Em decisão inédita, Temer efetiva militar como novo ministro da Defesa

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Em decisão inédita, Temer efetiva militar como novo ministro da Defesa

GUSTAVO URIBE

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Michel Temer não seguiu recomendação de assessores e auxiliares e efetivou nesta quarta-feira (13) para o comando do Ministério da Defesa o general do Exército Joaquim Silva e Luna.

Com a decisão, é a primeira vez desde que a pasta foi criada no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1999, que um militar ocupa o posto. Os governos FHC (1995-2002), Lula (2003-10) e Dilma (2011-16) escolheram nomes do direito, da diplomacia ou da política para o cargo.

Temer iniciou seu governo com Raul Jungmann na função, mas o político foi chefiar a pasta da Segurança Pública.

Desde fevereiro, Silva e Luna desempenhava a função de maneira interina, já que a intenção do presidente era encontrar um civil para o cargo. Com dificuldades de achar um nome, contudo, ele optou por uma solução caseira.

Em fevereiro, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, chegou a afirmar que a pasta é "típica de um civil". Em evento na mesma época, FHC disse que colocar um civil à frente da estrutura era, no passado, símbolo de qual poder prevalece no país.

Cabe à Defesa tratar das relações entre as Forças Armadas e as outras instituições estatais, além de definir políticas de defesa e de segurança nacional.

Nos últimos meses, o presidente foi aconselhado a escolher um nome civil que não passasse a ideia de fortalecimento dos militares em seu mandato e que não causasse constrangimento à Marinha e à Aeronáutica por ter optado por alguém do Exército.

Desde o início de seu mandato, Temer tem dado aos militares o controle de áreas sensíveis de seu governo. De forma inédita na redemocratização, eles exercem cargos na Funai, na Abin (Agência Brasileira de Inteligência), na Casa Civil, entre outras áreas.

Destacam-se na aproximação do presidente com as Forças Armadas a intervenção federal do Rio e a influência e a visibilidade de generais como Sérgio Etchegoyen, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, e Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército.

Os militares, além disso, deflagraram operações do tipo "garantia da lei e da ordem" em quatro estados e varredura em 34 presídios estaduais no governo Temer. Em maio de 2017, foram chamados para dar segurança à Esplanada quando manifestantes destruíram setores de ministérios durante protesto.

A afinidade de Temer com as Forças Armadas é antiga. Como vice-presidente, ele foi escalado para coordenar o plano nacional de fronteiras, o que o aproximou dos militares. Durante o impeachment de Dilma Rousseff, o emedebista recebeu manifestações reservadas de apoio de generais de alta patente e, desde que assumiu o Palácio do Planalto, faz questão de comparecer a eventos militares.

Em evento com agentes de segurança nesta quarta, o presidente reconheceu que a sua rotina no cargo é imprevisível, com risco diário de turbulência. Ele comparou a sua atividade a de um secretário estadual de segurança pública, na qual uma "tranquilidade absoluta" pode se tornar em questão de horas uma "coisa explosiva".

Em dois anos à frente do Planalto, o presidente enfrentou duas denúncias, perdeu ministros por acusações de corrupção, teve rebeliões na base aliada e viu sua popularidade desabar. Em conversas, ele reconhece que não imaginava que seria tão difícil.

Segundo a última pesquisa Datafolha, a taxa de reprovação ao governo chegou a 82%, a mais baixa desde a redemocratização do país.