Em biografia, Bono conta bastidores do U2, assume erros e detalha drama de saúde

Dos grandes astros do rock da História, talvez mais do que a todos, tenha cabido a Paul Hewson, o Bono, as acusações de ser alguém que aspirasse a santidade. Além de ser o cantor que, à frente do grupo U2, há décadas vem arrebatando o público com canções que inspiram um fervor religioso, como “I still haven’t found what I’m looking for” e “Gloria”, ele também é o sujeito que usou a fama como instrumento para atrair a atenção dos poderosos do planeta, iniciar ações políticas e levantar recursos para causas como o combate à Aids e à pobreza extrema.

Um tanto disso, o leitor encontra em “Surrender: 40 músicas, uma história”, que chega hoje às livrarias de vários países — inclusive o Brasil, pela editora Intrínseca, em tradução de Rogerio W. Galindo. Mas, ao longo de suas mais de 600 páginas, o que a aguardada autobiografia de Bono faz mesmo é usar o mote das 40 canções para organizar em capítulos temáticos as memórias do rockstar irlandês de 65 anos, católico, casado há 40 e pai de quatro filhos, no que elas têm de mais humano — embora o espiritual não seja perdido de vista.

“Sempre amei músicas grandiosas. As músicas são minhas preces”, escreve ele, que formou o U2 ainda adolescente, com os músicos que mais de 40 anos depois ainda seguem na banda: o guitarrista The Edge, o baixista Adam Clayton e o baterista Larry Mullen Jr.. Ao longo das páginas, ele abre confessionários e assume os próprios erros, como o de embarcar na chamada “síndrome do Messias branco” e bater no fã que pegou a sua bandeira pacifista num show do U2 na Los Angeles Sport Arena, em 1983.

Com bastante humor, Bono conta de quando tentou convencer — com sucesso — a Apple a distribuir a seus clientes, sem que eles tivessem solicitado, cópias digitais do álbum de 2014 da banda, “Songs of innocence” (2014) — meio como se ele fosse “uma garrafa de leite” deixada como um mimo na porta dos desavisados. “Como disse um gênio da mídia social: ‘Acordei hoje e encontrei Bono na cozinha, bebendo meu café, vestindo meu roupão, lendo meu jornal’”, ironiza(-se) o músico.

Um dos momentos mais reveladores de “Surrender” é quando ele recorre de fato a um confessionário — em 2002, numa igrejinha na França — para pedir perdão ao pai, que havia morrido de câncer. Aos 14 anos, Bono perdeu a mãe, Iris, para um aneurisma cerebral, e sempre se queixou de que Bob, um fã de óperas, não soubera criá-lo. “Já ouvi falar de pessoas que saem do confessionário livres do peso que carregavam. O que mudou para mim foi a minha voz. Senti que consegui alcançar algumas notas a mais; senti que estava me tornando um tenor de verdade”, escreve.

“Surrender” tem lá os seus momentos dramáticos — como a da cirurgia para corrigir um problema na aorta em 2016 (em “Lights of home”, a canção/capítulo que abre o livro); a crise de fé do vocalista, que quase levou ao fim da banda em 1982; e o clímax do alcoolismo de Adam Clayton, em 1993, durante temporada do U2 em Sidney — o baixista não apareceu para a passagem de som e descobriu-se que ele estava trancado, inconsciente num quarto de hotel, após uma farra descomunal.

Mas o que o livro de Bono oferece de mais delicioso mesmo é a história dos sonhos de adolescentes pobres, em uma Dublin sacudida por atentados terroristas (que deixaram traumas sérios em um dos melhores amigos do cantor, Andrew) — garotos para quem o punk rock era a redenção. Em “Out of control” (capítulo que leva o título da canção feita pelo vocalista aos 18 anos), ele fala da importância dos Ramones, com sua “complexidade muito mais relevante para a minha vida que ‘Crime e castigo’, de Dostoiévski”.

Outra banda importante foi a inglesa Clash: “Quando os vimos tocar na Trinity College em 1977, em Dublin, foi como um convite para sair da plateia e subir ao palco”, conta Bono, que, a partir daí, chegou a Larry Mullen Jr. (o cara que publicou o anúncio “baterista procura músicos para formar banda”), David Evans (The Edge, que criou com o U2 um dos mais influentes estilos minimalistas de guitarra) e Adam Clayton, sobre quem o cantor diz: “Ele tinha o estilo, a atitude, a ambição. O único problema é que não sabia tocar.”

'Vivemos intensamente todos os clichês'

Estereótipos do rock nunca foram lá muito apreciados por Bono e por seus colegas do U2. “‘Sex & drugs & rock’n’roll’” (‘Sexo & drogas & rock’n’roll’) era uma música de Ian Dury que todos amávamos, mas, verdade seja dita, não sabíamos do que se tratava isso”, relata em “Surrender” esse músico que tinha o plano de “trazer a grandiosidade para o punk rock” e alimentava uma fascinação por tudo que se referisse aos Estados Unidos: “A Irlanda é um grande país, mas não é uma ideia. A Grã-Bretanha é um grande país, mas não é uma ideia. A América é uma ideia. Uma ótima ideia.”

No capítulo “Desire” (música de um de seus álbuns mais americanos, “Rattle & hum”, de 1988), Bono fala com entusiasmo de Los Angeles, cidade “onde os arquitetos das décadas de 1950 e 60 tiveram mais liberdade de criação do que em qualquer outra cidade, à exceção de Brasília” e onde eles foram morar no auge do sucesso, capitulando aos estereótipos do rock: “Vivemos intensamente todos os clichês. Andar de moto e beber tequila, às vezes ao mesmo tempo.”

Ativismo

Mais do que uma estrela de rock, aos poucos Bono foi se tornando uma celebridade que o ativismo político aproximou de grandes figuras da política, como Nelson Mandela, Angela Merkel e os presidentes americanos Bill Clinton e Barack Obama. Quem ele nunca suportou foi Donald Trump —a ascensão ao poder do empresário provocou-lhe engulhos. “Trump começa o seu reinado de mentiras compulsivas com uma imagem recortada do Mall, mostrando o lugar abarrotado de gente, sendo que, na verdade, a lotação mal chega a três quartos do total”, escreve no livro. “Entendemos que tínhamos entrado em uma outra dimensão da vida americana.”

Entre coquetéis e gabinetes, o cantor desempenhou com gosto o papel de ponte entre as diversas instâncias políticas no combate à pobreza mundial. “Nunca escondi essa vida paradoxal que acabei indo viver, de astro do rock super-remunerado que fica batendo na tecla das condições de vida dos mais pobres”, conta ele, um cara bem relacionado com milionários como Bill Gates e Warren Buffett.