Em ensaio inspirado em sua estreia no ‘Central da Copa’, Jojo Todynho diz: ‘Neymar, meu amiguíssimo, não vai decepcionar’

Numa mesma Jordana Gleise de Jesus Menezes cabem a engraçada e a sisuda, a dorminhoca e a elétrica, a emotiva e a racional, a solidária e a econômica, a desbocada e a gentil, a despudorada e a cristã.

— É porque eu sou livre! Livre pra ser o que eu quiser. Livre pra reverberar o que eu sinto. Desde que comecei como Jojo Todynho, nunca me escondi. Eu sou isso tudo aqui mesmo. Não “vendo” uma pessoa que não existe — brada a carioca.

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A partir desta segunda-feira (21), além de cantora, apresentadora de talk show, campeã de reality, influenciadora digital e aspirante a atriz, a cria de Bangu passa a dar expediente, diariamente e ao vivo, como comentarista de futebol. Jojo integra o time do “Central da Copa”, programa que vai ao ar antes do “Jornal da Globo”, com um resumão do que rolou no campeonato mundial no Catar. “Bendita fruta” entre os homens, ela se junta ao ex-jogador Fred no estúdio, sob o comando de Alex Escobar, para levar ao público uma visão bem-humorada das partidas, enquanto Marcelo Adnet performa no quadro “Que Doha é essa?” com suas imitações e Lucas Gutierrez surge diretamente do país-sede com histórias curiosas.

— Quando veio o convite, fiquei com medo, não queria tomar o lugar de ninguém. Mas me garantiram: “Todo mundo do esporte vai estar trabalhando nessa Copa. Com você, a gente quer um entretenimento diferente” — entrega a flamenguista, que lavou a alma ao fotografar para a Canal Extra com as cores da bandeira brasileira, debaixo de chuva, no campo do Fluminense Futebol Clube, em Laranjeiras, sem clima algum de rivalidade.

Confiante na seleção, ela enfatiza:

— Copa do Mundo é um momento de união, em que o Brasil todo vibra junto. Estou na esperança de que esse hexa vai vir, em nome de Jesus! Neymar Júnior, meu “amiguíssimo” e jogador favorito, é uma pessoa maravilhosa. Não vai decepcionar.

Em seus 25 anos, Jojo experimentou seis Copas do Mundo. A menina pobre e negra, que já mulher feita passou a ser vítima de preconceito também por causa da obesidade, afirma ter encarado tudo de cabeça erguida, como uma campeã.

— Enquanto as pessoas estão preocupadas com a minha cor, o meu peso e o meu jeito de ser, eu continuo trabalhando e a minha vida segue. Isso (o preconceito) é mais sobre as frustrações dos outros do que sobre as minhas. O que acham ou deixam de achar sobre mim, quero que se fodam. Sabe por quê? Quando só tinha angu dentro da casa da minha avó, ninguém bateu lá na porta e perguntou: “Dona Rita, está precisando de um leite, de um açúcar?”. Então, a opinião dos outros não me incomoda. Eu só não aceito abuso — avisa, segura de si.

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A autoconfiança, ela conta, foi construída com a educação recebida dentro de casa.

— Minha tia Cristina me falava assim: “Esteja você errada ou certa, chegue dentro de casa e conte, porque eu não quero ouvir da boca de terceiros”. Então, não fui uma criança reprimida. Isso ajudou muito no meu desenvolvimento, a amparar a minha personalidade forte — detalha Jojo: — Na minha família tem de tudo. Minha tia é macumbeira; minha mãe é missionária, anda por aí com um roupão, toda tampada; minha avó é pentecostal; minha madrinha é católica; minha outra tia é kardecista... Lá em casa tem gordo, magro, alto, baixo, veado, piranha, sapatão, “71”... Só não tem ladrão. É a tradicional família brasileira. Por isso, dentro da minha casa não tinha essa coisa de “você é feia, você é burra”. Esse tipo de gozação nunca foi permitido.

Com 10 anos, Jordana perdeu o pai, Júlio César, morto com um tiro. Ele trabalhava como segurança durante a madrugada. A menina cresceu sob os cuidados da avó e da tia paternas, vindo a se reconciliar com a mãe, Ione, recentemente, já durante a pandemia de coronavírus:

— Nossa relação é maravilhosa. O problema é que ela tem o mesmo gênio que eu, então o pau quebra. Mas isso é normal, é uma realidade da vida. Minha mãe é uma pessoa muito importante pra mim, eu a amo, a respeito por ter me dado a vida. Mas é a minha avó meu amor maior.

Para dona Rita Maria, tudo. Com o primeiro bom dinheiro que ganhou como artista, Jojo reformou a casa da matriarca.

