Em carta, Pelé pediu para Maradona não abandonar o futebol

Colaboradores Yahoo Esportes
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Former Argentinian football international Diego Maradona (L) and former Brazilian footballer Pele pose after a football match organised by Swiss luxury watchmaker Hublot at the Jardin du Palais Royal in Paris on June 9, 2016, on the eve of the Euro 2016 European football championships. (Photo by PATRICK KOVARIK / AFP) (Photo by PATRICK KOVARIK/AFP via Getty Images)
Maradona e Pelé durante evento antes da Eurocopa de 2016 (PATRICK KOVARIK/AFP via Getty Images)

As pessoas próximas a Diego Maradona ficaram alarmadas quando o Boca Juniors (ARG) chegou de uma excursão à Costa do Marfim em 1981. O jogador desembarcou dizendo desejar parar de jogar futebol. Estava cansado do assédio e queria, segundo as palavras dele mesmo, voltar a "jogar por uma Coca-Cola, como era em (Villa) Fiorito", o bairro pobre onde nasceu.

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Jorge Cyterzpiller, amigo de infância e empresário do camisa 10, precisava agir. Foi quando teve a ideia de pedir ajuda que hoje seria considerada inusitada.

"Pelé mandou uma carta para Diego. Escreveu que ele não deveria desistir, que o futebol precisava dele e que ele se arrependeria de não insistir e realizar seus sonhos. Aquilo o tranquilizou", afirma o jornalista Guillermo Blanco. Ele seria o primeiro assessor de imprensa da carreira do craque argentino morto em novembro do ano passado, aos 60 anos.

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O Yahoo Esportes tentou ouvir as lembranças de Pelé sobre o episódio, mas não conseguiu contato com o ex-jogador brasileiro.

Quem lembrar a trajetória de farpas trocadas entre os dois campeões mundiais pode ficar surpreso com a preocupação de Pelé com Maradona. Os dois se tornaram rivais históricos. Mas não foi o único episódio do tipo.

Blanco é personagem central nessa relação. Como repórter da revista argentina El Gráfico, já extinta, ele foi o responsável pelo primeiro encontro entre os dois, em abril de 1979.

"Isso foi produto de um sonho de Maradona. Em janeiro de 1979, em uma excursão da seleção de juvenis por Montevidéu, ele foi capa pela primeira vez de El Gráfico e me deu uma entrevista no estádio Centenário. Fomos à praia depois e ele me confessou que tinha um grande desejo de conhecer Pelé. Quando voltei a Buenos Aires, apresentei a ideia à revista", relembra.

Depois de três meses de negociações, Pelé marcou a data: 9 de abril, em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro.

"No domingo anterior, o Argentinos Juniors, onde Diego jogava, enfrentou o Huracán. Saímos do vestiário direto para (o aeroporto de) Ezeiza. Fomos eu, ele, Cyterzpiller e o pai de Maradona, don Chitoro. Dormimos no Copacabana Palace e fomos encontrar Pelé no dia seguinte por volta do meio-dia", conta Blanco.

"Não foi um encontro midiático. Foi muito humano, espontâneo. Nada programado."

Quando Pelé abriu a porta, desarmou Maradona ao dizer "hola papá" e abraçar o pai do jogador, que estava emocionado em conhecer o brasileiro.

"Diego estava preocupado porque havia feito um gol com a mão pelo Argentinos e tinha sido validado. Pelé lhe disse para não se preocupar com aquilo. Era problema dos árbitros, não dele", completa Blanco.

Sete anos depois, Maradona anotaria contra os ingleses, nas quartas de final da Copa do Mundo, ao desviar a bola com a mão esquerda, o lance que ficou eternizado como "la mano de Dios".

Até então, a relação entre eles era entre ídolo e fã. Maradona, o fã, já havia dito que se lhe Pelé lhe desse 15 minutos de conversa, se sentiria "como Gardel", um elogio usado na Argentina quando alguém pensa estar topo do mundo. As comparações que eram feitas usando a imagem de Diego eram com Zico, não com Pelé. Algo que ficou para trás com o título da Copa de 1986.

Depois disso, Maradona passou a ser visto, primeiro como herdeiro do brasileiro. Depois como rival.

A primeira rusga apareceu em 1982, quando Pelé criticou o desempenho do argentino, que viu isso como traição. A partir daí, houve altos e baixos, com períodos de críticas fortes e elogios. Na última vez em que se encontraram em público, em dezembro de 2017, para o sorteio dos grupos da Copa do Mundo da Rússia, Maradona deu um beijo na cabeça do antigo desafeto.

"Eu não acredito que naquele momento, em 1981, Diego iria realmente parar de jogar. O futebol sempre foi a vida dele. Era algo momentâneo. Mas a carta de Pelé ajudou a que ele reforçasse suas convicções", reconhece Guillermo Blanco.

Depois da morte de Maradona, o tricampeão mundial postou homenagens ao meia que chegou a ter propostas para atuar pelo Santos, em suas redes sociais.

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