Em Chapecó (SC), Bolsonaro volta a defender medidas sem eficácia contra a Covid

HYGINO VASCONCELLOS E KATNA BARAN
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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 31.07.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante anúncio do novo auxílio emergencial, no Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 31.07.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante anúncio do novo auxílio emergencial, no Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

CHAPECÓ, SC, E CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - Em visita a Chapecó (SC) após elogiar o chamado "tratamento precoce" contra a Covid-19 implantado pelo prefeito local, João Rodrigues (PSD), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a criticar nesta quarta-feira (7) o isolamento social e a defender medidas sem eficácia comprovada contra a doença.

Bolsonaro reafirmou que não vai implantar um lockdown nacional para conter a pandemia e que as regulações locais não podem ter “efeito colateral mais danoso que o próprio vírus”, como problemas sociais, incluindo o desemprego.

“Acho que sou o único líder mundial que apanha isoladamente. O mais fácil é ficar do lado da massa, da grande maioria, se evitam problemas, não é acusado de genocida, não sofre ataques por parte de gente que pensa diferente. O nosso inimigo é o vírus, não o presidente, a governadora [citando Daniela Reinehr, de Santa Catarina], ou o prefeito”, afirmou.

O presidente citou a palavra “liberdade” em vários momentos do discurso para criticar medidas de contenção e defender que os médicos possam prescrever medicamentos sem eficácia contra a Covid-19.

“Quem abre mão de um milímetro de liberdade para ter segurança corre o risco no futuro de não ter nem segurança nem liberdade”, disse.

O prefeito de Chapecó utilizou dados distorcidos ao afirmar que a cidade está com os números da pandemia em queda e volume de internações por Covid-19 “próximo de zero”. Ele atribuiu a redução à implantação de medidas como a indicação de “tratamento precoce” contra a doença, entre outras.

Entre as informações omitidas pelo prefeito está a de que os índices somente começaram a cair após a imposição de um lockdown, entre 22 de fevereiro e 8 de março.

Ao fazer um histórico das medidas contra a pandemia adotadas pelo governo federal, Bolsonaro criticou o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que, ao deixar o cargo, se tornou seu adversário político.

O presidente questionou, por exemplo, o fato de Mandetta ter defendido que os doentes só deveriam ir ao hospital após sentir falta de ar e não já nos primeiros sintomas da Covid-19. “Será que o sentir falta de ar era para comprar respiradores a qualquer preço naquela época?”.

Segundo Bolsonaro, historicamente, o uso off label —drogas farmacêuticas que não seguem as indicações homologadas para aquele fármaco— salvou vidas, como contra a lepra e o HIV. Ele acredita que o método também deveria ser empregado contra a Covid-19.

“Fui acometido de Covid. Procurei não me apavorar. Tomei um medicamento que todo mundo sabe qual foi e no outro dia estava bom. Muitos fizeram isso. Mas, não podemos admitir impor limite ao médico. O ‘off label’, fora da bula, é entre médico e paciente. Hoje tem aparecido medicamentos ainda não comprovados que estão sendo testados”, discursou.

O presidente afirmou ainda que países da África não estão comprando vacinas porque já utilizam medicamentos que, segundo ele, podem curar os doentes. Os remédios citados, no entanto, não possuem eficácia contra a Covid-19.

“Não tem vacina hoje em dia para todo mundo. Na África, não existe nada, existe ivermectina para combater [...] outras coisas, junto com a hidroxicloroquina para combater a malária, e procure saber o que acontece com aquele povo no tocante à Covid”.

Bolsonaro também reclamou das críticas que vem sofrendo. Disse que o chamam de “negacionista e terraplanista”, mas que, mesmo assim, não vai acatar políticas de isolamento. Ele afirmou estar preocupado com os graves problemas sociais que o país está enfrentando e com eventuais “explosões” por parte da população.

“Se eclodir isso pelo Brasil, o que nós vamos fazer? Temos efetivo [das Forças Armadas] para conter a quantidade de problemas que podemos ter pela frente? E outra: é uma explosão por maldade ou por necessidade? O que nós devemos fazer para evitar isso? Como nos preparar? Não é hora de ver biografia, estou me lixando para 2022”, disse.

