Em dia de eleição, moradores de rua sofrem 'apagão eleitoral' e falta de comida

DHIEGO MAIA E KARIME XAVIER
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A vida se movimenta de forma veloz ao redor da pastora Irenice da Costa Lima, 35. Mas ela diz estar "parada" no tempo. Sobre a cabeça dela, um caminho de concreto sustentado por pilastras é rota para os trens da linha 1-azul do Metrô. Nos dois lados do canteiro central onde ela improvisa sua moradia, milhares de carros, motos e ônibus disputam espaço na avenida Cruzeiro do Sul, importante via da região norte da capital paulista. Muitos, neste domingo (15), se deslocavam para escolher quem comandará a maior metrópole da América Latina. Só na cidade de São Paulo, 8.986.687 de pessoas estavam aptas a votar no primeiro turno das eleições para escolher um prefeito, seu vice e mais 55 vereadores. O processo eleitoral começou às 7h (horário de Brasília) na capital paulista e em outros 5.568 municípios brasileiros. Mas Irenice nem notou alterações na rotina dominical. "Eu nem sabia que hoje tinha eleição", confessa. Tampouco sabia que neste 15 de novembro celebram-se 131 anos da Proclamação da República, movimento que deu passagem para que as brasileiras e os brasileiros tivessem o direito de escolher seus representantes políticos. A pastora sem-teto mostrou à reportagem o que tem na vida: um cobertor, poucas roupas e alguns utensílios para cozinha e higiene pessoal. Debaixo do "Viaduto da Cruzeiro do Sul", como os demais colegas de barraca batizaram o espaço. Irenice conta que manteve um relacionamento de três anos com um homem que, segundo ela, foi enviado por Deus. Apaixonada, trocou a Belém (PA) natal por Mairiporã, na Grande São Paulo. Foi morar na casa da sogra, mas após desavenças acabou "largada na rua pelo companheiro", afirmou. Irenice não está mais sozinha, porém. Descobriu há poucos dias estar grávida de oito semanas. "E nem apoio da igreja eu consigo porque ninguém acredita que eu sou uma pastora", afirma. O "apagão" de Irenice sobre a situação política do país é um alerta para os problemas que atravessam essa população e estão longe de serem resolvidos. Desavenças familiares, seguidos por uso de drogas e álcool e por questões financeiras, são o principal motivo a levar uma pessoa a viver ao relento em São Paulo. Quem diz isso são os próprios sem-teto em censo dessa população realizado pela prefeitura paulistana em 2019, que identificou 24.344 pessoas nessa situação em 2019 (alta de 53% em quatro anos). Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que a alta sucessiva do número de sem-teto será um dos nós mais difíceis a ser enfrentado pelo prefeito eleito. Tudo porque, nas últimas quase três décadas, os gestores que se sucederam à frente da prefeitura se preocuparam mais em criar espaços de acolhimento provisório do que tratar do problema de forma integrada. A cidade possui ao menos 101 centros de acolhida, segundo a prefeitura. Especialistas da área dizem que tirar pessoas da rua exige uma resposta multissetorial, com políticas públicas unificadas nas áreas de saúde, habitação, educação, emprego e renda, segurança e assistência social. Mas como é a vida de um sem-teto no momento em que toda a população exerce seu direito de votar? Com essa pergunta em mãos, a reportagem percorreu várias regiões da cidade ao longo das dez horas de duração deste primeiro turno e viu os problemas de sempre. Como os próprios sem-teto resumem: "sobra lábia, véio". Enquanto milhares de pessoas compareciam às seções eleitorais e aproveitavam o pós-voto em encontros em bares, restaurantes e churrascos, afrouxamentos que, segundo médicos, têm provocado a subida de casos de Covid-19 pelo país afora, os sem-teto procuravam o que comer. Diante do Pateo do Collegio, prédio que guarda os primeiros registros da cidade localizado na Sé (centro), um grupo de homens fritava uma porção de mandioca. Era, por ora, todo o almoço deste domingo. O distrito da Sé, endereço da Catedral Metropolitana de São Paulo e do Marco Zero da cidade, é o que aglutina maior número de sem-teto: 45%. "A gente já sabia que as doações não aconteceriam hoje, nem a distribuição de comida", disse Willians Rodrigues Matos, 37. Seus vizinhos, por isso, guardaram marmitas distribuídas na noite anterior por voluntários evangélicos. A mandioca frita pelos quatro homens seria acrescida de algum outro item alimentício caso Renata Hirata, 39, a mulher de Willians, conseguisse êxito na sua "mangueada", gíria atribuída para o ato de pedir comida na rua. Willians disse também que precisava se alimentar porque, como muitos de seus parceiros de rua, estava sob tratamento de uma tuberculose, que o fez perder peso e sono. "Só não perdi a vontade de votar. Logo mesmo irei para Itaquera [zona leste] votar no meu PT." O Partido dos Trabalhadores parece o preferido entre as pessoas em situação de rua. Nas barracas de plástico espalhadas por praças e calçadas do centro, símbolos do partido são vistos facilmente entre os objetos de quem vive na rua. "Foi o único que olhou pra gente", afirma Willians. Uma rua acima do grupo de Willians estava dona Vivi, 64, apelido carinhoso da recifense Elvira Pereira. Ela costurava sua barraca, que foi rasgada por um cachorro de seu vizinho de calçada. Vivi disse à reportagem que o pior só não aconteceu porque estava medicada. "É uma realidade da rua. Muita gente tem, sim, transtornos mentais, como eu", afirma. E quando não é um problema entre "vizinhos", as barracas acabam sendo inutilizadas em ações de limpeza da prefeitura, conta Samuel Messias, 42. "Não há um dia sequer que eu não tenha que desmontar a minha barraca caso não queira perder tudo nessas ditas limpezas." Ali, na rua Anchieta, Messias é um farol. É formado em logística, tem celular com wi-fi e diz ter a cabeça longe das drogas. Parou nas ruas por um mau passo financeiro, disse. "Estou há um ano nessa." Ele afirmou que nesse primeiro ano de rua se viu vítima de um "sistema político que não entrega o que promete". Sua esperança, diz, foi depositada em Guilherme Boulos (PSOL) após diz ter sido ouvido pelo candidato sobre os problemas da rua em um evento de campanha na rua 25 de Março, local onde ele vende bebidas. Denis, 30, também votou em Boulos. Ele não quis divulgar o seu nome completo por causa da família, que não sabe que ele está nas ruas há 19 meses. Braço forte do padre Júlio Lancellotti, ícone da Pastoral do Povo da Rua, Denis foi até o campus Mooca da Anhembi Morumbi votar. Entrou pelos corredores como um eleitor, mas prometeu ano que vem assumir uma outra relação com o espaço. "Quero voltar aqui como estudante de psicologia."