Em cartaz no CCBB, mostra 'Vaivém' embala a história da arte, do século XVI ao contemporâneo

Nelson Gobbi
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86197997_SC - Expo Vaivém no CCBB - Instalação Rede Social do Opavivará (1).jpg

Público interage com a instalação 'Rede social', do Opavivará, no hall do CCBB

RIO — Ela está em obras de Rugendas, Debret e Frans Post. Também aparece em charges da antiga “Revista Illustrada”, do século XIX, no cartaz do filme “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, e nas historinhas do Zé Carioca. Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, onde já foi vista por quase 90 mil pessoas, a exposição “Vaivém” tem a rede como ponto de partida, investigando suas representações, do século XVI aos dias de hoje. Tudo começou na tese de doutorado de Raphael Fonseca, curador do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, que, ao pesquisar sobre a preguiça (seu tema original) trombou com tantas redes que mudou de foco. Essa e outras histórias, ele promete dividir hoje com o público, num bate-papo às 18h30, na mostra.

“Vaivém” passou pelos CCBBs de São Paulo e Brasília, onde recebeu 236 mil visitantes. E reúne 350 obras de 141 artistas, selecionadas pelo próprio Fonseca.

— Muitas coisas vêm da pesquisa (que começou em 2014). Outras entraram depois de outubro do ano passado, quando o projeto da exposição foi aprovado. A partir do momento em que escolhi o tema, parecia que tinha ligado um alerta, e ficava vendo redes em todo o lugar. O Frans Post, por exemplo, eu cansei de ver antes, sem nunca ter reparado nas imagens de pessoas escravizadas transportando outras na rede — comenta ele, citando a tela “Paisagem da várzea com engenho”, do século XVII, presente na mostra.

Sem seguir cronologia, a seleção traz obras de outros artistas viajantes, como Debret, Rugendas e Zacharias Wagener. E passa pelo modernismo, com representações de Tarsila do Amaral e Djanira, para chegar ao contemporâneo, com trabalhos de Hélio Oiticica, Bispo do Rosário, Tunga, Ernesto Neto, Dalton Paula e Jaime Laureano. O tema também se desenvolve como ação, na obra “Trabalho”, de Paulo Nazareth, em que uma pessoa, contratada pelo artista, permanece deitada na rede durante oito horas diárias. Ou ainda como instalação, caso da interativa “Rede social”, do Opavivará, que o público pode experimentar no hall do CCBB.

“Vaivém” também destaca a relação entre a rede e outras áreas da cultura, registrada em livros, revistas, cartazes de cinema. Chamam atenção, ainda, trabalhos de 32 artistas que se identificam como indígenas, caso de Yermollay Caripoune, Jaider Esbell, Arissana Pataxó e Denilson Baniwa, vencedor do Prêmio Pipa Online deste ano.

— Quando comecei a pesquisar para a tese, a produção de artistas indígenas ainda não tinha ganhado a visibilidade de agora. Depois, o Jaider e a Arissana venceram o Pipa Online de 2016, em 2017 veio a exposição “Dja Guata Porã”, no MAR — lembra o curador. — Para a “Vaivém”, a maioria dos trabalhos de indígenas foi comissionada, e eles tiveram liberdade para desenvolver o tema.

Durante a passagem da mostra por São Paulo e Brasília, Fonseca percebeu o quanto a imagem da rede ainda carrega de preconceito, sobretudo em relação a grupos indígenas e ao Nordeste:

— Nas montagens e nas redes sociais vi pessoas reforçando a associação estereotipada entre rede e vadiagem. Elas não conseguiam perceber aquilo como algo que tem a ver com sua origem, uma tecnologia ameríndia que se espalhou pelo mundo.

Outra curiosidade foi o comportamento do público na instalação do Opavivará, composta de seis redes conectadas, conta ele:

— Algumas pessoas aproveitam para descansar, mas a maioria faz selfies ou fica deitada vendo o celular. É um sinal da dificuldade de nos desconectarmos deste bombardeio de informação.

“Vaivém”

Onde: CCBB — Rua Primeiro de Março 66, Centro (3808-2020). Quando: Qua. a seg., das 9 às 21h. Até 17/2/2020. Quanto: Grátis. Classificação: Livre. Extra: Bate-papo com o curador, Raphael Fonseca, hoje, às 18h30.