Em campanha, Doria mostra médicos mortos e apela a paulista para ficar em casa

IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Preocupado com a baixa adesão ao isolamento social no estado na pandemia da Covid-19, o governo de São Paulo resolveu modificar sua campanha publicitária pedindo para as pessoas ficarem em casa, adotando um tom mais grave.

A partir desta quinta (14), filmes de 1 minutos na TV e na internet mostrarão quatro casos reais de mortes de profissionais de saúde devido ao novo coronavírus.

Seus nomes, função, idade e cidade de atuação acompanham as fotos e um pequeno texto explicando as condições do óbito: sem doenças preexistentes, falecido após 19 dias na UTI etc.

"Essas vítimas era profissionais de saúde que estavam lutando para salvar suas vidas", segue o texto, que em seguida mostra o depoimento do médico Jaques Sztalnbok, do hospital paulistano Emílo Ribas, pedindo para que as pessoas fiquem em casa.

A dramaticidade do vídeo muda o tom do governo. Inicialmente, havia a preocupação de um tom de alerta sobre a gravidade da pandemia. Com a adesão inicial abaixo dos 70% desejados, mas acima dos 50%, a retórica foi mudada para a associação entre ficar em casa e um ato de amor ao próximo.

Pesaram no cálculo as críticas duras vindas do governo federal. Jair Bolsonaro (sem partido) e João Doria (PSDB-SP) estão em polos opostos no embate público sobre a condução da doença.

O presidente busca minimizar aspectos médicos da crise e priorizar uma tentativa de reabertura da economia, mesmo com as curvas de infecção e mortes pela Covid-19 na ascendente. Já o governador paulista mantém a política de quarentena, que foi estendida até 31 de maio inicialmente.

Especialistas creem que será difícil o tucano escapar, em alguma medida, de políticas de lockdown (confinamento) caso a curva paulista da doença não mude.

A propaganda vai numa direção algo contrária daquela da prefeitura paulistana, comandada por Bruno Covas (PSDB). A campanha municipal teve peças de tom bastante dramático, lembrando a tragédia dos corpos empilhados em Guayaquil (Equador), e agora está mais leve.

A capital também adotou, sem informar antes o governo estadual, um rodízio radical em que apenas metade da frota pode circular todos os dias, o que é alvo de críticas por especialistas por sobrecarregar o transporte coletivo.

Nesta terça (12), o confinamento medido a partir da movimentação de pessoas com celulares em 104 cidades com mais de 70 mil habitantes estava em apenas 47%.

No governo paulista, a discussão tem sido cada vez menos sobre o se, e mais sobre o quando o lockdown ocorrerá. E, principalmente, acerca do como ele seria executado.

Não há consenso sobre como seria feito o uso de forças policiais, já que as insinuações iniciais de Doria de que no extremo poderia haver prisões ou multas a moradores foram mal recebidas politicamente.

A ideia de punições, apoiada pela população segundo o Datafolha, virou munição de Bolsonaro não só contra Doria, mas também outros governadores e prefeitos na mesma situação. A exequibilidade do lockdown também é questionada: em lugares como Belém, a cidade manteve ruas lotadas mesmo com a ordem.

São Paulo tem mais de 50 mil casos e de 4 mil mortes pela Covid-19, sendo um dos epicentros da pandemia no país --uma obviedade dado o fato de ser o estado mais populoso e também o principal centro de circulação de pessoas de outras regiões e países no Brasil.