Em carta a Lula e Gleisi, nicaraguenses no Brasil repudiam apoio do PT a Ortega

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*ARQUIVO* RECIFE, PE, 17.11.2019 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa do festival Lula Livre na praça Nossa Senhora do Carmo, região central do Recife (PE). (Foto: Leo Caldas/Folhapess)
*ARQUIVO* RECIFE, PE, 17.11.2019 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa do festival Lula Livre na praça Nossa Senhora do Carmo, região central do Recife (PE). (Foto: Leo Caldas/Folhapess)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um grupo de intelectuais e ativistas nicaraguenses que vivem no Brasil enviou uma carta ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à presidente do PT, Gleisi Hoffmann, manifestando "surpresa, frustração e indignação" em relação a uma nota do partido que celebrou a vitória do ditador Daniel Ortega em eleições de fachada no país centro-americano.

Na carta aberta, eles afirmam que a legenda está sendo conivente com a repressão de Ortega à população, que já deixou mais de 300 mortos, milhares de feridos e ao menos 140 mil exilados.

"Com essa postura, o PT faz vista grossa a inúmeras reclamações de instâncias democráticas e redes de organizações de direitos humanos, que em diversas ocasiões já questionaram e denunciaram a escalada autoritária de Ortega e a ilegitimidade do recém-encerrado processo de votação", diz o texto.

No último domingo (7), Ortega disputou o comando do país contra cinco outros candidatos —todos parte do teatro do pleito de fachada, já que são aliados do governo. Nos últimos seis meses, o regime prendeu outros sete postulantes de oposição, acusados de lavagem de dinheiro e traição à pátria. O pleito também não contou com observadores internacionais, vetados pelo Judiciário, ligado ao ditador.

Na segunda-feira (8), o PT divulgou uma nota classificando a eleição como "uma grande manifestação popular e democrática" e dizendo que o resultado confirma "o apoio da população a um projeto político que tem como principal objetivo a construção de um país socialmente justo e igualitário".

O texto foi assinado por Romenio Pereira, secretário de Relações Internacionais da legenda.

Nesta quarta-feira (10), Gleisi publicou um post no Twitter no qual afirma que a nota não foi submetida à direção partidária. Ela, porém, não condenou o teor do texto divulgado, afirmando apenas que a posição da legenda em relação a qualquer país é a "defesa da autodeterminação dos povos, contra interferência externa e respeito à democracia, por parte de governo e oposição" e que a prioridade é debater o Brasil.

Nos bastidores, aliados da presidente do PT dizem que ela não referendou a nota e não concorda com o teor do texto, por isso decidiu se manifestar publicamente. No partido, os secretários têm autonomia para postar comunicados que dizem respeito às suas áreas, mas questões sensíveis geralmente passam pelo crivo da direção.

​O grupo que escreveu a carta assina como Coletivo de Nicaraguenses no Brasil e é formado por cerca de 15 imigrantes que atuam como professores universitários, pesquisadores e "militantes do campo progressista latino-americano", em sua própria definição.

Eles afirmam que optaram por não assinar seus nomes por temores de que familiares que continuam na Nicarágua sofram retaliações —algo que já aconteceu com alguns deles.

O coletivo diz que há mais de três anos vem tentando dialogar com a direção do PT —sem sucesso.

"Não apenas o partido tem se fechado a dialogar com os ativistas, líderes de movimentos sociais e intelectuais nicaraguenses no Brasil como, numa ação sem precedentes, resolveu ficar calado a uma carta que organizações de mães de presos políticos enviaram ao ex-presidente Lula em setembro de 2021, apelando a sua sensibilidade, histórico de luta e vocação democrática", diz o texto.

"A onda repressiva do nosso país interroga a esquerda brasileira sobre a existência de limites práticos na defesa dos direitos humanos no contexto de práticas autoritárias, mas interroga principalmente se tudo é permitido quando essas práticas são realizadas em nome de um suposto campo anti-imperialista." ​

Para um dos membros do coletivo, Humberto Meza, doutor em ciência política pela Unicamp e pesquisador na UFRJ, a nota do PT contradiz a história do partido.

"O PT tem histórico de presos políticos na ditadura. O próprio Lula foi preso recentemente em um processo questionado. Isso é o que está acontecendo hoje na Nicarágua. O PT não pode ser acrítico em relação a um governo que vai na contramão de uma esquerda democrática", afirma.

Ele cita uma entrevista concedida recentemente por Lula a uma jornalista mexicana, na qual o ex-presidente criticou Ortega. "A gente é consciente do papel do PT na América Latina e no cenário internacional. Achamos que o partido deveria fazer uma discussão interna sobre qual é a postura frente às violações de direitos humanos na Nicarágua."

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