Em entrevista exclusiva, Fred fala de pós-carreira, glórias e dramas: 'A torcida do Fluminense cuidou de mim'

Aos 38 anos, o agora ex-jogador Fred experimentou nas últimas semanas como o futebol é capaz de escrever certo o desfecho de uma biografia que teve linhas bastante tortas. O atacante predestinado, que marcou um gol do meio-campo quando estava prestes a ser demitido na base, de ascensão meteórica até o futebol europeu e que livrou o Fluminense do rebaixamento antes de conduzi-lo a dois títulos brasileiros (2010 e 2012), amargou nos anos seguintes a pecha de “cone da Copa”, lesões e um retorno conturbado ao futebol mineiro. Quando pensava em parar, em 2020, Fred e Flu voltaram a se cruzar para os capítulos finais.

Em entrevista ao GLOBO/EXTRA, concedida na última quinta-feira, o atacante não se esquivou de tratar os altos e baixos da carreira, demonstrou gratidão à torcida tricolor e falou sobre o futuro que ele começa a escrever a partir de hoje.

Você já pensou como será acordar como ex-jogador?

Nós, jogadores, somos pessoas públicas, sonhamos em passar despercebidos. Acho que não vou conseguir isso, mas vai ser bacana, vou poder jogar bola na praia com os meus moleques. Sempre andei a pé, de bicicleta, sempre fui a restaurantes, ao cinema com os meus filhos, mas tinha bastante assédio. Penso que vai diminuir um pouco e vou ter mais tranquilidade para curtir a família.

Vai continuar no Rio ou volta para Belo Horizonte?

Minha vontade é viver no Rio. Minha e da Paula (esposa), né? Ela já definiu, então, tudo certo (risos).

A pandemia serviu para refletir sobre fim da carreira?

Fiquei quatro meses na minha fazenda. Cheguei a pensar na pausa, que era algo que não pensava antes. Passei por um momento difícil em 2019, quando a gente teve um resultado muito ruim pelo Cruzeiro (rebaixamento para a Série B). E eu já queria largar o futebol. Aí o meu primo, o Jefferson, começou a falar algumas verdades que eu precisava ouvir. ‘Você não pode parar dessa forma. Não é justo com a sua carreira, com você, com a sua família’. E me fez refletir. Aí, comecei a treinar, fiquei muito bem fisicamente e surgiu a ideia do presidente Mário (Bittencourt) de me levar para fazer parte dessa reconstrução do Fluminense. Se eu parasse da forma que eu queria em 2019, acho que seria um cara frustrado.

Como você acha que será sua relação com futebol agora?

Hoje é o que mais tira meu sono, porque vivo um dilema. Eu tenho isso de competição nas veias, de estar no campo, de jogar, de ganhar, de fazer a pessoa acreditar. Quando eu estou mal, eu colo neles (companheiros de time) e eles me tiram do buraco. O futebol me tirou de um monte de coisa complicada, de um ambiente problemático e me fez um ser humano melhor. Mas, ao mesmo tempo, eu quero pegar meus filhos na escola, ter tempo para almoçar fora com a minha esposa... Eu estou discutindo isso com a minha família e estou tentando achar algo que me dê coragem de tomar a decisão correta. Eu sei que não tem como agradar aos dois lados. Se eu tomar decisão profissional, vou ter que ter o apoio da minha família para vir junto.

O assunto é aposentadoria, mas estamos falando muito de futebol no futuro...

(Risos). Eu amo futebol, amo o cheiro da grama. Eu amo estar ali. Para mim é um prazer fazer um moleque evoluir, sabe? Eu tive pessoas que fizeram isso comigo. O Juninho Pernambucano, o (Cláudio) Caçapa, o próprio Fernando Diniz quando jogou comigo no Cruzeiro... Me ajudaram muito, amadureci demais com esses caras.

Você está próximo de tirar a licença B de treinador, certo?

Sim. Eu vou fazer todos os cursos, vou tentar ter o máximo de conhecimento.

O Mário acha que você vai fazer algo no campo...

