Em Cuba, espaço cultural sensação divide artistas entre chancela do regime e repressão

HAVANA, CUBA (FOLHAPRESS) - Noite de sexta-feira, e uma enorme fila dobra um quarteirão na capital cubana. A maioria das pessoas é jovem e chega em grupos. Aos poucos, o perfil da aglomeração muda, e frequentadores mais velhos também surgem, para em poucas horas lotar o lugar.

De quinta a domingo, essa tem sido a rotina da Fábrica de Arte Cubano, após o relaxamento das restrições para frear a pandemia de Covid --que manteve as portas do local fechadas por quase dois anos.

O prédio, que abrigava uma antiga indústria de azeite, ficou abandonado por décadas, até 2014, quando se transformou em centro cultural que recebe exposições e shows de rock, pop e jazz -- a entrada custa US$ 3 (73 pesos cubanos, no câmbio oficial, ou cerca de R$ 15).

A FAC, como é chamada, surgiu no governo de Raúl Castro (2008-2018), quando várias iniciativas para fomentar um incipiente mercado privado surgiram na ilha. A ditadura passou a permitir a abertura de restaurantes, lojas, bares e casas de shows, num esquema controlado e cheio de burocracia, que buscava salvar um dos pilares da economia local, o turismo.

Num primeiro momento, esses negócios foram parar nas mãos de empresários vinculados ao regime ou simpáticos a ele --no caso da FAC, o músico Equis ("X") Alfonso.

Nem todos os empreendimentos perseveraram. Houve a pandemia, mas também a expectativa de poder contar com a iminente, e depois frustrada, aproximação com os EUA, então sob Barack Obama. A retomada das relações, sob essa visão, traria mais turistas e significaria, no futuro, o fim do embargo econômico imposto nos anos 1960.

Na prática, restaurantes e bares para estrangeiros passaram a ter o menu marcado com avisos de "isso não temos". O motivo pode ir além da falta de fornecimento de ingredientes provocada por restrições comerciais --às vezes, o contrabando simplesmente não chegou. Lojas enfrentam desafio semelhante, e o desabastecimento em toda a ilha foi uma das razões das manifestações de 11 de julho de 2021.

A FAC, no entanto, busca driblar o embargo com bom humor e produtos locais. As bebidas que abundam são o rum cubano e refrigerantes nacionais que imitam a Coca-Cola e a Fanta Laranja.

O centro cultural está localizado no Vedado, bairro de classe média, condição financeira da maior parte do público. Em 2019, a FAC foi escolhida como um dos cem melhores destinos do mundo pela revista americana Time e chegou a receber a visita de personalidades, como a ex-primeira-dama dos EUA Michelle Obama e a cantora Madonna. Como em muitos outros lugares, a pandemia foi uma ducha de água fria, fechando o local no ano seguinte em meio às restrições impostas contra a Covid.

Nesta fase da reabertura, não são exigidos comprovantes de vacinação para entrar na FAC. Dados do regime indicam que mais de 94% da população tomou a primeira dose da vacina contra a Covid, 87% completaram o primeiro ciclo de imunização e 57,7% receberam o reforço --os fármacos aplicados foram, essencialmente, os nacionais Abdala e Soberana, além de uma quantidade menor da chinesa Sinopharm.

Quando a Folha visitou a FAC, em uma sexta-feira em meados de abril, havia quatro shows ao mesmo tempo, em diferentes salas. Um deles era do Interactivo, conjunto de mais de 30 músicos liderados pelo pianista Roberto Carcassés e que vem causando furor na ilha com jazz e gêneros caribenhos. No meio do espaço, um pátio serve de ponto de encontro, e há um restaurante e um lounge.

A despeito das filas de dobrar o quarteirão e das pistas lotadas, o lugar não é unanimidade, já que representa uma contradição, na visão de diversos ativistas da ilha.

"Não deveria existir espaço de arte para alguns, concedido a amigos do regime, como é o caso de X Alfonso", diz a artista plástica Sandra Ceballos. A declaração ajuda a entender a fratura que cinde a oposição cubana após a repressão aos protestos do 11J. Dissidentes se dividem na hora de escolher o caminho para lutar contra o regime em meio a julgamentos a conta-gotas (de 1.395 detidos, 728 continuam presos e 128 foram condenados) e denúncias de violação de direitos humanos.

Como resume Abraham Jimenez Enoa, jornalista do Washington Post obrigado a deixar Havana, à Folha: "É paradoxal. Você tem artistas e jornalistas presos, exilados, fazendo greve de fome. Outros vão à FAC e podem dançar e exibir sua arte às pessoas e nas redes sociais --desde que não critiquem o regime".

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