Em dia de paralisação, passageiros do BRT reclamam de transporte precário e falta de planejamento: 'Sem esperança'

Gisele Barros e Lucas Altino
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Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

A paralisação dos motoristas do BRT na manhã desta segunda-feira gerou inúmeros transtornos para os usuários do sistema. Nas redes sociais e nas ruas, as reclamações sobre o serviço se multiplicam. Muitos passageiros apoiam a decisão dos funcionários, protestam contra àqueles que usam o serviço sem pagar e reiteram que a circulação dos modais precisa ser reestruturada.

Vanessa Santos, que trabalhou por três anos na bilheteria do BRT, conta que a pandemia de Covid-19 piorou muito o funcionamento do consórcio.

— Foi uma das melhores empresas que tive a oportunidade de trabalhar. Não precisávamos nos preocupar se o pagamento iria estar na conta no dia 5 ou no dia 20, chegava até antes. Trabalhávamos em paz, pois sabíamos que nossas contas seriam pagas, nossos compromissos seriam honrados. Hoje fico muito triste pela situação que alguns colegas se encontram, sem perspectiva de melhorias, sem condições de ir trabalhar, indignados pela atual situação. Fomos demitidos em meio a uma pandemia, e os que ficaram, se encontram sem esperança — conta.

Moradora de Paracambi, a empregada doméstica Ana Paula Nascimento, de 45 anos, só descobriu sobre a greve quando chegou em Madureira, de trem. A parada era a primeira baldeação, num destino que terminaria na Barra da Tijuca. Mas, sem dinheiro para nova passagem — as opções eram pegar mais dois ônibus ou um frescão (ônibus executivo) de R$17 — optou em aguardar o retorno do BRT, mesmo sem indicação de um final feliz.

— Estou sem dinheiro, meu riocard só da para mais uma passagem. A gente conta com um serviço , mas eles deixam a gente na mão — lamentou Ana Paula, enquanto tentava contato com sua patroa — Vim de Paracambi, em mais de uma hora de viagem. Quando saí de casa, não sabia o que estava acontecebdo. Até a Barra seria mais meia hora. Agora não sei o que vou fazer.

Por volta das 9h, os pontos de ônibus de Madureira continuavam cheios. Além dos ônibus convencionais, as pessoas também aguardavam vans, ônibus executivos ou moto-taxis. Quem podia, recorria às viagens por aplicativo.

Morador de Nilópolis, Arthur Cruz, de 45 anos, precisava estar na Freguesia até às 10h. Como não é morador de Madureira, não tinha total conhecimento das rotas possíveis como alternativa ao BRT.

— Tem uma outra linha, que me deixa onde preciso, mas não sei exatamente onde passa. Talvez eu tenha que pegar Uber, mas como tem tanta gente aqui, o preço está dinâmico. Eu não sabia que o BRT estava paralisado até eu chegar — explicou o corretor imobiliário, que no final pegou uma linha (562), que lhe deixaria num ponto distante do desejado , na Pau-Ferro.

Nas redes, usuários dos modais também se manifestaram. Para Caio Gomes, a situação é resultado da falta de planejamento do poder público. Morador da Zona Oeste, ele conta que faltam opções de transporte para a população da região.

— Quem mora em Campo Grande e Santa Cruz, por exemplo, sofre mais. Não há articulado em direção à Barra da Tijuca, apenas o frescão, que custa R$ 14. Penso que a prefeitura deveria criar um plano quanto a isso. Já que o BRT parou, deviam colocar os outros ônibus para rodarem nas áreas limitadas onde eles não podem mais chegar — disse.

Isabella Silva é uma das passageiras que apoia a paralisação, mas também reclama da falta de transporte nos locais por onde passa o BRT.

— Já que não tem pagamento, tem que parar mesmo. Ninguém trabalha de graça. Eles "ralam" todo dia com esses BRTs lotados, muitos carros precários. Além disso, parte da população tem que se conscientizar e pagar a passagem. A empresa precisa arcar com toda uma manutenção dos carros e pagar funcionários. Deviam voltar com as outras linhas que existiam antes do BRT. Não há condições do sistema ser a única opção pra se movimentar o Rio — ressalta.

A passageira Dayane Rosa foi uma das que sofreu para voltar do trabalho nesta manhã. Ao invés de usar apenas uma opção de transporte, preciso recorrer a dois ônibus e o metrô.

— Hoje foi horrível. Trabalho na Barra da Tijuca e moro em Madureira. Hoje tive que pegar um ônibus até o metrô Jardim Oceânico, descer na estação Colégio, e pegar outro ônibus para chegar até a minha casa. Foi bem complicado — afirmou.