Acho que a coisa mais bacana que eu aprendi foi pegar os erros e os acertos de todos com quem eu trabalhei. Todos nós temos coisas boas e ruins, mas uns caras marcam muito, né? O relacionamento do Abelão (Abel Braga), a liderança dele... Aí você vê o lado humano e o conteúdo técnico do Diniz. Ele é fora da curva, é o melhor com quem já trabalhei. Já tive muitos bons treinadores, mas o Diniz está em outro nível ao perceber coisas que ninguém vê e só ele enxerga. Tudo é muito cobrado, bem detalhado, mas ele não larga esse lado humano. Nós somos um material, sabe? Quando estamos bem, somos elogiados, mas quando estamos mal, não prestamos. Quando você pega uma diretoria e um treinador que sabe humanizar o jogador, tudo flui, se torna uma família.

Tem algo que você faria de diferente na sua carreira?

Eu fui para o Atlético-MG, mas eu não queria sair do Fluminense (em 2016). Foi necessidade da diretoria me tirar. E lá (no Atlético) também. Eles ligaram para o meu empresário e falaram “não contamos com o Fred, vamos reformular o elenco”. A opção era o Flamengo, e os clubes já estavam certos. Mas eu não ia jogar no Flamengo justamente para não manchar a relação que eu tenho com o Fluminense. Quando cheguei aqui, em 2009, eu errei muito com o clube. Eu saía, bebia, não descansava, acabei machucando muito. Então a torcida me pegou no braço, mesmo errando, e me abraçou em 2009. Aquela arrancada (contra o rebaixamento) foi como um título para nós.

Aí, vieram as conquistas...

Em 2010, campeão brasileiro. Em 2011, a maior média de gols. Em 2012, campeão (carioca e brasileiro). Em 2014, fui o “cone da Copa” e fui massacrado. Me doeu muito, eu achava que estava em depressão. Fui para a fazenda, e falei: “pai, não quero (jogar futebol)”. Meu pai falou: “vai jogar, rapaz, vai fazer gol”. Achei que o pessoal não ia me deixar em paz, mas voltei. Na volta, o Fluminense fez uma homenagem: foram colocando nas ruas várias placas escritas: “você está a 16 quilômetros de casa”, depois “14 quilômetros”, “12 quilômetros”... até chegar em Laranjeiras, onde tinha 200 crianças gritando “o Fred vai te pegar”. No meu primeiro jogo (depois da Copa), vi que a torcida estava preocupada comigo. Eles cuidaram de mim.

Contei tudo isso para dizer que, quando sai do Atlético-MG, eu não iria para o Flamengo e pintou o Cruzeiro. Eu sabia que teria pressão. Tive uma lesão no joelho, fiquei seis meses parado, voltei, fui artilheiro. (Em 2019), o time caiu para a segunda divisão, mas acho que não me arrependi. Me arrependeria se tivesse ido para o Flamengo.

Qual momento apagaria?

O 7 a 1 (do Brasil para a Alemanha, na Copa-2014). Foi o dia que eu mais me senti impotente. É uma vergonha.

Uma dor parecida com o quê?

Já sentiu a dor de perder alguém? Acho que é igual. Você não querer acordar no outro dia. Torcedor acha que jogador que tem dinheiro vai para casa e esquece (as derrotas). Isso não existe. Vou te explicar os processos: com nove anos, sai da casa da minha mãe. Virei jogador de verdade com 18, não ganhava dinheiro. Aos 19, eu ganhei muito dinheiro, mas amava o futebol. Com 24, eu comecei a gostar muito de dinheiro e comecei a me perder do futebol. Nossa classe de jogador, ela é muito simples, qual educação financeira nós temos? Jogador ganha (dinheiro) muito rápido e ele não está preparado. Aí tem mulher em cima, festa, todo mundo bajulando. Quando eu falo de humanizar, é fazer isso, é falar: “pô, gente, vocês ganham bem, mas tem que fazer isso é por amor à torcida, ela ama o clube, olhem seus familiares.” Então, eu não quero perder pela minha esposa, pelos meus filhos... você imagina perder um negócio desses (por 7 a 1), entendeu?

Acha que você merece uma estátua no Fluminense?

Não mereço, não acho necessário, de verdade. A torcida fala isso, mas estamos na era da rede social. A torcida me marcando em vídeos, fazendo comentários, já me deixa grato de verdade. Se colocar uns gols meus de vez em quando, para mostrar para os meus netos, já estou feliz.

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