Em crise, Equador inicia campanha presidencial à sombra de Correa

Paola LÓPEZ
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O Equador iniciou nesta terça-feira (16) sua campanha para a eleição presidencial de 11 de abril em meio ao desencanto com a crise econômica e de saúde e ao desgaste devido ao confronto entre apoiadores e críticos do ex-presidente Rafael Correa.

Depois de um primeiro turno marcado pelo atraso dos resultados e uma denúncia de fraude, que levou ao pedido de recontagem, o direitista Guillermo Lasso e o esquerdista Andrés Arauz disputam os votos de quase 5,7 milhões de eleitores que não conquistaram em fevereiro.

Para a votação, cuja campanha vai até 8 de abril, cerca de 13,1 milhões dos 17,4 milhões de habitantes são chamados a eleger o sucessor do impopular governante Lenín Moreno (67 anos), cujo mandato de quatro anos termina em 24 de maio.

Arauz, economista de 36 anos e herdeiro político do ex-presidente socialista Rafael Correa (2007-2017), ganhou o primeiro turno com 32,72% dos votos, enquanto Lasso, um ex-banqueiro conservador de 65 anos, ficou em segundo lugar com 19,74%, após brigar voto a voto com o líder indígena de esquerda Yaku Pérez, que obteve 19,39% e denunciou a fraude na votação.

“É um desafio muito grande (...) para estes dois candidatos finalistas conseguirem canalizar este desencanto e esta crise que os cidadãos vivem e converter em voto”, disse à AFP a consultora política e professora Wendy Reyes.

- Exaustão -

Reyes acrescentou que, para a votação, "o público está bastante desanimado sobre o significado da política e a credibilidade das instituições. Há muitos problemas econômicos e de saúde em cima disso".

A pandemia já deixou mais de 302.800 infectados, 16.259 mortos e um milhão de pessoas desempregadas no país.

No final de 2020, 32,4% da população vivia na pobreza e a taxa de trabalho informal era de 22,3%.

Para o analista Paolo Moncagatta, a luta entre correísmo e anticorreísmo "vai se fortalecer" na campanha.

“Tudo indica que será uma eleição apertada”, disse à AFP o professor da Universidade privada San Francisco de Quito. No entanto, ele alertou que há 45% do eleitorado "que não se identifica nem como correísta nem como anticorreísta", o que obriga Arauz e Lasso a darem um passo em direção ao centro e modificar o seu discurso para modernizar a sua imagem.

Reyes disse, por sua vez, que os eleitores que apoiavam outras opções "estão cansados" da disputa política que dividiu o país entre os leais ao ex-presidente Correa, que mora na Bélgica mas aparece na campanha de Arauz, e seus oponentes.

- Sentença definitiva -

Arauz, apoiado pela coalizão de esquerda União pela Esperança (Unes), e o conservador Lasso, do movimento Criando Oportunidades (Creo), apoiado por um importante setor da direita, deve participar de um debate organizado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) no próximo domingo.

Enrique Pita, vice-presidente da CNE, antecipou que não haverá contagem rápida para a votação como em fevereiro, quando o órgão anunciou por meio deste mecanismo que Pérez ficou em segundo lugar, apesar de duas pesquisas de boca de urna anteriores terem previsto que Lasso disputaria o segundo turno.

A disputa pela segunda vaga no segundo turno culminou com a decisão do Tribunal Contencioso Eleitoral (TCE), que negou a recontagem dos votos.

Pérez, o primeiro indígena a chegar tão perto do poder, apelou ao TCE para contestar a decisão da CNE de recontar apenas 31 das cerca de 27.000 atas eleitorais com supostas inconsistências.

No entanto, o Tribunal confirmou que o ambientalista ficou de fora do segundo turno.

A Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), da qual Pérez é membro, decidiu, então, não apoiar nenhum dos dois candidatos na disputa e promove o voto nulo entre seus membros.

Pérez, que perdeu para Lasso por 32.115 votos, considerou a decisão final "deplorável" e acrescentou que se tratava de um ataque "contra a vontade popular".

“No final das contas, a sentença (do TCE) já está emitida, portanto os candidatos podem iniciar sua campanha e já podemos trabalhar na programação” para a celebração da eleição, disse Pita.

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