Em depoimento, Bolsonaro admite que trocou comando da PF por falta de interlocução, mas nega interferência

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BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro prestou depoimento na noite de quarta-feira à Polícia Federal e negou ter interferido politicamente na corporação. Bolsonaro alegou que demitiu o diretor-geral Maurício Valeixo por "falta de interlocução" com ele, mas disse que a troca de comando da PF não foi por interferência política. O depoimento ocorreu no Palácio do Planalto, e foi prestado ao delegado Leopoldo Soares Lacerda, chefe do Serviço de Inquéritos (Sinq) da PF.

Ao ser questionado sobre os motivos pelos quais pediu a Moro que trocasse o então diretor-geral da PF, Bolsonaro respondeu que fez a solicitação " em razão da falta de interlocução que havia entre o Presidente da República e o Diretor da Polícia Federal", e que "não havia qualquer insatisfação ou falta de confiança com o trabalho realizado "por Valeixo, "apenas uma falia de interlocução".

Bolsonaro confirmou que sugeriu ao ex-ministro da Justiça a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção-geral da PF, e que sugeriu o nome do chefe da Abin "em razão da sua competência e confiança construída ao longo do trabalho de segurança pessoal do declarante durante a campanha eleitoral de 2018".

O presidente disse ainda que Moro teria concordado com a nomeação de Ramagem, desde que ocorresse após a sua indicação do a uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Segundo Bolsonaro, "nunca teve como intenção, com a alteração da Direção Geral, obter informações privilegiadas de investigações sigilosas ou de interferir no trabalho de Polícia Judiciária ou obtenção diretamente de relatórios produzidos pela Polícia Federal".

Indagado sobre o que quis dizer quando disse "eu tenho a PF que não me dá informações", durante a reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, Bolsonaro afirmou à PF que quis dizer que "não obtinha informações de forma ágil e eficiente dos órgãos do Poder Executivo, assim como da própria Polícia Federal". E ainda declarou que quando disse "informações" se referia a relatórios de inteligência sobre fatos que necessitava para a tomada de decisões e "nunca informações sigilosas sobre investigações".

O presidente negou que as motivações para a troca do comando da PF estariam ligadas ao fato de precisar "de pessoas de sua confiança, para que pudesse interagir, telefonar e obter relatórios de inteligência", mas que se incomodava com o fato de "muitas informações relevantes para a sua gestão chegavam primeiro através da imprensa, quando deveriam chegar ao seu conhecimento por meio do Serviço de Inteligência".

Questionado, Bolsonaro confirmou que pediu trocas nas superintendências da PF do Rio de Janeiro e de Pernambuco, mas negou que fosse para interferir em investigações. “Sugeriu a mudança porque o Estado do Rio de Janeiro é muito complicado e entendia que necessitava de um Dirigente da Polícia Federal local com maior liberdade de trabalho”, afirmou no depoimento.

Bolsonaro também foi perguntado sobre uma frase proferida por ele em reunião ministerial na qual afirmou que queria trocar a “segurança” do Rio para blindar amigos e familiares. A frase é interpretada por investigadores como uma manifestação de sua vontade em mudar o superintendente da PF do Rio. Mas, sobre o assunto, Bolsonaro manteve sua versão de defesa e disse que estava se referindo a uma mudança na equipe ro Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no Rio.

O inquérito

O depoimento de Bolsonaro foi a última diligência do inquérito sobre interferência na Polícia Federal. O inquérito tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, e foi aberto em abril de 2020 após acusações feitas pelo ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro.

A abertura do inquérito foi autorizada em abril de 2020 pelo ministro Celso de Mello. O magistrado entendeu que os crimes supostamente praticados por Bolsonaro, conforme narrado por Moro, podem ser conexos ao exercício do mandato presidencial. O então relator também entendeu que o depoimento de Bolsonaro deveria ser realizado presencialmente.

No início de outubro, o ministro Alexandre de Moraes prorrogou o inquérito por mais 90 dias. A ampliação do prazo, que ocorreu pela quarta vez, permitiu a Moraes continuar as diligências do caso.

No último dia 7, o ministro determinou que a Polícia Federal tomasse o depoimento do presidente em um prazo de até 30 dias. A ordem de Moraes foi proferida um dia depois que a defesa do presidente protocolou um pedido ao Supremo concordando com prestar depoimento pessoalmente. A Corte julgaria se Bolsonaro deveria ser ouvido por escrito ou pessoalmente, mas a Advocacia-Geral da União (AGU) se antecipou ao julgamento e apresentou o pedido horas antes.

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