Em busca de votos, candidatos do Rio reavaliaram deslizes da carreira política antes do primeiro turno

Alice Cravo e João Paulo Saconi
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RIO — Ao longo da campanha pelo primeiro turno da disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro, os primeiros colocados nas intenções de voto tiveram erros, equívocos e deslizes do passado expostos por seus adversários em tentativas de dificultar a chegada num segundo turno. Diante do resgate desses episódios, Eduardo Paes (DEM), Marcelo Crivella (Republicanos), Martha Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT) acabaram revisitando episódios, alianças, discursos, medidas e decisões que marcaram suas carreiras políticas e fizeram, parcialmente, uma mea culpa em busca de apoio e voto na disputa. Confira os recuos listados abaixo.

Paes: Ciclovia e eleitorado feminino

Paes afirmou ao GLOBO em outubro que, se soubesse antecipadamente dos problemas que resultaram da construção da Ciclovia Tim Maia, na Avenida Niemeyer, não teria realizado a obra de cerca de R$ 44 milhões. Em 2016, duas pessoas morreram após uma onda forte atingir a pista e derrubar um trecho de 20 metros da ciclovia. A tragédia aconteceu apenas três meses depois da inauguração. A construção apresentou problemas estruturais em outros três momentos, já na gestão do prefeito Crivella.

— Não faria a ciclovia da Niemeyer. É óbvio. É uma área frágil entre o mar e a encosta. Morreram duas pessoas. Minha ideia é retomar, refazer o que está errado e botar para funcionar com um plano de contingência. Mas vou fazer uma consulta pública — declarou Paes.

O ex-prefeito também se dirigiu aos eleitores para pedir desculpa por outro episódio polêmico: uma declaração desrespeitosa direcionada à manicure Rita de Cássia, uma moradora do Morro da Babilônia, na Zona Sul do Rio, a quem Paes entregou uma moradia popular. O episódio, ocorrido em 2016, foi gravado em vídeo e mostrou o então gestor municipal dizendo que Ritia iria “trepar muito nesse quartinho” e levar "muitos namorados” para o local. Paes também aconselhou Rita a fazer "muito sexo" no local e gritou para os vizinhos: “Ela disse que vai fazer muito 'canguru' perneta aqui. Tá liberado”. O episódio repercutiu na eleição municipal daquele ano, na qual Paes apoiava o deputado federal Pedro Paulo, e viralizou nas redes sociais dois anos depois, na campanha dele próprio ao governo do estado.

Este ano, a cena foi lembrada no debate da TV Band, no início de outubro, por Martha Rocha, em resposta a um comentário de Paes sobre um possível desconhecimento da candidata acerca de dados financeiros da prefeitura do Rio. Na ocasião, Martha se referiu a Paes como “malandro”, “debochado” e “desrespeitoso”.

Após a repercussão do episódio, Paes gravou um vídeo no qual afirmou que errou e pediu desculpas à Rita. A peça foi veiculada no horário eleitoral de TV e rádio, bem como na internet. Nesse contexto, Paes seguiu com uma série de outros acenos ao eleitorado feminino, entre agendas com dezenas de mulheres e publicações especificamente voltadas para elas nas redes sociais.

— Olha, eu errei nesse caso. Fui tentar ser... sem a intenção de errar, sem intenção de ser grosseiro, achei que estava brincando e fiz uma brincadeira de péssimo gosto. Fiz aquilo que toda pessoa que erra e que faz brincadeira de péssimo gosto tem que fazer: procurei a Rita pessoalmente e pedi desculpas a ela.

Crivella: Linha Amarela e "ameaça vermelha"

Crivella trava uma batalha judicial desde o ano passado com a Linha Amarela S/A, a Lamsa, concessionária responsável pela via que liga a Zona Oeste à Ilha do Fundão. O desfecho do episódio ganha destaque na campanha como um dos maiores feitos da administração do prefeito: ele encampou a gestão do pedágio no local, cujo aumento de preço vinha incomodando motoristas. Apesar de ter considerado o movimento um acerto, reconhecido até por Paes, a quem elegeu como maior adversário, Crivella reavaliou a própria postura na condução do processo.

