Em discurso de despedida, Pazuello faz acusações e diz que 'todos queriam o pixulé do final do ano'

NATÁLIA CANCIAN E VINICIUS SASSINE
·4 minuto de leitura

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Demitido do Ministério da Saúde no auge da pandemia, com recordes sucessivos de mortes diárias, e investigado pela PF (Polícia Federal) por supostos crimes ao se omitir na crise do oxigênio em Manaus, o general da ativa Eduardo Pazuello fez acusações de que havia interesse nos recursos da pasta em um discurso de despedida de sua equipe. Segundo Pazuello, "todos queriam o 'pixulé' do final do ano", numa referência à distribuição dos recursos da pasta. A frase foi dita numa espécie de jogral com seus dois principais auxiliares no ministério, os coronéis Luiz Otavio Franco Duarte, secretário de atenção especializada em saúde, e Élcio Franco Filho, secretário executivo. "Você não vai falar, Franco Duarte? Estou ouvindo. O que fizemos no final do ano?", questionou o ex-ministro. "Nós distribuímos os recursos", respondeu Duarte. Irritado, o general quis saber com base em quais critérios houve a distribuição e repreendeu o ex-auxiliar. "Você não vai falar? Fala, Élcio. Acho que o Franco tá com problema mental." O secretário-executivo, então, disse que recursos para leitos e enfrentamento da pandemia atenderam às demandas dos estados conforme critérios epidemiológicos. Dirigindo-se ao ministro recém-empossado, Marcelo Queiroga, que estava ao seu lado, o ex-ministro afirmou: "Foi outra porrada. Porque todos queriam o 'pixulé' do final do ano." No fim do ano, uma "carreata de gente" pediu dinheiro "politicamente", acusou Pazuello. O discurso de despedida do general, que teve quase 30 minutos, foi revelado pelo site da revista Veja na tarde desta quarta-feira (24). A reportagem também obteve uma cópia dos vídeos. O ex-ministro fez afirmações que apontam para a existência de direcionamento político, atuação de operadores e lobby dentro do Ministério da Saúde. "'Você não tem interesse?' 'Não.' 'Você não quer falar com a empresa tal?' 'Claro que não.' 'Você não recebe empresa?' 'De jeito nenhum.' 'Você não vai aceitar um cara aqui fazendo lobby?' 'Não.' 'Não vamos favorecer o partido A, B ou C?' 'Não.' 'E o operador do fulano, beltrano?' 'Não.' Ih, vai dar merda. É assim que funciona", afirmou o general. Segundo o ex-ministro, a demissão de Nelson Teich do cargo acabou resultando em sua nomeação como ministro definitivo. "O Teich, por razões pessoais, precisou sair. E quem estava na manga era 'yo', e aqui fiquei. Iniciei como interino e depois o presidente nos colocou na missão definitivamente." O general acusou um grupo de médicos de tentar fraudar uma nota técnica para beneficiar a distribuição de um medicamento -Pazuello não deu nomes nem disse a que droga se referia. "Você [Queiroga] vai ter tiro de fora e de dentro, o tempo todo. Em fevereiro, tivemos ação de um grupo interno nosso que tentou empurrar uma pseudo nota técnica que nos colocaria em extrema vulnerabilidade, querendo dizer que aquele medicamento A, B ou C a partir dali estava com critérios técnicos do ministério. E ele não tinha", afirmou. Segundo o ex-ministro, a nota técnica foi montada dentro da pasta, "por um grupo de médicos que nós trouxemos para dentro do ministério". "Esses médicos fizeram uma fake news para o presidente." A presença de médicos no Ministério da Saúde é fundamental, segundo o ex-ministro. Mas, segundo ele, não se pode esquecer que o ministério "é alvo de pressões políticas". "Por causa do dinheiro que é destinado aqui de forma discricionária, a operação de grana com fins políticos acontece aqui." Pazuello disse não ter conseguido acabar com "100%" dessa prática. O ministério "tinha gente muito boa", disse o general, mas faltavam "gestão, liderança, ética, probidade, honestidade e responsabilidade". Ele se disse vítima de "ações orquestradas" contra a pasta -oito, no total. Em fevereiro, segundo ele, sabia que não chegaria a 20 de março no cargo de ministro. "Não chegamos ao dia 15." No discurso, o general confirmou que não foi capaz de prever os rumos da pandemia no começo do ano, culpando as novas variantes do coronavírus pelo agravamento da crise --na verdade, as variantes surgem justamente por causa do descontrole da pandemia. Pazuello deixou transparecer a preocupação com a investigação da PF sobre supostos crimes cometidos durante a crise de escassez de oxigênio no Amazonas. Ele foi alertado por diversas vezes sobre a escassez e sobre o risco de colapso, com pelo menos seis dias de antecedência. "Se tiver essa consciência [de que foi feito o melhor], dorme tranquilo e responde em qualquer foro", afirmou, duas vezes. "A história vai nos julgar." Queiroga falou por poucos minutos, basicamente para elogiar Pazuello: "Mesmo sem CRM [registro médico], você salvou muitas vidas. Quem vai te julgar é a história. Parabéns pelo que você fez pelo povo do Brasil. O tempo haverá de colocar você entre os grandes homens dessa nação. E você já o é."