Em conversa com FHC, Doria busca esfriar temperatura da crise no PSDB

IGOR GIELOW
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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 21.10.2020 - Governador de São Paulo, João Doria (PSDB). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 21.10.2020 - Governador de São Paulo, João Doria (PSDB). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O governador João Doria (PSDB) quer abaixar a temperatura da crise aberta em seu partido nesta semana, visando retomar a discussão sobre sua candidatura à Presidência em 2022 um pouco mais à frente.

O político conversou na manhã desta quinta (11) com o patrono do tucanato, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sobre a turbulência que afetou a sigla desde a eleição ao comando da Câmara dos Deputados, na semana passada.

A bancada de 33 deputados do PSDB rachou, e estima-se que pelo menos a metade dela votou no candidato do presidente Jair Bolsonaro, adversário figadal de Doria, Arthur Lira (PP-AL).

Na reunião, ocorrida no apartamento de FHC no bairro paulistano de Higienópolis, os dois políticos concordaram que ninguém ganhou com a confusão que se deu a seguir —mas também que o PSDB precisa se firmar como oposição a Bolsonaro se quiser ter chances no ano que vem.

Com efeito, ninguém comentou o teor da conversa oficialmente, e apenas aliados de ambos falaram reservadamente sobre o assunto.

FHC foi fiel ao seu estilo de "crise que entra no meu gabinete sai menor", sem recriminações. Isso não significa que, para Doria, a questão central do apoio de seu partido à sua postulação esteja encerrada, ao contrário.

Como reação ao movimento na Câmara, que ele acusou publicamente ser obra do deputado Aécio Neves (PSDB-MG), Doria chamou membros da cúpula tucana para jantar na segunda (8), como o jornal Folha de S.Paulo revelou.

No encontro, vários aliados seus presentes abriram o jogo: queriam ver Doria na presidência do PSDB, uma forma de criar uma ordem unida no partido, a exemplo do que o próprio Aécio fizeram em 2014, quando perdeu no olho mecânico a eleição presidencial para Dilma Rousseff (PT).

Só que a forma com que a questão foi colocada, sem discussão interna prévia, chocou alguns —a começar pelo presidente atual da sigla, Bruno Araújo (PE), que esperava ser reconduzido na convenção de maio.

Além disso, o plano de Doria incluía um expurgo no PSDB, com um movimento para forçar a saída de Aécio de se seus aliados, agregando em seus lugares Rodrigo Maia (DEM-RJ) e aliados.

O DEM desmoronou após a vitória de Lira, desafeto de Maia, quando seu presidente, ACM Neto (BA), liberou a sigla para votar em quem quisesse na Câmara —então presidente da Casa, o deputado fluminense apoiava Baleia Rossi (MDB-SP).

O rearranjo proposto por Doria resolvia a eventual ausência do DEM de sua equação com a sigla e o MDB para 2022.

Na terça (9), o governador jantou com ACM Neto e foi averbada uma suposta independência do partido do baiano em relação a Bolsonaro —ninguém no Palácio dos Bandeirantes a comprou pelo valor de face.

O estrago no PSDB estava feito. Deputados marcaram um evento de apoio ao lançamento do governador gaúcho, Eduardo Leite, como presidenciável tucano nesta quinta.

A ideia desagradou a FHC e a seus aliados, a chamada velha guarda do tucanato. Leite é bem visto como gestor e político promissor por eles, mas sua posição de antagonismo a Doria neste momento foi interpretada como vaidade dispensável para um partido em frangalhos.

Repercutiu no grupo especialmente mal a entrevista dada pelo gaúcho ao jornal O Globo, na qual ele reverberou os ataques de Aécio a Doria, lembrando que o tucano associou-se a Bolsonaro no segundo turno de 2018 —depois, afirmou ter se arrependido e hoje é o maior rival do presidente com cargo eletivo.

Também foi visto como um erro de Doria ter alimentado um bate-boca com Aécio, que havia submergido da política nacional desde que foi divulgada a conversa na qual ele pedia R$ 2 milhões do empresário Joesley Batista, que lhe rendeu uma ação no Supremo Tribunal Federal.

Nesta quinta, emergiu uma nova denúncia contra o tucano na revista piauí, acerca de uma empresa em nome de sua mãe no paraíso fiscal de Luxemburgo.

Aécio retomou o caso BolsoDoria, o apelido do voto sugerido em São Paulo em 2018, para irritação dos aliados do governador. Ambos trocaram notas duras, e Doria pediu publicamente o afastamento do mineiro do PSDB, o chamando de adesista.

A isso se somou a colocação em evidência de Leite, pouco conhecido nacionalmente, e o movimento interno do PSDB para a permanência de Bruno Araújo na chefia da sigla por pelo menos mais um ano.

O esticamento do mandato de Araújo foi proposto pelos diretórios regionais do partido, com São Paulo aderindo para não piorar a crise, e endossado por parte da bancada dos deputados federais e por todos os sete senadores tucanos.

Nesta sexta (12), a proposta deve ser referendada pela Executiva Nacional do partido em reunião virtual.

Para a sorte de todos os defensores dos panos quentes, o feriado do Carnaval, que ocorrerá na prática no mundo político, está às portas. Isso pode ajudar a esfriar os ânimos, embora não resolva o problema de Doria e do PSDB.

Seus aliados sustentam que seu nome em 2022 é incontornável, dada a densidade do cargo e o papel de destaque no combate à pandemia, com o investimento na vacina chinesa Coronavac. Seus adversários o descartam, citando voluntarismo pouco afeito aos ritos tradicionais da política e sua imagem, que seria excessivamente paulista.