Já na saída do evento, o presidente criticou duramente o lockdown promovido por alguns prefeitos e governadores pelo país e disse que só consegue ficar em casa por tanto emprego quem tem “salário garantido a vida toda, ou com uma poupança razoável”.

Ele afirmou que a medida não pode ser implementada nem em estado de sítio —que pode ser decretado em situações de emergência nacional— e defendeu o direito de ir e vir.

“Se eu não posso fazer muita coisa via estado de sítio, juntamente com o parlamento brasileiro, por que alguns prefeitos e governadores estão fazendo isso? Com que intenção? Eu questiono sim a liberdade excessiva que o STF [Supremo Tribunal Federal] deu a eles”.

Também repreendeu o fechamento de praias e disse que as restrições estão impedindo que as pessoas reponham vitamina D e se exercitem, o que, segundo ele, ajudaria a conter os danos da Covid-19 no corpo. Porém, não há comprovação científica que ampare a fala do presidente.

Por último, Bolsonaro repetiu que sua preocupação não está em torno das eleições de 2022. “Minha preocupação é 2021 e a Covid-19. Ficar em casa não é a solução para ninguém, não vai dar certo.”

Em Chapecó, o presidente foi recebido por um grupo de cerca de 200 apoiadores, que gritavam “mito” e carregavam bandeiras do Brasil e outros adereços. Houve aglomerações no local. O evento, intitulado “Chapecó vencendo a Covid-19”, seria aberto apenas a convidados, mas Bolsonaro liberou o acesso da imprensa.

Distante da aglomeração, cinco pessoas também protestaram contra o presidente com cartazes com as frases: “Bolsonaro é morte” e “Mais vacinas, menos cloroquina”.

A professora Cristiane Zanato Borella, 41 anos, foi ao local acompanhada da filha de oito anos, que usava uma camiseta com a sigla do PT. Ela contou que, no caminho, foi xingada por apoiadores do presidente. “Me chamaram inclusive de cachaceira. É típico discurso de cidadão do bem, que defende milícia que chegou ao poder a partir de golpe”, afirmou.

Borella reclamou da aglomeração em frente ao local e disse que o prefeito “armou um circo”. “Trabalhei quatro anos em hospital e sei muito bem que, quando o paciente está mal, ele não precisa de cama, colchão e travesseiro, ele precisa de UTI. Ele montou um circo para impressionar as pessoas e Bolsonaro veio aqui apenas para se promover”.

Além do presidente e do prefeito da cidade, João Rodrigues, acompanharam o encontro o ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França; da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni; o chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno; e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. A governadora interina de Santa Catarina, Daniela Reinher (sem partido), também fazia parte do grupo.

No evento, Rodrigues chegou a comparar o combate ao coronavírus em Chapecó a “uma guerra” e disse que a solução veio da testagem rápida e do tratamento imediato da população.

“Não havia estrutura suficiente para acomodar os nossos pacientes. Senhor presidente, era gente agonizando em casa, que não tinha oxigênio, pessoas internadas em ginásio de esporte, porque não tinha leito. Nós conseguimos montar as estruturas”, disse a Bolsonaro.

Por duas vezes, o político criticou a imprensa. Uma delas ao defender o chamado tratamento precoce, sem eficácia contra a Covid-19, mas implantando no município. Segundo ele, apesar das críticas, a decisão não sofreu ataques do Ministério Público e do Judiciário.

“Vamos ajudar a combater o vírus, não defender a morte antecipada de pessoas. No país e no mundo, qualquer ser humano, quando tem o primeiro sintoma de qualquer doença, vai se medicar para ficar curado logo. Para alguns vocês, não pode tratar, tem que esperar ficar ruim. [...] Não prescrevemos medicamentos, simplesmente demos liberdade e apoiamos os profissionais da saúde a dar o melhor de si, oferecendo o melhor tratamento”, discursou.

Em reportagem do jornal Folha de S.Paulo desta quarta-feira, porém, profissionais de saúde discordaram do prefeito e acreditam que o cenário ainda é crítico e pode voltar a piorar.