Em carta, ABI e ACERJ pedem que mudança de nome do Maracanã não seja sancionada

Tatiana Furtado
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A aprovação da mudança do nome do Estádio Mario Filho para Rei Pelé causou surpresa e espanto à Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e à Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro. As entidades enviaram cartas ao governador interino do Rio, Claudio Castro, pedindo que não sancione a proposta. Na terça-feira, a Alerj aprovou, de forma urgente, projeto de lei que prevê que o jornalista Mario Filho nomeie todo o complexo esportivo do Maracanã, composto pelo estádio, o ginásio do Maracanãzinho, o parque aquático Julio Delamare e o estádio de atletismo Célio de Barros.

Na carta, a ABI reconhece o mérito de todas as homenagens a Pelé, mas ressalta a importância do jornalista Mario Filho na viabilização do estádio e na criação da mística do Maracanã. Ainda lembra a relevância dele para o jornalismo esportivo brasileiro. No fim, a entidade pede que não se permita mais uma mutilação no Estádio do Maracanã com a troca de nome.

"Para a ABI, independentemente de questionamento jurídico quanto à legalidade de homenagear pessoas vivas, o que importa, neste momento, é não permitir mais uma mutilação no Estádio do Maracanã, com a retirada do nome do Jornalista Mario Filho", escreveu o presidente da ABI, Paulo Jeronimo.

A ACERJ também destaca o papel de Mario Filho na construção do imaginário do futebol carioca e brasileiro, ao criar, por exemplo, a expressão Fla-Flu. A entidade lembra que ele também "colaborou para a popularização da cobertura jornalística do futebol trocando os termos rebuscados da época por expressões mais populares e o Maracanã muito contribuiu para isto".

Confira a carta da ACERJ:

Excelentíssimo Governador Cláudio Castro,

Foi com absoluta surpresa que a ACERJ – Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro – Entidade centenária e atuante no cenário esportivo do Rio de Janeiro desde 1917 recebeu a notícia de que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro decidiu de modo inexplicavelmente urgente trocar o nome do Estádio Mário Filho para “Estádio Edson Arantes do Nascimento – Pelé”. Com que propósito? Com quais argumentos?

Sabemos todos – cronistas esportivos e torcedores em geral – que Pelé é o maior jogador de futebol do mundo em todos os tempos e que jamais haverá outro igual. Ao Rei Pelé todas as homenagens devem ser prestadas, menos essa, que surrupia o nome de quem idealizou a construção do maior estádio do mundo no bairro do Maracanã, que foi o jornalista Mário Filho.Um pouco de história, senhor Governador: a construção do estádio foi muito criticada por Carlos Lacerda, na época deputado federal e inimigo político do então General de Divisão e Prefeito do Distrito Federal do Rio de Janeiro, Marechal Ângelo Mendes de Moraes, pelos gastos e, também, devido à localização escolhida para o estádio, defendendo que fosse construído em Jacarepaguá.

Depois de muitos debates a respeito de onde ele seria construído, decidiu-se que deveria ficar num local de acesso fácil por vários meios de transporte. Desta forma, o local escolhido pertencia ao Derby Club, onde eram realizadas corridas de Turfe até a década de 1920, quando perdeu espaço para o Hipódromo da Gávea. Para que isto ocorresse, foi realizada uma campanha pelo Jornal dos Sports, com a assinatura de Mário Filho. Muitas capas do JS foram feitas pedindo que o Maracanã deveria ser o local para o maior do mundo, futura sede da Copa de 1950.

Mário Filho defendeu um estádio que pudesse ser popular, fosse parte da cidade, com melhor localização, contando com os espaços para o trabalho da imprensa, por isso também pediu uma tribuna de imprensa e vinte cabines de transmissão, com o apoio de Célio de Barros, então presidente de nossa associação de classe (ACD, à época). Tanto que o estádio de atletismo depois passou a se chamar Célio de Barros.

Mário Filho foi um profissional importante para a identidade do Rio de Janeiro, criou aqui o primeiro jornal brasileiro dedicado apenas ao esporte. Colaborou para a popularização da cobertura jornalística do futebol trocando os termos rebuscados da época por expressões mais populares e o Maracanã muito contribuiu para isto. Foi Mario Filho quem cunhou a expressão Fla-Flu, um dos mais destacados clássicos jogados no estádio.

São 70 anos de aprovação popular, Governador. Por isso os cronistas esportivos do Rio de Janeiro, aqui representados por sua associação de classe – ACERJ – repudiam a iniciativa da ALERJ e rogam ao senhor que não aprove o projeto, por ferir a memória do jornalismo e contrariar a quase unanimidade (pois que “toda unanimidade é burra”, já dizia Nélson Rodrigues, irmão de Mário Filho) do pensamento do torcedor brasileiro.