Em entrevista após maiores protestos em Cuba em 30 anos, presidente reconhece crise e culpa 'asfixia' promovida pelos EUA

·6 minuto de leitura

HAVANA — Após os maiores protestos em Cuba desde os anos 1990, o presidente Miguel Díaz-Canel convocou uma entrevista coletiva com seus ministros nesta segunda-feira, reconhecendo que há uma crise na ilha, com o agravamento da pandemia da Covid-19 e a escassez de alimentos e remédios. Segundo ele, as manifestações são culpa das sanções impostas pelos Estados Unidos, que "asfixiam a economia" e têm por fim "provocar distúrbios sociais no país".

As manifestações de domingo foram as maiores desde o chamado "maleconazo" de 1994, protestos que tomaram Havana durante o Período Especial, a grave crise que a ilha atravessou depois da dissolução da União Soviética, sua aliada e principal parceira econômica. À época, o PIB caiu 35% em três anos, houve racionamentos de comida, e os apagões chegaram a durar 12 horas diárias, diante da falta de combustíveis.

De acordo com o site de jornalismo de dados Inventario, houve 40 manifestações espalhadas por toda a ilha, algo raro em um país onde o regime de Partido Comunista único considera a oposição organizada ilegal. Não há um número oficial de detidos, mas segundo testemunhas citadas pela Reuters, as forças de segurança, apoiadas por agentes à paisana, prenderam cerca de 25 manifestantes.

Na coletiva de mais de três horas, Díaz-Canel disse que os protestos são catalisados por uma campanha "manipuladora" nas redes sociais, conduzidas por contrarrevolucionários. Apesar de reconhecer que há problemas sociais no país, ele disse que a situação é indissociável da "política cruel e agressiva de perseguição" americana, chamando de "hipócritas" e "cínicos" aqueles que não a denunciam:

— Os que querem aparecer como salvadores não estão interessados na saúde ou na alimentação do povo. Querem mudar para um regime que imponha a privatização dos serviços públicos, que dá mais possibilidade para uma minoria rica.

A crise econômica de Cuba se agravou com a pandemia, que interrompeu o turismo na ilha e levou a uma queda de 11% do PIB em 2020. A economia já vinha se deteriorando durante o governo de Donald Trump, que suspendeu a aproximação iniciada por Barack Obama e reforçou o embargo econômico em vigor desde 1962, com 243 novas restrições, que não foram suspensas por Joe Biden.

As queixas populares, reconheceu Díaz-Canel, são "legítimas", mas é necessário "discernir até que ponto querem apenas nos dividir". Questionado sobre os motivos das insatisfações, o presidente cubano — que neste ano assumiu também o comando do PC, substituindo Raúl Castro, irmão de Fidel —, respondeu:

— O problema elétrico, que é uma realidade. O abastecimento de alimentos e medicamentos — afirmou, pouco após seu ministro de Minas e Energia, Liván Arronte Cruz, afirmar que os apagões devem-se às limitações de crédito para consertar as termoelétricas e à dificuldade de obter combustíveis. — Qual é a origem de todos esses problemas? O bloqueio.

O presidente cubano disse ainda que os protestos foram históricos não pelos opositores, mas pela "defesa da revolução" feita pelos adeptos do regime. No domingo, em um outro pronunciamento à nação, ele havia prometido uma "resposta revolucionária", convocando "todos os comunistas a irem às ruas".

— Ontem vimos delinquentes. Sua proposta não era pacífica, houve vandalismo, apedrejaram lojas de câmbio, houve saques — disse Díaz-Canel, chamando o comportamento de "totalmente vulgar, indecente e delinquente". — Quiseram perturbar a tranquilidade em meio à pandemia. Não é cruel, brutal, genocida? Eles [os manifestantes] tiveram a resposta que mereciam e continuarão a ter.

Muitos dos atos de domingo foram transmitidos pela internet, e alguns manifestantes disseram à Reuters que se juntaram aos protestos após verem o que estava acontecendo nas redes sociais, cada vez mais um fator-chave no país após a introdução do 3G há dois anos e meio. A rede móvel foi cortada durante a tarde de domingo e continuava instável até a manhã desta segunda, segundo a AFP.

— Nós estamos atravessando momentos muito difíceis — disse à Reuters Miranda Lazara, professora de dança de 53 anos que se juntou a milhares de manifestantes que marcharam em Havana ontem. — Precisamos de uma mudança de sistema.

Um fotógrafo da Associated Press foi ferido nos atos em Havana, onde jipes das Forças Especiais estavam nas ruas mesmo após às 21h (22h, horário de Brasília), hora do toque de recolher em vigor devido à pandemia. Segundo a AFP, houve choques pontuais entre manifestantes e policiais, que usaram gás lacrimogêneo, tubos de plástico e deram tiros para o alto para dispersar os manifestantes. Diversos veículos policiais foram danificados ou virados.

O movimento havia eclodido na manhã de domingo San Antonio de los Baños, cidade com 50 mil habitantes a sudoeste de Havana, onde fica a sede da Escola Internacional de Cinema de Cuba, em protesto contra os apagões de energia e demandando a vacina contra a Covid-19. Pouco depois, no entanto, as palavras de ordem se transformaram em gritos de "liberdade", "abaixo a ditadura" e "Pátria e vida" — nome de uma música lançada neste ano por rappers cubanos.

Quase simultaneamente, ocorreram protestos em Palma Soriano, na região de Santiago de Cuba. Houve também uma convocatória para atos em frente ao Instituto Cubano de Rádio e Televisão, no bairro de Vedado, em Havana, feita por alguns membros do grupo de artistas que realizou manifestações em frente ao Ministério da Cultura no ano passado pedindo liberdade de expressão e criação.

Os protestos coincidiram ainda com o terceiro dia consecutivo de recordes de casos de Covid-19 desde o início da pandemia: foram 6.923 infecções, com 47 mortes. Ao todo, o país de 11,2 milhões de habitantes registra 238.491 diagnósticos, com 1.537 mortes.

Em sua fala desta segunda-feira, o presidente reconheceu que a ilha vive um pico de casos, mas comparou a situação com a de outros países da região. Segundo Díaz-Canel, a taxa de mortalidade continua baixa, apesar da escassez de remédios. De acordo com os dados do Our World in Data, a taxa de mortalidade da ilha é hoje de 0,64%. A brasileira, para fins comaprativos, é de 2,79%, pouco mais que o índice das Américas como um todo, de 2,64%.

— Vejam a diferência para a maioria dos países que têm situações mais robustas que a nossa. E nenhum deles sofre bloqueio — disse o presidente, apontando para uma televisão com dados de outros países.

A situação é especialmente grave na província turística de Matanzas, cerca de 100 km a leste de Havana, onde o aumento de casos ameaça levar o sistema de saúde ao colapso. Na semana passada, as autoridades cubanas enviaram para lá uma brigada de 500 médicos e enfermeiros, bem como recursos de saúde e alimentos, segundo a mídia local.

Cuba autorizou na sexta-feira o uso emergencial de sua vacina anti-Covid Abdala, a primeira da América Latina, que segundo testes feitos na ilha tem 92,28% de eficácia contra o risco de contrair Covid-19 com sintomas. O país deu início a uma campanha de vacinação em massa: até o momento, 27% da população já recebeu ao menos uma dose e 15% dos cubanos já estão completamente imunizados. (Com informações de El País)

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos