Em dia de aumento de contágio e praias lotadas, especialistas alertam para os riscos do verão, que começa hoje

Leticia Lopes, Arthur Leal e Aline Macedo
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O verão começa oficialmente às 7h02 de hoje, e a estação que é a cara do Rio encontrará um cenário completamente diferente dos anteriores. Apesar da previsão de uma estação típica, com dias longos e quentes, como prevê o Instituto Nacional de Meteorologia, os próximos três meses marcam o verão da pandemia, com o fim da estação quase no mesmo dia em que se completa um ano da primeira morte por Covid-19 no estado. No último domingo da primavera, com termômetros na casa dos 38 graus, a cidade já teve um prenúncio de como deve ser o verão: além do calor, praias cheias, nenhum distanciamento nas areias, banhistas sem máscara e ausência de fiscalização.

No início do mês, a prefeitura voltou a proibir estacionamento na orla nos fins de semana e feriados. Mas a medida não evitou que a orla de Copacabana e Leme tivesse carros parados.

O epidemiologista da UFRJ Roberto Medronho, destaca que é a primeira vez em que o Rio irá encarar a Covid-19 no verão, época em que, com o calor, cariocas não costumam ficar em casa. Ele e outros cientistas sugeriram nova proibição à permanência nas praias.

— Num período de festas de fim de ano, onde se fala tanto em fraternidade e solidariedade, a melhor forma de mostrarmos esses valores é ficando em casa. Tenho visto com muita preocupação famílias promovendo festas, pacotes de réveillon sendo vendidos em clubes — diz.

O verão deve ter temperaturas máximas entre 33 e 34 graus, mas valores superiores podem ocorrer. Com os termômetros nas alturas, um dos desafios será manter a máscara no rosto. Para o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Alberto Chebabo, o Brasil não pode desconsiderar as lições aprendidas com a experiência de outros países durante o calor. Em Israel, um novo surto foi causado pela combinação de volta às aulas e uso de ar-condicionado.

— O uso da máscara no verão vai se tornar mais incômodo, mas é extremamente necessário — diz o médico, que aposta em uma estação mais desconfortável do que o habitual: — Vamos ter que trocar a refrigeração por janelas abertas nos locais de trabalho e no transporte público.

Chebabo recomenda aumentar a frequência com que a máscara é trocada, já que a eficiência da barreira é prejudicada pela umidade. Se o suor começar a escorrer, é hora da troca.

Como na Europa

O epidemiologista Roberto Medronho compara o momento atual ao enfrentado na Europa durante o verão do hemisfério Norte, quando surgiu a segunda onda por lá. O epidemiologista diz ver semelhanças entre os cenários.

— Estamos iniciando o verão, e infelizmente o que nós prevíamos está acontecendo: as pessoas estão se juntando nas praias, nos bares, restaurantes e festas. Foi exatamente assim que a segunda onda chegou à Europa.

Na capital, onde a situação é mais delicada em relação à pressão por internações, a ocupação de leitos exclusivos para Covid-19 representa com clareza a proporção do avanço da doença: na rede SUS, que inclui leitos municipais, estaduais e federais, 92% das vagas de UTI estavam cheias até ontem. Neste cenário, 273 pessoas infectadas aguardavam na fila por transferência, sendo 175 delas, casos mais graves, para terapia intensiva.

Alta da média de casos

Ontem, o Estado do Rio chegou a 24.473 vidas perdidas e 406.820 casos confirmados de coronavírus, e em que a média móvel, com alta de 34%, indicou aumento no contágio pelo sexto dia seguido, as areias da Zona Sul ficaram cheias. Equipes do EXTRA percorreram toda a orla e não encontraram fiscais da prefeitura ou policiais militares tentando coibir aglomerações ou conscientizando banhistas da importância das regras de prevenção à Covid-19.

No Arpoador, onde a faixa de areia é estreita, o distanciamento entre os banhistas ontem ficou difícil, com barracas quase coladas umas nas outras. Apenas alguns poucos banhistas conseguiam escapar da aglomeração, tomando sol na pedra. Duas viaturas do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão, da Polícia Militar, estavam estacionadas no calçadão, mas os agentes não atuavam nas areias.

Em Copacabana, Ipanema e Leblon, o cenário era parecido, assim como no Leme, onde a aposentada Dorinha Silva, de 60 anos, deu um passeio, após três meses sem ir à praia. Receosa, a moradora de Copacabana preferiu manter distância da aglomeração: escolheu um espaço vazio na mureta e não tirou a máscara.

— As pessoas não temem a doença. Eu prefiro ficar distante. Não tem mais fiscalização nenhuma, mas, se tivesse, faria diferença — diz.

No calçadão, o movimento era mais tímido que em outros fins de semana, mas ainda assim, com um número considerável de frequentadores pedalando ou caminhando — muitos sem máscara.