Em Carapicuíba, unidade de saúde funciona em salão de igreja há 11 anos

ANA BEATRIZ FELICIO
·5 minuto de leitura

CARAPICUÍBA, SP (FOLHAPRESS) - Quem chega pela primeira vez na UBS Vila Helena, que fica no bairro de mesmo nome, em Carapicuíba, na Grande São Paulo, pode estranhar a localização. A entrada da unidade básica de saúde se dá por um portão contíguo a uma igreja católica, parecendo fazer parte da paróquia. A sensação de estranhamento não é à toa. Há 11 anos a UBS do bairro fica em uma estrutura improvisada dentro do que antes era o salão da Igreja Nossa Senhora de Fátima. A unidade foi transferida para o prédio do salão da igreja no dia 22 de agosto de 2009. A mudança seria provisória, enquanto a prefeitura, chefiada até então por Sérgio Ribeiro (PT), reformaria o local antigo na mesma rua. No entanto, o prédio anterior acabou virando uma escola. Com isso, moradores que acessam o serviço têm uma estrutura precária: o espaço interno é limitado e improvisado com divisórias que separam as salas. Nas de inalação, por exemplo, só cabem duas pessoas sentadas ao mesmo tempo. Alguns espaços são ainda compartilhados com quem usa a igreja. De uma porta no espaço externo, que fica trancada, é possível ter acesso à paróquia. "Os banheiros são utilizados tanto para quem passa no postinho como para quem vem para a Igreja, é o mesmo banheiro, o mesmo corredor. A cozinha também que se usa para igreja, o pessoal da prefeitura também utiliza", conta a autônoma e conselheira da saúde Sandra Regina Araujo da Silva, 44. "Com a pandemia a gente não está fazendo muita utilização, porque as missas estão sendo agendadas por telefone, uma quantidade limitada de pessoas." Militante pelos direitos de um melhor acesso à saúde no bairro, Sandra diz que entrou para o Conselho de Saúde de Carapicuíba há quatro anos, justamente para tentar reverter a situação precária da UBS. "É um direito nosso sermos atendidos em um local decente", defende. "E até hoje temos esse local pequeno, quente, que não tem estrutura para nada." A mudança da Unidade Básica da Saúde para um novo local é uma promessa antiga. No começo deste ano, a Agência Mural entrou em contato com a Prefeitura de Carapicuíba para perguntar sobre a situação. Em 31 de janeiro, a administração respondeu que houve dificuldades para encontrar um imóvel apropriado para fazer todas as adequações, mas que o espaço já estava definido e nos próximos meses haveria a inauguração das novas instalações da UBS, já que esse era um compromisso da atual gestão do prefeito Marcos Neves (PSDB). Entretanto, até dezembro, mesmo após as eleições municipais e com o prefeito reeleito, nada mudou. "Eu me sinto lesada, porque, na realidade, o povo já está cansado de tanta promessa. A gente já fica sem esperança e desacreditado." Célia Severina Gonçalves, 54, também defende que o posto precisa de um novo lugar, mas desde que seja próximo ao bairro, já que a vinda de uma UBS foi uma conquista dos moradores. "Moro aqui há mais de 50 anos, esse posto de saúde sempre foi a nossa polêmica, lutamos muito para trazer [a unidade], todo mundo aqui sabe", relembra. "A gente aqui já tem uma dificuldade para passar no médico, se vai marcar uma consulta demora um mês, dois meses, três meses para esperar. Fora remédio, a maioria deles não têm. Todo mundo elogia todos os outros postos [da cidade], agora por que nós somos os esquecidos da Vila Helena?" A questão da demora nas consultas e da falta de medicamentos também é uma queixa de outros moradores. Vizinha do posto, Maria José do Nascimento, 71, conta que precisou ir a médicos particulares para ter uma consulta devido a um problema no coração. "Quando eu vou marcar uma consulta lá [na UBS Vila Helena] elas falam que não tem vaga, que só tem vaga pra tal tempo e esse tempo vai passando e nunca tem vaga, eu não estou passando no médico aqui, meus filhos estão pagando particular." Além dos remédios para o coração, Maria toma medicamentos para o estômago, diabetes, labirintite e controle da pressão. "A gente vai pegar remédio eles falam 'não tem, não tem'. Eu só pego o de diabetes e o de pressão aí, quando tem, e quando não tem, eu tenho que ir na farmácia." Já para a dona de casa Marcela dos Santos, 39, o atendimento não deixa a desejar, quando comparado a outros postos de saúde da cidade. "Estrutura não temos, nem espaço, nem nada. Do atendimento não tenho do que reclamar, sou sempre muito bem atendida." "A gente procura socorro nos municípios vizinhos", ressalta Sandra. O Jardim Helena fica localizado perto do limite com outras cidades como Osasco e Cotia. Com uma população estimada em cerca de 400 mil habitantes, Carapicuíba possui 12 unidades básicas de saúde, um AME (ambulatório médico de especialidades), uma policlínica e apenas um hospital público, além de um pronto-socorro infantil e dois voltados ao público adulto. Outro lado Questionada a respeito da situação da UBS Vila Helena e sobre o motivo de não ter cumprido o prazo prometido, a Prefeitura de Carapicuíba informou que a mudança não ocorreu devido {a reestruturação da Saúde no enfrentamento ao coronavírus e que o planejamento deste ano foi modificado por causa da pandemia, mas que as novas instalações da unidade estão na programação de 2021. Questionados sobre o endereço do novo local, bem como a data prevista para mudança, a administração respondeu apenas que informará "quando houver a definição". Até 14 de dezembro, Carapicuíba tinha 412 mortes por Covid-19 e mais de 11 mil casos confirmados. A prefeitura diz ainda que durante a pandemia foi erguido um hospital de campanha em uma estrutura já existente, um Centro de Enfrentamento ao Coronavírus, um Centro de Acolhimento e Apoio ao Isolamento Social e houve a contratação de 65 leitos clínicos e de UTI do Hospital São Camilo, além da testagem em massa, que já realizou mais de 40 mil testes.