Em conversas com irmão, servidor relatou que vacinas da Covaxin estavam prestes a vencer e expôs medo de fazer denúncia

·3 minuto de leitura

BRASÍLIA — O chefe de importação do Ministério da Saúde, Luis Ricardo Miranda, compartilhou com a CPI da Covid uma série de mensagens trocadas com o irmão, o deputado Luis Miranda (DEM-DF), nas quais reforça suspeitas sobre o processo de aquisição da Covaxin. Nas conversas, o servidor aponta que os imunizantes indianos contratados pelo governo estavam prestes a vencer, fala do medo de se expor ao fazer a denúncia e cita até mesmo conversa com um colega que teria mencionado haver "propina" em outra transação.

Nos arquivos, o servidor afirmou ao irmão, em 24 de março, que o acordo com a Covaxin previa o envio de vacinas perto da data de vencimento ao Brasil. Nos relatos, ele conta que o contrato com a Precisa, representante da Bharat Biontech no país, era tratado constantemente no Ministério da Saúde, diferente de outros itens importantes para o combate à Covid-19.

"Os caras estão mandando vacina q vencem abril e maio kkkkkkkk que rolo", escreveu o servidor para o deputado Luis Miranda.

"Dia inteiro só essa porcaria", disse Ricardo na sequência, em relação ao contrato da Covaxin.

No mesmo dia, Ricardo compartilhou matéria do GLOBO que dizia que "Ministério da Saúde pede uso emergencial da Covaxin à Anvisa, mas com dados incompletos". Em seguida, o servidor ironizou dizendo "ainda precisa implorar aos indianos para trazer kkkkkk".

Em 22 de março, Ricardo mandou ao irmão a primeira versão da nota fiscal enviada pela Precisa sobre a Covaxin e descreveu as irregularidades que identificou. Ele escreveu, ainda, que havia "muito rolo" no documento.

Dois dias antes, em 20 de março, Ricardo relata que chegou a comunicar o caso diretamente à Polícia Federal. Na época, demonstrou receio de ser exposto ao denunciar o caso. Foi naquela mesma data que os dois irmãos visitaram o presidente Jair Bolsonaro para tratar do assunto no Palácio da Alvorada.

"Ruim manin, q não da para denunciar e ficar no anonimato. Ficar exposto tudo q falo, escrito e tenho q assinar", disse Ricardo.

O deputado Luis Marinho sugeriu que o irmão avisasse sobre o caso ao delegado da PF, mas deixasse claro que não queria ser exposto e a denúncia anônima teria que ser anônima.

Na mesma data, o servidor conta que conversou com o delegado da PF, mas o teor da ligação não foi informado ao irmão por escrito, e sim por telefone.

Ainda no mesmo dia, Ricardo conta que "aquele rapaz", ao qual disse à CPI se chamar Rodrigo, o procurou dizendo que "tem vacina", mas que "não assinaram porque os caras cobraram dele propinas para assinar o contrato". O servidor, então, relatou ao irmão que iria pedir ao colega se ele tinha provas. À comissão, no entanto, ele não soube dizer quem pediu propina. O cargo e o sobrenome de Rodrigo não foi divulgado.

Planalto

No arquivo de mensagens, também foram encaminhados diversos pedidos de contato do deputado Luis Miranda para relatar as suspeitas ao presidente Jair Bolsonaro, por mensagens a auxiliares e ofícios.

Na primeira tentativa, em 20 de março, Miranda escreveu que "está rolando um esquema de corrupção pesado na aquisição de vacinas" e que tinha provas e testemunhas sobre o caso. No dia, ele foi recebido por Bolsonaro no Alvorada e, junto do irmão, relatou as suspeitas sobre a nota fiscal da Covaxin.

Em 22 de março, Miranda encaminhou um áudio do irmão descrevendo as irregularidades na nota fiscal e escreveu a um ajudante de ordem do presidente: "Pelo amor de Deus Diniz, isso é muito sério! Meu irmão quer saber do PR como agir". Mas não obteve resposta.

No dia seguinte, o deputado perguntou se o presidente estaria chateado com ele. O ajudante de ordens de Bolsonaro respondeu "negativo" e que havia muitas demandas, mas que iria relembrar o presidente. Depois disso, Miranda alega que não conseguiu mais respostas do Planalto.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos