Em comício, Trump pede que vice cometa ato ilegal e rejeite votos dos delegados

RAFAEL BALAGO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Poucas horas antes da sessão no Congresso que confirmará a vitória de Joe Biden, o presidente Donald Trump fez um comício a milhares de pessoas em Washington. No discurso, ele voltou a pressionar o vice-presidente Mike Pence a rejeitar os votos dos delegados, algo que ele não tem poder legal para fazer. "Tudo o que ele [Pence] tem que fazer é mandar os votos de volta aos estados, para que sejam recertificados. E eu me tornarei presidente", discursou Trump. "Isso não exige coragem. O que exige coragem é não fazer nada". Nesta quarta, a partir das 13h (15h em Brasília), o Congresso fará uma sessão conjunta para somar os votos dos delegados do Colégio Eleitoral e declarar oficialmente Joe Biden como vencedor da eleição presidencial, por 306 a 232 votos. Ele tomará posse em 20 de janeiro. Na sessão desta quarta, os votos dos delegados serão abertos e lidos por Pence e uma comissão de parlamentares. O vice comandará a cerimônia por acumular o cargo de presidente do Senado, mas será apenas mestre de cerimônias, sem poder para mudar o andamento da sessão por conta própria. Para rejeitar votos dos delegados, é preciso de aprovação por maioria na Câmara e no Senado. Como os democratas possuem a maioria na Câmara, é praticamente impossível que uma manobra do tipo seja aprovada. Apesar disso, ao menos 11 senadores republicanos já afirmaram que recorrerão ao dispositivo. A cerimônia desta quarta é um momento simbólico, comparável à diplomação presidencial feita pelo TSE no Brasil, pois os votos dos delegados já foram contados, certificados e anunciados pelos estados, em 14 de dezembro. Em seu discurso, Trump voltou a repetir as acusações de que a eleição de novembro foi roubada, sem apresentar provas. Também fez ataques à imprensa e aos democratas, e voltou a repetir que não reconhecerá a vitória de Biden. Antes de Trump, houve outras falas ao longo da manhã, incluindo os de seu filho, Donald Trump Jr, e de Rudy Giuliani, advogado pessoal do presidente. O evento, chamado de "Marcha Salve a América", reuniu uma multidão de apoiadores de várias partes do país e começou na manhã desta quarta (6). Houve pouco distanciamento social e nem todos usavam máscaras, segundo a CNN. A capital americana teve grande reforço na segurança, para evitar conflitos. Os comícios são realizados no parque Elipse, um amplo gramado do lado sul da Casa Branca. Há também protestos perto da sede do Congresso dos EUA, a cerca de 3 km de distância. Entre um discurso e outro, hits dos anos 1980, como "Macho Man, "Don´t Stop Believing" (Não pare de acreditar) e "Beat it" -sucesso de Michael Jackson com o refrão "ninguém quer ser derrotado"- buscaram animar a multidão. Embora não devam prosperar, os pedidos de questionamento de votos no Congresso podem atrasar a certificação. Cada solicitação demanda uma análise nas duas Casas, que deve ser feita em até duas horas. Se houver pedidos de reanálise sobre os votos em seis estados, por exemplo, a cerimônia pode se estender até a madrugada, enquanto protestos ainda poderão estar ocorrendo do lado de fora. "Quanto mais esse processo demorar, mais se criará tensão em Washington, o que pode ser usado para alimentar a narrativa de que se tramou um golpe contra Trump", analisa Felipe Loureiro, coordenador do curso de Relações Internacionais da USP. Os parlamentares republicanos aliados ao presidente também devem aproveitar a ocasião para ficarem mais conhecidos e tentarem se aproximar dos eleitores de Trump, que teve 74 milhões de votos populares nas eleições de novembro -Biden somou 81 milhões.