Em disputa de primos, Marília Arraes sugere que mãe de João Campos pode mandar na prefeitura do Recife

Bruno Góes
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Divulgação / Montagem
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BRASÍLIA — A disputa pelo segundo turno à prefeitura do Recife já é marcada pela troca de acusações entre os candidatos. João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT), que são primos, partiram para o ataque no primeiro debate, realizado pela Rádio Jornal. Até mesmo a briga que envolve as duas partes da família entrou no ringue eleitoral. Renata Campos, viúva do ex-governador Eduardo Campos e mãe de João, foi citada por Marília como alguém que poderia "mandar" na prefeitura caso o adversário fosse eleito.

A petista tem péssima relação com a mãe do candidato do PSB desde que a entrada de João na política virou a sua prioridade. Tanto João, que tem 26 anos, quanto Marília, 36 anos, disputam o legado político de Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco. No primeiro embate, a petista, tratada como "desagregadora" por parte da família, resolveu abordar a questão do parentesco.

Durante o debate, João Campos sugeriu que o PT nacional só apoiou a candidatura de Marília para poder ter influência no Recife. Ao tratar do assunto, também argumentou que a prima seria apenas um instrumento para "figurões" do partido. A candidatura de Marília foi bancada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, contrariando veto dos diretórios municipal e estadual. Os petistas de Pernambuco sempre tiveram boa relação com o PSB e queriam apoiar João Campos.

O candidato do PSB é aliado do atual prefeito Geraldo Julio e também do governador de Pernambuco, Paulo Câmara, ambos do mesmo partido. Na campanha, João Campos defende a hegemonia de oito anos no Recife e quase 14 anos no estado. Marília, que já foi do PSB, saiu por discordâncias com caciques da legenda.

— Eu nunca me dobrei nem ao PSB, na época em que mandava e desmandava nesse estado. Não vou me dobrar a ninguém. Quem lidera o processo político sou eu. Agora, já você, ninguém sabe se quem vai mandar é sua mãe, é Geraldo Julio, ou Paulo Câmara, enfim. Mas, veja bem, fico impressionada porque o PT, o governo Lula investiu em Pernambuco. Seu pai fez o governo que fez com a ajuda do presidente Lula. Isso é ingratidão. Na hora de ir a São Paulo para retirar candidatura a governo vocês foram. Na hora de ir a São Paulo para que não fosse candidata a prefeito, vocês foram — disse Marília.

A candidata do PT tentou concorrer em 2018 ao governo de Pernambuco. Mas, naquela ocasião, sua candidatura foi retirada após acordo com o PSB em âmbito nacional. Com a retirada de Marília da disputa, o PSB se comprometeu a não apoiar Ciro Gomes, do PDT, na eleição à Presidência da República.

No primeiro turno da campanha no Recife, ficaram de fora candidatos de direita e centro direita, como Mendonça Filho (DEM) e Delegada Patrícia Domingos (Podemos). Ambos somaram 39% dos votos válidos. Para a segunda etapa, as campanhas traçaram um estratégia para ampliar o eleitorado. Marília enfatiza o fato de que 70% da população do Recife "disse não à continuidade do PSB". Já João Campos começou nesta quinta-feira a criticar os apoios recebidos por Marília para o segundo turno.

Após a eleição, Mendonça e Patrícia se recusaram a apoiar PT ou PSB. Entretanto, o partido da delegada, o Podemos, declarou apoio a Marília, assim como Armando Monteiro, cacique do PTB. Além disso, a petista ganhou a adesão do prefeito de Jaboatão dos Guararapes, Anderson Ferreira, do PL, reeleito no primeiro turno. Durante a campanha, Ferreira contou com o apoio do presidente Jair Bolsonaro.

No debate, sem citar nomes, João Campos abordou o assunto:

— Causa estranheza você (Marília) hoje estar se alinhando com aqueles que criticam o PT de ser uma organização criminosa, que chamam o próprio Lula de ladrão. Hoje, você está tirando foto com eles, mas querendo cobrar coerência. Nós temos lado. Em 2014, nosso candidato era Eduardo Campos. Quem votou em Temer foi você. Temer era vice de Dilma. Quem colocou Temer como ministro da articulação política do governo de Dilma foi Dilma. Nós tínhamos um candidato que seria muito melhor para o Brasil, e o Brasil seria outro, que era Eduardo Campos. Nós temos lado e compromisso sempre com o povo e com a história de Miguel Arraes, que era do PSB.

Marília, então, rebateu:

— Veja bem, o que vocês estão vendo é que não dá para confiar em duas caras. O que eu tenho são apoios. Minha coligação é a mesma. Meus compromissos programáticos são os mesmos. O palanque que é uma salada russa é o seu. Tem aí de PCdoB a partido dos filhos de Bolsonaro (Republicanos) (...) apoios de segundo turno não são aliança.

No primeiro debate, Marília, que já foi secretária do atual prefeito Geraldo Julio, disse que rompeu com o grupo político do PSB porque os caciques não conhecem "a realidade do povo pobre do Recife". Além disso, citou a questão ideológica, lembrando que João Campos apoio Aécio Neves, do PSDB, no segundo turno da eleição de 2018:

— O PSB ora está de um lado, ora de outro. Tira foto com Aécio, traz ele para cá para ser candidato a presidente. Depois está agarrado com o Lula, depois está esculhambando com o Lula como você está fazendo agora — atacou Marília.

João tentou minimizar a importância dos caciques do partido após ser acusado pela adversária de "esconder" o apoio da atual gestão.

— Não escondo Geraldo Julio, não escondo Paulo Câmara. Agora, quem concorre nessa eleição não é Lula, não é Gerlado Julio, não é Paulo Câmara, não é Bolsonaro. Nós estamos aqui concorrendo a uma eleição. A gente tem que falar de futuro. Eu não vou passar a minha campanha inteira escorado num padrinho político.

Pesquisa Ibope divulgada na quarta-feira aponta para uma inversão do favoritismo em segundo turno. Marília tem 45% das intenções de voto, enquanto João Campos aparece com 39%. No primeiro turno, João era favorito em todos os cenários. Agora, a petista aparece numericamente à frente. Como a margem de erro do levantamento é de três pontos, para mais ou para menos, os candidatos estão empatados tecnicamente no limite da margem de erro.