeiro, enfrentei a censura nos primórdios da redemocratização. Fui aplaudida". Na sequência, ressalta: "Duas décadas mais tarde, não me abstive de alertar a sociedade sobre a ameaça que representaria para o País um governo de matiz notoriamente socialista. Fui vaiada".

No artigo, Regina cita o papel desempenhado como "como formuladora de diretrizes" na política pública voltada para as artes, sem no entanto detalhar suas realizações nos dois meses e meio que esteve à frente da pasta.

Ao lembrar a fatídica entrevista para a CNN, que jogou a pá de cal entre as tentativas de aproximação com a classe artística, a atriz explicou o por que de cantar versos da marchinha "Pra frente Brasil", cuja letra de Miguel Gustavo serviu de tema para o tri da seleção brasileira em 1970, e posteriormente apropriada pela ditadura como jingle do "“Milagre Brasileiro", enquanto ditadura comandada por Médici endurecia ainda mais a repressão e a tortura.

"Amo meu país, sim, e tenho deixado isso sempre bem claro, a ponto de, numa recente entrevista à TV, ter cantado a conhecida marchinha dos anos 70, que fala de 'todos ligados na mesma emoção'. Nada a ver com defesa da ditadura, como quiseram alguns, mas com o sonho de brasilidade e união que venho defendendo ao longo de toda a minha vida', justificou a atriz. "E me desculpo se, na mesma ocasião, passei a impressão de que teria endossado a tortura, algo inominável e que jamais teria minha anuência, como sabem os que conhecem minha história. Dito isso, não será o veneno destilado nas redes sociais que me fará silenciar nem renegar amor à minha pátria".

A citação à pandemia não vem como uma lembrança às vítimas da Covid-19, mas como alusão ao que chama de infodemia, um "termo cunhado para designar a pandemia de informações tendenciosas em que conta o viés de quem as veicula e não o factual isento, não a verdade".

Por fim, Regina Duarte acrescenta que o país precisa "de uma política cultural que transcenda ideologias". E finaliza: "Num país que tivesse nas comunicações uma elite pensante que não optasse pelo 'quanto pior, melhor', esse era o trabalho que deveria estar sob os holofotes da opinião pública – nunca a minha pessoa".