Em desfile de Dia da República, Bolsonaro exalta poderio militar indiano

PATRÍCIA CAMPOS MELLO
*** FOTO DE ARQUIVO *** BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente Jair Bolsonaro participa de evento (Diálogo com o Conselho Empresarial do BRICS) com os presidentes dos países do BRICS, Cyril Ramaphosa (Africa do Sul), Narendra Modi (foto)(Primeiro Ministro da Índia), Vladmir Putin (Rússia) e Xi Jinping (China) durante reunião de cúpula do grupo, no Palácio do Itamaraty. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sentado ao lado do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e de várias autoridades do país, o presidente Jair Bolsonaro assistiu na manhã deste domingo (26), como convidado de honra, ao desfile do Dia da República da Índia, uma demonstração anual da força militar do país.

Tanques T-90, com armamentos que conseguem atingir alvos à noite a 5 km, caças russos Sukoi e Mig e franceses Rafale, helicópteros americanos Chinook e Apache, aviões C-130 Hércules da Embraer e mísseis antissatélite, além de camelos adornados com 76 adereços diferentes, parte no regimento que combate terroristas e contrabandistas, estavam em exibição durante os 90 minutos de desfile, que sai do palácio presidencial em Déli e percorre a esplanada Raj Path até o Portal da Índia e o Red Fort. 

"A Índia é um país nuclear, e, graças ao seu poderio, é um pais que ajuda a decidir o futuro da humanidade", disse Bolsonaro, após voltar do desfile, acrescentando que havia gostado muito, mas que estava cansado devido ao fuso horário --a Índia está oito horas e meia à frente do Brasil.

"Queremos aumentar nossa cooperação em defesa, o ministro não pôde vir, mas virá na próxima oportunidade."

O Brasil vai assinar em breve dois acordos de cooperação em defesa com a Índia. Um deles prevê um fundo bilateral para expandir a capacidade de produção de itens de defesa, enquanto o outro abrirá espaço para cooperação no desenvolvimento e comercialização de armamentos.

Desde que a Índia foi dividida e deu origem à Índia e ao Paquistão, em 1947, os países tiveram diversos conflitos. A maioria das tensões é relacionada à disputa pela Caxemira e a atos de terrorismo de extremistas paquistaneses na Índia. Os dois países desenvolveram armas nucleares. 

"Não há dúvida [de que os indianos possuem mais armamentos que o Brasil], é um país nuclear, inclusive por causa dos problemas que existem na região, mas eles não chegam às últimas consequências justamente pelo poderio bélico que têm", disse Bolsonaro. 

O convite para assistir ao desfile do Dia da República foi o ápice da visita oficial de três dias que o presidente brasileiro faz à Índia. O dia 26 de janeiro celebra a data em que a Constituição indiana, marco da transição completa do país para uma democracia após a independência do Reino Unido, foi promulgada, em 1950. 

Além de mostrar a capacidade da Força Aérea, da Marinha e do Exército indianos, o desfile também teve carros alegóricos de cada um dos estados do país, apresentação de ioga e de muçulmanos sufis entoando poemas do vencedor do Nobel Rabindranath Tagore.

O esquema de segurança é draconiano. Há 10 mil soldados policiando o local, além de helicópteros e caças sobrevoando a área. Todos os voos que saem e chegam a Déli ficam suspensos durante o evento. 

Os convidados --é preciso comprar ingressos para entrar na área do desfile, ou receber convites VIP-- passam por uma revista detalhada, e os celulares ficam bloqueados. 

As entradas são muito disputadas e acabam rapidamente. Pelo menos uma família que gostaria de assistir pessoalmente à parada desistiu de tentar conseguir ingressos. 

"O governo nunca venderia ingresso para a gente, porque nós somos da Caxemira", disse à Folha a obstetra Muna, que estava perto do India Gate com os dois filhos, de 8 e 10 anos, e o marido, que é engenheiro. 

Eles vieram passar alguns dias em Déli, onde têm parentes, e pediram que seus nomes fossem trocados, pois temem retaliação.

Em agosto, Modi revogou a autonomia constitucional da Caxemira, única região de maioria muçulmana na Índia.

Desde então, o estado, que foi dividido em dois --Jammu e Caxemira-- passa por pesada vigilância. 

Muitos líderes foram presos e, desde 5 de agosto, a internet foi suspensa e ninguém tem contato com o mundo exterior. Os telefones também foram bloqueados por cerca de dois meses.

"Nós estamos acostumados a isso, mas nunca foi tão pesado. Da última vez ficamos um mês sem internet, agora já são seis meses", disse. "Eles não querem que o mundo saiba o que está acontecendo na Caxemira."

A Suprema Corte indiana determinou no dia 10 de janeiro que o governo desbloqueie o acesso à internet na região, mas a conexão só começou a ser restabelecida no sábado (25).

Os filhos de Muna ficaram sem aulas por três meses, e o hospital onde a obstetra trabalha ficou sem suprimentos por meses.