Em dia de live do Cidade Negra, Toni Garrido fala de preconceito: 'Às vezes, me sinto ET'

Ricardo Rigel
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Aos 52 anos, Toni Garrido ainda se sente um garoto em busca de novas experiências. Mesmo admitindo não ser um homem completamente tecnológico, o artista está antenado e entende que as lives passaram a ser uma realidade de sua classe. Tanto é que ele realiza nesta quarta-feira com a banda Cidade Negra seu primeiro show com transmissão online depois do início da pandemia do novo coronavírus. Mas deixa claro que a data, 13 de maio, dia da assinatura da Lei Áurea, é mera coincidência. No bate-papo, o cantor, que também está no ar em “Totalmente Demais” como um professor, afirma que ainda sente o preconceito racial e que, em certos lugares, tem a impressão de ser um ET.

Como você tem enfrentado esse isolamento social?

Tenho a gratidão de ter uma família e uma casa. De ter a quem olhar e quem olhe por mim. Tenho a minha mãe para cuidar, minhas filhas, minha mulher e minha irmã. Um montão de mulheres à minha volta que estão necessitadas de mim e eu delas.

Você continuou produzindo música, como “A bomba”. Como foi o processo de criação?

Uma das coisas que não mudaram nessa quarentena foram as amizades. Eu me uni aos amigos George Israel, Danny Dee, Marcus Vinicius e Rasta nessa música. O detalhe é que a considero a primeira canção do “exílio” porque fizemos logo no início do isolamento. Não quis falar da Covid-19, e sim de como a gente está se sentindo diante disso tudo.

Antes da explosão das lives, você se considerava uma pessoa analógica ou já tinha se rendido à tecnologia?

Eu diria que sou um “analtech” (meio analógico, meio tecnológico). Nunca consegui ser completamente tecnológico. Sou da “Geração X”, então estou sempre a um passo atrás. Com a tecnologia, prefiro analisar muito. Não sou do tipo que fica na fila da atualização.

Você acha que as lives se tornaram um antídoto para esse vírus que também tem afetado o mercado da arte?

Entendo que esse é o primeiro argumento de uma nova história. Para não deixar as pessoas sem nada, você começa a fazer as coisas com o que tem na mão. Mas isso vem sendo preparado há 20 anos. Lá atrás, escutávamos: “Ei, rapaz! Ei, moça! A sua vida vai caber num palmo de megapixel”. No início, transformaram as nossas músicas em ringtones. Hoje, essa tecnologia evoluiu e nos transformou quase que numa projeção holográfica em 8D. Acho normal que as lives estejam aí, mas a gente precisa encontrar formas de o mercado corporativo pagar por elas. Tem um mundo de profissionais por trás de um artista que também precisa sobreviver.

A sua live com o Cidade Negra foi marcada para hoje, 13 de maio, dia da assinatura da Lei Áurea, às 19 h, no Instagram da Mix Rio FM. Foi proposital?

Foi a data em que a rádio tinha vaga. Pra mim, 13 de maio é como 12 ou 14. Não tem esse papo. Até porque o Brasil não para por essa data, o mundo não para. Essa história foi criada, mas não foi resolvida. Houve uma assinatura, mas precisamos da abertura de portas, que se chamam preconceito. Tivemos uma abolição simbólica, mas temos uma população que ainda reproduz a época da escravidão.

Você se sente uma exceção no seu meio profissional e social?

Às vezes, me sinto um ET. Perto de determinados grupos tenho esse sentimento. Para uma outra parte, me sinto como um vírus. Porque pelo olhar eles questionam: “O que esse cara está fazendo aqui?”. Agora, quando faço uma palestra e um garoto preto me agradece por eu estar ali, aí me sinto importante. Precisamos de representatividade.

Falando nisso, você voltou ao ar em ‘Totalmente Demais” como um professor. Como foi essa experiência?

O que reparei é que a novela começou focada na trama principal, mas o meu personagem, Montanha, e todo o meu núcleo de Curicica, que é muito a cara do Brasil, cresceu. A história desse grupo é muito a luta que a nossa população vive diariamente.