Em junho do ano passado, a prefeitura usou uma retroescavadeira para demolir as cabines do pedágio em um “rompimento unilateral do contrato de concessão da Linha Amarela à Lamsa, que administrava a Via Expressa”, segundo declaração oficial da administração municipal à época. Crivella esteve no local no momento da ação para gravação de um vídeo institucional.

Ao GLOBO, o prefeito avaliou que a atitude “não repercutiu bem” e que talvez não repetisse a mesma linha de ação.

— Houve um momento em que fiquei tão indignado... Havia uma lei de encampação aprovada pela Câmara Municipal, e eles nem ligavam para isso? Então fui lá para tomar uma atitude que realmente não repercutiu bem. Não sei se faria de novo.

Na busca pelo apoio do presidente Jair Bolsonaro, Crivella também precisou rever a sua ligação com o PT. O partido, rival do bolsonarismo, chegou a declarar apoio a Crivella na eleição de 2014, quando ele concorreu ao governo do Rio. O prefeito foi vice-líder do governo Lula no Senado e ministro da Pesca do primeiro governo de Dilma Rousseff. Em 2014, quando deixou a pasta para concorrer ao Palácio Guanabara, Crivella tentou atrair o apoio da então presidente Dilma e, assim como o atual “BolsoCriva”, criou à época o “Dilmella”.

— Sempre contei com o apoio da presidente Dilma. Não com a liberdade que eu gostaria porque havia outras coligações aqui que a apoiava. Agora sou eu e o Pezão. E como o Pezão é Aécio, no fundo, no fundo, o que sobrou é o 'Dilmella... — declarou em 2014 sobre o cenário formado para o segundo turno da disputa.

Hoje, no entanto, Crivella se associa fortemente às pautas bolsonaristas que, para além do conservadorismo e da religião, pregam uma oposição ao PT e aos partidos de esquerda que, segundo eles, representam uma “ameaça vermelha”. Sobre a mudança radical da linha política, o prefeito já afirmou que não houve uma alteração de “princípios e valores” e que hoje está alinhado com Bolsonaro porque, assim como o presidente, defende a família e a vida.

— Em princípios e valores não houve mudança nenhuma. Eu defendo a vida. Bolsonaro defende a vida. Eu defendo a família. Bolsonaro defende a família. No governo do PT houve um desgaste imenso porque líderes políticos foram envolvidos em corrupção. Eu e Bolsonaro, no tempo em que trabalhávamos no Congresso, não divergíamos em termos de princípios.— declarou em entrevista ao GLOBO.

Martha: Brazão e Edmar Santos

Já a candidata do PDT, Marta Rocha, reavaliou o voto dado em 2015, no seu primeiro mandato como deputada estadual na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), no então deputado Domingos Brazão para conselheiro no Tribunal de Contas do Estado (TCE). Brazão foi preso em 2017 na Operação Quinto do Ouro da Polícia Federal, que apurou desvios para favorecer membros do TCE durante a gestão de Sérgio Cabral.

O voto em Brazão foi criticado, por exemplo, pela ex-deputada estadual Cidinha Campos (PDT), aliada do candidato do DEM à prefeitura do Rio, Eduardo Paes, em um vídeo no qual afirma que “uma delegada não pode ignorar a biografia de quem está votando”.

— Naquele momento havia a vaga da Alerj, com dois candidatos. Naquele momento não havia nenhuma punição ao candidato Domingos Brazão. Votei, votei sim. Avaliando hoje, talvez não tivesse votado, mas naquele momento não havia disponível nenhuma questão que o acusasse, nenhum denúncia formal — reavaliou.

Martha também é autora de um pedido à Mesa Diretora da Alerj para revogar a resolução de 27 de outubro de 2016 que, assinada por ela junto com outros deputados, concedeu a Medalha Tiradentes ao ex-Secretário de Saúde do Rio de Janeiro Edmar Santos, delator dos esquemas de desvios envolvendo Organizações Sociais durante a pandemia de Covid-19 . O pedido foi feito em julho e acatado pela Alerj em outubro.

