Em corrida eleitoral exaltada, temas de política externa ficam para trás

Luiz Alberto Figueiredo, ministro das Relações Exteriores do Brasil (Foto: Estadão Conteúdo/ Arquivo)
Luiz Alberto Figueiredo, ministro das Relações Exteriores do Brasil (Foto: Estadão Conteúdo/ Arquivo)

Já se passaram mais de duas semanas de horário eleitoral gratuito, dois debates televisionados e dezenas de entrevistas em veículos de notícias, e quase nada foi abordado sobre temas de política externa pelos candidatos presidenciais - uma ausência pouco noticiada perante o inflamado cenário político, mas que incomoda especialistas.

Apesar de ser uma área primordial para qualquer governo, há uma percepção de que a política internacional continua a ser vista pelas campanhas dos três concorrentes melhor posicionados nas pesquisas - Dilma Rousseff (PT), Marina Silva e Aécio Neves (PSDB) - como algo pouco atraente para o eleitorado, que estaria mais atento às questões domésticas, às pesquisas eleitorais e às orientações pessoais dos candidatos.

"De uma maneira geral os debates têm sido pouco temáticos, acabam se concentrando em alguns aspectos bastante superficiais da economia e da organização do Estado, e consequentemente, a política externa do Brasil não apareceu em nenhuma discussão”, disse Sidney Leite, professor de relações internacionais da ESPM.

Isso pode decepcionar acadêmicos, diplomatas e especialistas, mas certamente não é nenhuma novidade. "De fato, a política externa nunca foi debatida seriamente nas campanhas, isso a gente pode remeter até os anos 1950”, acrescentou Leite.

Um das explicações é que, como o país não é uma potência política internacional de primeira escala, isso gera certo desinteresse popular no assunto e pouco engajamento. Nos Estados Unidos, por outro lado, o posicionamento de política exterior é fundamental na hora de a população votar em um presidente, havendo, inclusive, um debate exclusivo sobre o tema.

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Mas casos como o fracasso em conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU ou até do recente embate com Israel, que chamou o Brasil de “anão diplomático” por conta da posição brasileira sobre o confronto em Gaza, ajudam para acentuar uma percepção negativa do posicionamento brasileiro no exterior - embora o país seja a principal potência sul-americana, a sétima economia mundial e goze de considerável respeito na comunidade internacional com suas políticas de redução de desigualdade.

Mesmo com algumas questões internacionais cada vez mais próximas das pessoas, como imigração e internacionalização da economia, não será dessa vez que a política externa romperá com alguns velhos costumes do período eleitoral e o tema não deve ganhar tração até o fim de setembro, especialmente com toda a reviravolta ocorrida no cenário após a trágica morte de Eduardo Campos (PSB) em um acidente aéreo em 13 de agosto, em Santos (SP).

Os candidatos, obviamente, até abordam o tema em seus programas de governo (links aqui, aqui e aqui), mas, segundo especialistas, isso acontece de forma bastante rasa. (Ver quadro abaixo)

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Leite, da ESPM, mantém as esperanças. "Eu faço votos de que, havendo um segundo turno, esses temas possam aparecer nos debates”, afirmou.

Enquanto isso, as relações internacionais seguirão apenas como pano de fundo para os acalorados debates das últimas semanas, a exemplo do que aconteceu com a queda da atividade econômica do Brasil, conforme relatado pelo Yahoo Brasil.

“Faz muita falta esse debate”, diz Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da Universidade Mackenzie. Todavia, ele reconhece que as questões domésticas são mais urgentes. “Os problemas internos estão ocupando o espectro da discussão porque são diretamente mais importantes para os eleitores.”

Segundo Hecker, as relações internacionais serão tratadas apenas “de maneira transversal" no debate eleitoral, vindo à tona particularmente quando se relacionam com alguma questão interna, como é o caso do programa Mais Médicos do governo federal, que trouxe médicos cubanos ao Brasil, e nos financiamentos do BNDES para projetos no exterior.

A Conectas, ONG brasileira de direitos humanos com atuação internacional, aponta principalmente para a falta de um posicionamento sobre imigração, um dos temas de política externa de maior impacto direto para os brasileiros. "Não vi nenhum dos candidatos se posicionar em relação à questão migratória e quais as soluções para ela”, afirmou Camila Asano, coordenadora de política externa da Conectas, citando o fluxo de pessoas que buscam o Brasil como refúgio.

Segundo o Comitê Nacional para o Refugiados, por exemplo, o país possuía no ano passado mais de 5 mil refugiados registrados, crescimento de 800% frente a 2010. Isso sem contabilizar os milhares que entram irregularmente ou não se encaixam legalmente nessa definição, como é o caso de muitos Haitianos que chegam pelo Acre ou africanos que atracam em porões de navios. Àqueles vindos Síria, que está em guerra civil há três anos, também são muitos. “Esse tema está deixado de lado”, disse Asano.

Especialmente no caso de imigração, a ausência desse debate é intrigante justamente porque alguns dos aliados de dois candidatos estão diretamente relacionados a políticas para novas regulamentações da legislação para imigrantes no país.

O candidato à vice-presidência pelo PSDB, o senador Aloysio Nunes, por exemplo, foi quem apresentou à Casa no ano passado o projeto de lei 288 para instituir a Lei de Migração para regular a estrada e a estadia de estrangeiros em solo nacional.

Além disso, o ministro da Justiça do governo Dilma, José Eduardo Cardozo, anunciou avanços nessa área na semana passada, quando recebeu o projeto preliminar, feito por uma comissão, para propor alterações no Estatuto do Estrangeiro, sugerindo mudanças no tratamento a imigrantes e agilidade nos processos de regularização.

"Os candidatos não deram muita importância”, complementou Asano.  

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