— Agora, vou fazer obra de novo lá, porque já tem cinco anos que fiz a primeira. Minha única obrigação nessa vida é com a minha avó. Pra ela eu dou todo o luxo. O restante tem que tra-ba-lhar. Bota aí em destaque. Porque, se acham que vão usufruir do que não lutaram para ter, não vão. Se você nega um Pix, vira um demônio. As pessoas querem vida fácil. Só que, na hora em que não tinha nem água pra colocar no copo, ninguém ajudou. Só tinha a minha avó ali. A ela eu devo todo o respeito, o amor e o carinho — sublinha.

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Hoje moradora de uma mansão no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio, e desfilando pela cidade a bordo de um carrão importado, a milionária vencedora de “A fazenda 12” afirma que não gosta de ostentar:

— Eu não vivo de status. Tenho uma Discovery, mas só porque é o carro que eu gosto. Não é pra chegar lá no meu bairro e me exibir. E não fico fantasiando: “Ah, eu tenho que ter três carros na minha garagem”. Quem já passou sufoco não se deslumbra assim. Quando fui procurar casa pra comprar em 2019, vi uma lindona, de R$ 1 milhão e pouco. Depois, fiquei pensando: “Pra que eu vou dar tanto dinheiro numa casa na Barra, com IPTU caríssimo?”. Passaram-se uns meses e achei uma outra maravilhosa, com mais de mil metros quadrados. Agora, estou construindo um deck, ajustando. Pro tamanho dela, paguei barato. Foi um presente de Deus.

Dona de um perfil no Instagram também de milhões (são 24,2 milhões de seguidores), Jojo afirma não ter mais nenhum sonho de consumo a realizar. E diz que ela mesma administra suas finanças.

— Invisto bem o meu dinheiro, só não posso contar em quê. E já comprei tudo o que eu queria com ele. Hoje em dia, ganho muito com publicidade. Só não falo quanto vale um post meu nas redes sociais porque não cuido disso — garante, desconversando, e contado que se livra dos olhos gordos com oração: — Eu acredito muito no poder das energias. Tem gente que chega do seu lado e você se arrepia toda. Eu me protejo orando muito, quando me deito e quando me levanto. Tenho uma conexão muito forte com Deus.

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A virada na vida de Jojo, no entanto, não foi só de bênçãos. Ela afirma, por exemplo, que sentiu o racismo mais escancarado depois do sucesso.

— Quando você se torna uma figura pública, os outros acham que podem te fazer de fantoche. E que têm o direito de falar o que quiserem a seu respeito. Comigo não, meu amor. Se me perturbar, eu mando pra puta que o pariu e vou à Justiça — avisa, refletindo sobre este 20 de novembro: — Consciência Negra tem que se ter em todos os dias do ano. Não adianta as marcas quererem chamar os influencers pretos pra fazer trabalho só em novembro. Combater o racismo é todo mês, todo dia, toda hora, a cada minuto e segundo. A gente sofre o tempo inteiro. O Brasil é extremamente racista, não aceita preto rico.

Ela conta que já ganhou alguns processos baseados em preconceitos sofridos, cinco deles por gordofobia.

— Tudo o que você fala gera uma consequência. Uma mulher falou: “Tudo a Jojo quer processar”. Eu retruquei: “Se fosse com você, não processaria?”. Acham que podem ir pra internet e falar o que quiserem? Vou botar pra prestar serviço comunitário, sim, dar cestas básicas. Aí, pega quem ajudou na hora de rir de mim, de zombar, de se achar engraçadinho, pra ajudar a pagar a pena — alfineta.

Nas ruas, cara a cara, as ofensas não chegam tão gratuitamente, segundo ela.

— Ah, pessoalmente não fazem gracinha comigo, não. O diabo sabe exatamente pra quem ele aparece. Digo: “Você hoje vestiu as armaduras de Jorge? Tá corajoso, filho?”. Não dou confiança. Na rua, eu sou muito séria. Você não vai me ver rindo o tempo inteiro. Se vier falar comigo, eu vou tratar muito bem. Fora isso, sou de poucas ideias, cara fechada. Trato todo mundo bem até o momento em que atravessam o meu território. Aqui não tem bagunça. Falo mesmo: “Em casa de malandro, vagabundo não pede emprego”. Eu sempre me dei muito respeito, então me pus no meu lugar.

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No último dia 13 de outubro, Jojo foi até a porta da casa de uma ex-vizinha, em Bangu, tirar satisfações sobre o que a mulher tinha publicado sobre ela no Instagram. “Gordofóbica! Sou gorda mesmo, tenho dinheiro para ficar Barbie. Cada um cuida do seu rabo. Minha gordura te incomoda em quê? Tu não malha? Então cuida da sua vida”, vociferou em vídeos postados em seus próprios stories. Da fama de barraqueira, ela faz pouco caso:

— Conto os meus podres, tenho problemas, pago contas, resolvo coisas. E me apontam como barraqueira? Caralho, se fosse com vocês, não fariam barraco também, porra? Por que comigo tem que ser diferente? É hipocrisia das pessoas me colocarem um rótulo, sendo que ninguém é santo nesse mundo. Querem se meter em tudo. Aí depois falam “Jojo é grossa, Jojo é arrogante”. Não! Eu só não dou confiança.