À época, Edmar recebeu a mais alta honraria da casa legislativa por possuir um excelente currículo e ter prestado relevantes serviços ao Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE).

— Entrei com o pedido na presidência da Alerj em julho. Sou co-autora do pedido da medalha. Quem capitaneou esse processo foi o deputado Zaqueu Teixeira (PSD), que presidia uma comissão de representação de apoio ao hospital [Universitário Pedro Ernesto]. Isso foi em 2016, no auge da crise financeira. Diante das notícias da Covid 19 eu em julho fiz um pedido, um projeto de resolução para cassar a medalha dele. Não estive presente no momento que entregaram a medalha, que foi concedida no cenário de 2016, uma pessoa que estava na Alerj pedindo apoio para o Hospital Universitário da Alerj — declarou Martha ao GLOBO.

A honraria já foi citada, por exemplo, pelo governador afastado do Rio, Wilson Witzel, para alfinetar a candidata. Na ocasião, em uma rede social, o governador afastado questionou se como presidente da Comissão de Saúde, Martha não tinha percebido “os malfeitos dele desde o Hospital Pedro Ernesto”.

Martha também precisou revisitar a prisão em 2013, durante manifestações, do ex-morador de rua Rafael Braga, caso que levanta polêmicas e discussões até hoje: ele foi preso enquanto portava um frasco de desinfetante e responde a um processo criminal por tráfico de drogas — em 2016, enquanto cumpria regime semiaberto, ele foi detido com maconha e cocaína. A candidata do PDT, que era Chefe da Polícia Civil na época da primeira prisão, se manifestou sobre o caso no Twitter após passar a ser criticada nas redes sociais por supostamente ter se omitido diante de uma injustiça. Paes encampou esse discurso no horário eleitoral de rádio e televisão, numa tentativa de desgastá-la junto ao eleitorado de esquerda.

Para se defender, Martha afirmou que tem consciência da importância e gravidade do caso e que o delegado e o inspetor responsáveis por ele realizaram a “apreciação dos fatos e assinaram o auto de prisão em flagrante”. Martha também afirma que não era sua atribuição investigar o caso ou interferir no trabalho dos agentes, que têm autonomia funcional.

“Reitero o meu compromisso contra as injustiças. Minha trajetória na Polícia Civil foi pautada pela luta em defesa dos direitos humanos”, escreveu Martha na rede social.

Ao GLOBO, a candidata afirmou que a situação apreciada pela Polícia Civil resultou em denúncia do Ministério Público (MP) e em condenação do Poder Judiciário e que, por isso, não acredita “que essas duas instituições não tenham olhado detalhadamente tudo o que aconteceu”..

— A situação da Polícia Civil que foi apreciada pelo delegado de plantão virou denúncia do MP e uma condenação do Tribunal do Poder Judiciário. Me parece, olhando as decisões do MP, que inclusive pediu a decretação da prisão preventiva, e olhando a decisão do Poder Judiciário, não acredito que essas duas instituições não tenham olhado detalhadamente tudo o que aconteceu na lavratura daquele auto de prisão em flagrante — declarou.

Benedita: "Nem PT nem PCdoB são perfeitos"

Em discurso no último dia 6, a petista Benedita da Silva declarou que “nem o PT nem o PCdoB são partidos perfeitos, mas é o que a esquerda tem neste momento”. A declaração foi dada ao lado do presidenciável Fernando Haddad (PT), na tentativa de engajar a militância em um último fôlego antes do segundo turno.

A fala da candidata remete aos frequentes pedidos ao PT para que faça uma autocrítica sobre os escândalos de corrupção no passado, que envolveram, inclusive, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um dos maiores nomes da sigla. O partido também é criticado por ser refratário a uma aliança dos partidos de esquerda e apostar em candidaturas próprias.

Benedita disputa uma vaga no segundo turno com o atual prefeito Marcelo Crivella e, mais diretamente com Martha Rocha. A pedetista tenta concentrar os votos da esquerda para superar o atual prefeito. Os dois candidatos estão mais próximos numericamente, com 11% e 14% respectivamente. Benedita concentra 8% das intenções de voto, segundo o Datafolha divulgado nesta quarta-feira