Em colapso, Dracena tem prefeito e secretária de Saúde com Covid e surto em asilo

PAULO BATISTELLA
·5 minuto de leitura

BRAÇO DO NORTE, SC - O prefeito está há dez dias internado em razão da Covid-19. A secretária de Saúde, afastada, realiza fisioterapia respiratória em decorrência das sequelas da infecção. Um asilo teve 22 dos seus 39 idosos acolhidos infectados pelo novo coronavírus. Com o avanço da pandemia no interior paulista, Dracena (SP), a 638 km da capital, já registra 82 mortes pela Covid-19 em 2021, até esta sexta-feira (12) -mais do que o dobro do que havia sido contabilizado no ano passado inteiro, com 35 óbitos. O aumento vertiginoso no número de mortes na cidade é associado pela prefeitura à possível transmissão local da variante brasileira do vírus, identificada no Amazonas --de dez coletas examinadas, nove eram referentes à chamada P.1. A terceira maior cidade da Alta Paulista, no oeste do estado, viu seu sistema de saúde colapsar no início de fevereiro e segue, desde então, com ocupação em 100% dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e de enfermaria dedicados a casos da doença, concentrados na Santa Casa local. O hospital conseguiu dobrar, no último sábado (6), o número de leitos de UTI, para 20. Além disso, a quantidade de novos casos diminuiu após a cidade recuar à fase vermelha do Plano São Paulo, a mais restritiva, no último dia 17. A fila para internação também caiu, segundo a médica Aline Damasceno, que coordena a ala de Covid. Contudo, ela alerta que a saúde continua em colapso, o que é corroborado pelo promotor de Justiça local Antonio Simini Junior. Na terça (9), a Promotoria recomendou à prefeitura que amplie o isolamento na cidade, que atualmente, além das medidas comuns à fase vermelha, tem toque de recolher entre 20h e 6h nos dias úteis e lockdown aos finais de semana. O município também havia fechado escolas e interrompido visitas a uma unidade prisional. Simini diz que Dracena, assim como outras cidades da região administrativa de Presidente Prudente (a 556 km de SP), corre o risco de repetir parte do cenário já visto em Manaus, com mortes de pacientes em casa, sem condições de receber atendimento médico. "Se nós não tomarmos medidas mais restritivas, é o que vai acontecer", disse ele. O colapso no município ainda inclui lotação de um ambulatório e de um pronto-socorro idealizados para atender quadros em estágio inicial, mas que, por imposição da crise e mesmo com estrutura modesta, também têm assistido casos graves, de doentes à espera de eventual internação. Neste mês, a prefeitura já comunicou 12 mortes ocorridas nessas unidades, entre elas a do policial militar reformado Irineu Teodoro de Souza, 71, em 22 de fevereiro. Hipertenso, ele deu entrada no local dois dias antes, já sob suspeita de ter Covid e apresentando falta de ar. Vanessa de Souza, filha de Irineu, ainda conseguiu vê-lo à distância na manhã em que faleceu, ao levar para ele roupas e bebidas isotônicas. A última memória que ela tem do pai é dele recebendo oxigênio sentado em uma cadeira, à espera de uma cama no local. A Secretaria Estadual de Saúde afirma que, cerca de 24 horas após a busca por vaga ter sido registrada na Cross (Central de Regulação e Oferta de Serviços de Saúde), foi informada a morte de Irineu, que teve um mal súbito. A pasta afirma ser responsabilidade do município manter o paciente estável para eventual transferência. A pasta diz ainda ter atuado no acréscimo de 20 leitos, igualmente divididos entre UTI e enfermaria, em Dracena neste mês, o que também foi feito no Hospital Regional de Presidente Prudente. A secretaria afirma que a região opera com ocupação dos leitos de UTI em 90% nos últimos dias e pediu adesão da população ao isolamento social para conter o vírus. A prefeitura de Dracena, administrada por André Lemos (Patriota), diz que, do início de janeiro até esta terça (9), 13 das 23 mortes registradas na rede municipal eram de pacientes que aguardavam vaga pela Cross, sem detalhar se houve demora para internação ou impossibilidade de estabilizar os doentes. A cidade também segue registrando óbitos de pacientes jovens. Uma gestante de 23 anos morreu em 28 de fevereiro, um dia após ter dado entrada na Santa Casa para ser submetida a uma cesariana, sob suspeita de ter Covid, confirmado posteriormente. O bebê também morreu. Com o aumento do número de mortes na cidade, foi iniciada a construção de 100 novas sepulturas no cemitério municipal —até então, eram mantidas em média 20 covas abertas no local. A prefeitura diz que a medida é preventiva. O avanço do coronavírus ainda atingiu um asilo chamado Casa dos Velhos, gerido por uma entidade filantrópica, que, sem permitir visitas desde o início da pandemia, não havia registrado casos até então. Foram infectados 22 dos 39 idosos acolhidos e 6 de seus 25 colaboradores. O surto teve início seis dias após todos eles terem recebido a segunda dose da Coronavac. O Instituto Butantan, que produz a vacina no Brasil, afirma que a resposta imune só ocorre, em geral, duas semanas após a segunda aplicação, prazo que pode ser maior a depender de fatores como faixa etária e sistema imunológico da pessoa. Devido à falta de estrutura do asilo para isolar todos os doentes, eles precisaram ser transferidos às pressas para um prédio cedido pela prefeitura através de um termo de adesão. Até esta sexta (12), 13 seguiam isolados e sob cuidados, 3 estavam em internação hospitalar, 2 haviam recebido alta e 4 idosas haviam morrido. Quatro funcionários se recuperaram. O presidente do asilo, Valmir Gomes da Silva, não retornou o contato da reportagem. O Ministério Público diz não haver indícios de irregularidade ou de negligência da administração do local na ocasião do surto. Em meio ao colapso, a cidade ainda lida com baixas no poder público. Com Covid, o prefeito André Lemos (Patriota), 41, está internado em enfermaria desde o último dia 3 e, segundo a prefeitura, deve ter alta médica neste sábado (13). Ao anunciar o diagnóstico em uma transmissão online, ele disse que tinha medo de morrer. A secretária de Saúde, Rosemary Magi Fonseca Souza, também está afastada do cargo devido ao coronavírus. Apesar de já ter recebido alta de internação, ela segue em tratamento em casa, onde realiza fisioterapia respiratória. À frente da pasta está Geni Pesin, com quem a reportagem tentou contato. Após uma primeira abordagem, no entanto, não obteve mais retorno. A prefeitura não indicou um outro porta-voz para tratar do avanço da Covid na cidade.