Em estados moderados, base ampla de Sanders é colocada em xeque até por progressistas

MARINA DIAS

ANNANDALE (VIRGÍNIA) E WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O ex-vice-presidente Joe Biden e o senador Bernie Sanders saíram na frente na disputa desta terça-feira (3) pela candidatura democrata à Presidência dos Estados Unidos. 

Segundo as primeiras projeções, Biden venceu no estado da Virgínia, enquanto Sanders levou em Vermont. Os dois estados foram os primeiros a terminarem a votação, às 19h locais (21h de Brasília). 

Nishan Kohu chegou apressado ao local de votação nesta terça-feira no estado de Virgínia. 

Disse que sua escolha convicta à Casa Branca era o senador Bernie Sanders, mas não mostrou a mesma segurança sobre a capacidade de o progressista formar uma ampla base de apoio para derrotar Donald Trump.

"Acho que Sanders pode unir o Partido Democrata, mas não sei se consegue unificar os EUA."

Kohu afirma que compartilha das propostas do senador, mas votaria em qualquer outro candidato escolhido pela convenção nacional da sigla, em julho, que fosse capaz de impedir a reeleição do presidente.

O perfil do trabalhador autônomo de 43 anos se repete em estados moderados onde a habilidade de Sanders para unir o partido e o país foi colocada em xeque na Super Terça, o dia mais esperado das primárias democratas.

A reorganização do centro foi determinante para fortalecer a candidatura do ex-vice-presidente Joe Biden e fazê-lo mais uma vez opção para eleitores que não viam uma alternativa viável a Sanders.

"Aprecio tudo o que Sanders trouxe para o debate democrata e para o país, mas não o vejo como presidente. Acho que ele é motivador, provocativo, mas não sei se seria um bom administrador capaz de unir o partido", diz Carol Davis, 54. 

A economista especializada no setor de saúde --a proposta de saúde gratuita para todos é a principal bandeira de Sanders-- se diz no meio do caminho entre progressistas e moderados, mas acredita que um Biden fortalecido é "o nome mais seguro" no momento diante da corrida contra Trump.

Depois de resultados frustrantes nas três primeiras prévias, em Iowa, New Hampshire e Nevada, o ex-vice de Barack Obama conquistou uma vitória esmagadora na Carolina do Sul, no sábado (29), ancorado principalmente no voto dos negros. 

A ótima performance reverteu o pessimismo que envolvia sua campanha e fez com que dois importantes candidatos centristas desistissem da corrida e declarassem apoio a seu nome: o ex-prefeito de South Bend Pete Buttigieg e a senadora Amy Klobuchar.

A escalada positiva fez com que Biden chegasse à Super Terça como favorito ao lado de Sanders, que tentava consolidar sua liderança conquistada com bons resultados nas prévias até aqui.

Segundo analistas, os estados moderados eram a chave para que cada um deles mostrasse capacidade de articulação para além de seu eleitorado cativo.

Biden tem força entre negros e mais velhos, enquanto Sanders encontra favoritismo nos latinos e mais jovens.

Em jogo nesta terça, Virgínia e Carolina do Norte são considerados pêndulos, ou seja, ora votam em democratas, ora em republicanos nas eleições nacionais, e concentram o quarto (110) e quinto (99) número de delegados entre os 14 estados da corrida --atrás apenas da Califórnia (415) e do Texas (228).

O número é considerável entre os 1.344 delegados que serão escolhidos nesta semana. Ao todo 3.979 delegados vão à convenção nacional do partido no meio do ano nomear o adversário de Trump.

Com 8,5 milhões de habitantes, a Virgínia conta com 20% de negros e 9,6% de hispânicos. A Carolina do Norte, por sua vez, tem 10,4 milhões de pessoas, sendo 22% negras e 9,6% hispânicas.

Sanders chegou a liderar a média das pesquisas nos dois estados até o fim de fevereiro, mas as projeções desta terça mostravam que ele não havia sustentado os números em meio ao bom momento de Biden.

O senador foi de 25% para 21% na Virgínia, enquanto Biden passou de 19,3% para 39,9% no estado. Na Carolina do Norte, o progressista tinha 24% na semana passada e foi para 22%, enquanto Biden saltou de 17% para 34,5%.

"Estava indecisa até segunda-feira (2). As coisas têm mudado e hoje ficou claro o que eu deveria fazer. O apoio que Pete e Amy deram para Biden foi uma escolha sábia para assegurar que a força democrata vença", resumiu a aposentada Nancy Kelly, 66, que votou em Biden nesta terça.

Além do ex-vice-presidente, o ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg era um personagem que parecia ter ganhado força para esta Super Terça, sua estreia oficial na disputa democrata.

O bilionário pulou as quatro primeiras prévias do partido e aparecia bem posicionado também como opção a Sanders até a virada de Biden dos últimos dias.

Bloomberg sabia da importância de estados moderados e investiu US$ 12 milhões só em anúncios de TV na Virgínia, por exemplo, mas as pesquisas mais recentes já não mostravam que ele conseguiria bom um resultado na Super Terça.

O funcionário público aposentado Bervin Elliott, 72, disse que seu favorito era o ex-prefeito de Nova York, mas Biden agora lhe parecia uma melhor opção. 

A avaliação de Elliott é que os dois moderados têm mais experiência administrativa do que o senador. "Bloomberg governou uma cidade e isso é muito. E Biden trabalhou no governo Obama e tem feito o que pode até aqui."

Com o centro menos fragmentado e Biden fortalecido, o desafio de Sanders era abrir uma vantagem que pudesse ser irreversível até a convenção de julho.

Líder nas pesquisas nacionais e no número de delegados até aqui, o senador investiu até o último minuto nos estados moderados e mais populosos, mas as projeções do fim da tarde de terça mostravam que, se nada mudasse, ele deveria vencer na progressista Califórnia e em mais quatro estados. 

Virgínia e Carolina do Norte deveriam terminar com Biden à frente --o ex-vice-presidente também aparecia forte em seis outras regiões. 

A grande incógnita era o Texas, que oscilava entre os dois nomes durante os últimos dias, mas mostrava pequena vantagem de Biden no fim da tarde.

A maneira mais fácil de conseguir a nomeação democrata é ter os votos de 1.991 dos 3.979 delegados escolhidos nas prévias. Mas, além deles, há 771 superdelegados --governadores, integrantes do comitê nacional e do Congresso, por exemplo--, que podem entrar em ação caso nenhum candidato atinja o número mínimo e seja necessário realizar um segundo turno.

O establishment democrata teme que a agenda de justiça social e igualdade econômica de Sanders afaste justamente os eleitores moderados que ajudaram a legenda a recuperar a maioria da Câmara em 2018, e resultar em mais uma derrota para Trump.

A boa performance em estados-chave nesta Super Terça era fundamental para o senador conseguir uma liderança incontestável e tentar impedir um movimento contra sua candidatura na convenção nacional da sigla.