Em carta, Monique contradiz depoimento e afirma que foi Jairinho quem encontrou Henry caído no chão

Paolla Serra
·5 minuto de leitura

RIO — Ao delegado Henrique Damasceno, titular da 16ª DP (Barra da Tijuca), em 16 de março, Monique Medeiros da Costa e Silva, contou ter encontrado, oito dias antes, o filho, Henry Borel Medeiros, de 4 anos, no chão, com mãos e pés gelados e olhos revirados. Em uma carta, escrita na última sexta-feira, no Hospital Penitenciário Hamilton Agostinho, no Complexo Penitenciário de Gericinó, onde recebe tratamento contra a Covid-19, a professora mudou sua versão do depoimento sobre a morte do menino. Em 29 páginas, ela descreve uma rotina de violências, humilhações e crises de ciúmes do namorado, o médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (sem partido), e afirma ter sido o parlamentar quem encontrou a criança com dificuldade respirar, depois de, segundo ele, cair da cama.

No documento, ao qual O GLOBO teve acesso, Monique narra em detalhes o término de seu relacionamento com o engenheiro Leniel Borel de Almeida, pai de Henry, em meados do ano passado. A família morava em uma cobertura na Estrada do Pontal, no Recreio, e, durante a pandemia, com o acúmulo de trabalho do rapaz - ele fazia 15 reuniões por dia, a professora diz ter ficado sobrecarregada com o serviço remoto - ela era diretora da Escola Municipal Ariena Vianna da Silva, em Senador Camará - os afazeres domésticos e cuidados com o filho. Monique explica que Leniel não tinha tempo para os dois e o casamento começou a entrar em “crise”.

Monique diz ter conhecido então, pelo Instagram, Jairinho. Após pedir a separação de Leniel e voltar para a casa da família, em Bangu, ela marcou um almoço no shopping Village Mall com o vereador, em 31 de agosto. O encontro rendeu outro almoço e os dois começaram então a namorar, cerca de 15 dias depois. Ela conta que, a partir daí começaram os primeiros sinais de ciúmes: ele passou a pedir para que ela apagasse fotos de suas redes sociais, colocou um localizador em seu celular, passou a ligar para ela 20 vezes por dia e até a colocar pessoas para segui-la e saber que roupa ela estava malhando, por exemplo.

Monique relata que, em meados de outubro, sabendo que ela estava com Henry no Barra Shopping, o vereador apareceu de surpresa e foi apresentado ao menino como “médico da mamãe”. Às vésperas da eleição, Jairinho teria dito a ela que, aos 42 anos, não tinha mais tempo para desperdiçar e queria apresenta-la para seus três filhos e ainda que fossem morar juntos, em um apartamento alugado no Condomínio Majestic, no Cidade Jardim. A professora explica que, por ser uma pessoa “politicamente exposta”, ele teria pedido que ela agilizasse o divórcio com Leniel, o que foi prontamente atendido. Monique diz que o vereador teria dito para que ela não se preocupasse com a divisão de bens, pois nada faltaria a ela e a Henry.

Pressionada, a professora afirma na carta ter começado a ter crises de ansiedade e picos de pressão, tendo sido medicada com ansiolíticos pelo vereador. Ela diz que, no começo de dezembro, estava dormindo na casa dos pais com Henry quando Jairinho invadiu o imóvel, durante a madrugada, e lhe enforcou. O vereador teria jogado o celular em cima dela, a xingando e a ofendendo por ela ter trocado mensagens com o ex-marido. Na conversa, ela o chamava de “Le” e era chamada de “Nique”. A professora relatou que o namorado estava “transtornado” e “desfigurado com raiva”. No dia seguinte, teria pedido desculpas, dito que a amava e que seus ciúmes se dava pelo fato de ela ser muito bonita.

Em janeiro, o casal se mudou com Henry para o Majestic. Em um dos fins de semana que Leniel foi devolver o filho a mãe, o engenheiro pediu para conversar com Jairinho sobre os abraços apertados que eram alvos de reclamações do menino. Monique diz ter acompanhado o o diálogo e passado a “observar, notando que o filho e o namorado se afastaram a partir de então. Em outro momento, quando ela cozinhava o jantar, o menino correu até ela dizendo que “o tio” tinha lhe dado uma banda. O vereador respondeu ser uma “brincadeira” e Monique diz não ter visto nada de “maldoso”.

A professora relata que os dois começaram a solicitar mais sua atenção e ela passou a se desdobrar para atender “seus dois filhos (Henry e Jairinho)”. Como o vereador tomava remédios fortes para dormir, ele teria começado a dar os comprimidos a ela também e a colocar “um pozinho” em suas taças de vinho. Em uma das ocasiões, ao perguntar o motivo disso, ele teria a humilhado, dizendo que ela queria ficar acordada para “falar com homens” no Instagram. Ao tentar ir embora de casa, chorando, ela teria sido empurrada na cama. Depois, Jairinho teria dado “uma joelhada” na parede e dito que ela o machucou.

No dia seguinte, novamente ele pediu desculpas e disse que a amava. Na tarde de 12 de fevereiro, Monique diz ter ido ao salão, pois viajaria no dia seguinte, que era o início do feriado de carnaval. Jairinho teria chegado mais cedo e a babá passou então a narrar em tempo real que o menino fora levado ao quarto do vereador e, depois, lhe telefonou de chamada de vídeo com Henry contando que eles haviam brigado. A professora contou ter saído no shopping e discutido com o namorado, que insistiu em dizer que ela estava alterada e nada tinha acontecido.

Ela então diz ter levado o filho para a casa dos pais e relatado a eles, que ficaram preocupados. Na carta, no entanto, ela diz que o menino não apresentava hematomas no corpo - o que não dava “certeza” sobre as agressões. Sobre o depoimento na delegacia, Monique diz ter sido orientada a mentir sobre a morte do filho. Ela escreveu que, por volta de 1h30 de 8 de março, Jairinho lhe deu dois remédios e ela logo adormeceu. Horas depois, ele a acordou dizendo que ouviu um barulho e, ao chegar no quarto, Henry havia caído da cama. Ela diz ter acredito que a criança estava desmaiada.

“Na emergência do hospital, foram os minutos, segundos e horas mais desesperadoras que eu já pude vivenciar na vida. Eu orava, ajoelhava, implorava”, finalizou Monique sobre o momento em que esteve no Barra D’Or, para onde ela e Jairinho socorreram Henry. De acordo com os depoimentos prestados pelas médicas, o menino já chegou morto a unidade de saúde.