Gordofobia é preconceito com que Jojo passou a lidar nos últimos cinco anos, desde que ficou nacionalmente conhecida com o hit “Que tiro foi esse?”.

— Não sou gorda desde sempre. Fui engordando lá pelos 18, 19 anos. Aos 20, eu fiquei assim e permaneço. Mas a minha gordura não agride nem ofende ninguém. O formato do meu corpo não muda a neta que eu sou, a filha que eu sou, a amiga que eu sou. É um corpo, que vai morrer e ficar por aí pros bichos comerem. Malho, tenho o meu personal trainer, mas vou no meu ritmo. Nunca tive problema com autoestima. Eu me acho maravilhosa, sempre tive os homens que quis, trabalhei, corri atrás. Sou uma mulher que entende o seu valor, que sabe quem é e o que busca — afirma, dizendo-se muito vaidosa: — Gosto de me cuidar. Eu me maquio, faço o meu cabelo e as unhas toda semana, reativo a marquinha de biquíni... Só que não vivo apegada a ter o corpo perfeito. Nunca tomei remédio pra emagrecer.

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No último dia 7, Jojo foi até uma clínica especializada em cirurgia do aparelho digestivo e obesidade e compartilhou o momento nos seus stories, avisando: “Hoje eu estou dando um novo rumo a minha vida, com a certeza de que tudo agora mudará e eu estou preparada”.

— Essa operação salva muitas vidas, sou super a favor. As pessoas insistiam: “Jojo, faz uma bariátrica”. Eu dizia: “Se você está incomodada, faça você”. Sempre tive a consciência de que precisava ser na hora certa e do jeito certo. Agora é um momento oportuno. Estou passando pelo processo de preparação para a cirurgia com meus médicos, a nutricionista Renata Branco (que também é sua empresária) e o doutor João Branco, que é meu ortomolecular e endocrinologista — explica.

O anúncio da decisão pela mudança de vida aconteceu uma semana depois que o fim de seu casamento com o militar Lucas Souza veio à tona. Jojo se irritou com os seguidores que vincularam um fato ao outro. “Se vocês não sabem, o processo para fazer uma cirurgia bariátrica tem um tempo, e eu já estou há dois meses a caminho desse processo. Não tem nada a ver com se separar, pelo amor de Deus. Eu não sei se vocês fazem isso para testar minha paciência ou porque são leigos mesmo”, disparou.

Jojo e Lucas trocaram alianças numa cerimônia em 29 de janeiro deste ano. Em 8 de outubro, houve uma primeira separação, com direito a cuecas rasgadas, mas se reconciliaram. Vinte dias depois, quando concedeu esta entrevista à Canal Extra, a artista se negou a falar sobre o relacionamento. O motivo se revelou na manhã seguinte, quando o ex-marido revelou o término definitivo.

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Ao assinar o divórcio, no último dia 3, ela desabafou nos stories: “Assinei com dor no coração, muito triste. Triste, não. Decepcionada (...) O Lucas que eu vejo hoje não é o Lucas com quem eu casei, não é o Lucas por quem um dia eu me apaixonei. Desejo a eles coisas boas, e procuro cada vez mais melhorar. Uma mulher, quando toma a sua decisão, não tem quem faça ela voltar atrás”. Horas depois, Jojo estava se divertindo com os amigos naquela que denominou Halloween Divórcio Fantasy — A Festa, com direito a churrasco, pagode, doces, drinques e decoração temática.

A já anunciada vontade de engravidar em 2023, portanto, foi adiada. Em vez de se tornar mãe, no próximo ano, Jojo quer entrar para a faculdade de Direito e assumir sua porção atriz. As aulas de interpretação já vêm acontecendo.

— Em tudo que pode acrescentar na minha vida e na minha carreira, entro de cabeça. Se me proponho a fazer, entrego com excelência. Sou a primeira mulher negra no Brasil a ter um talk show (o “Jojo nove e meia”, no Multishow). Estou tendo voz e dando voz a outras mulheres como eu, que nunca imaginaram ser possível. Elas viviam se escondendo, com medo de botar um cropped e reagir, preocupadas com o que os outros diziam. Cheguei pra mudar isso — orgulha-se ela, que já fez participações em novelas como “A força do querer” (2017) e “Bom sucesso” (2019), nos filmes “Crô em família” (2018) e “Os suburbanos” (2022), e na série “Os parças”, que estreia no Globoplay ano que vem.

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Créditos do ensaio

Fotos: Vinícius Mochizuki

Assistência de fotografia: Rodrigo Rodrigues

Beleza: Raquel Reis

Assistência de beleza: Ana de Jesus

Agradecimento Fluminense Futebol Clube