Em ‘estreia’ no Oriente Médio, Biden encontrará antigos desafetos e novos problemas

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Dezoito meses depois de tomar posse, Joe Biden começa, nesta quarta-feira, sua primeira viagem ao Oriente Médio, em um dos momentos mais críticos de seu governo. Com a aprovação perto dos 30% e correndo o risco de ver a oposição assumir o comando do Congresso depois das eleições legislativas de novembro, o presidente americano precisa de boas notícias, nem que para isso precise “engolir” algumas de suas convicções passadas.

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Na Arábia Saudita, chamada por ele de “Estado pária” em 2019 por causa das acusações que pesam sobre o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, Biden tentará conseguir novos compromissos para aumentar a oferta de petróleo no mercado global e potencialmente derrubar os preços dos combustíveis nos EUA. Em Israel, chegará a um país prestes a enfrentar as urnas pela quinta vez em três anos, e onde o favorito, o ex-premier Benjamin Netanyahu, é um antigo desafeto.

Em sua estadia em Israel, o presidente americano será recebido pelo premier interino, o centrista Yair Lapid, também em campanha para se manter no cargo e em busca de uma agenda positiva. Nos discursos, Biden deve ressaltar seu longo compromisso com o país, um tema sempre bem recebido pelo público americano.

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— Inicialmente, essa viagem ao Oriente Médio seria apenas para Israel, como forma de mostrar as credenciais pró-Israel do governo, e também como forma de ressaltar esse papel antes das eleições de novembro — afirmou Martin Indyk, ex-embaixador dos EUA em Israel e ex-enviado especial para o Oriente Médio, em debate no centro de estudos Conselho de Relações Exteriores (CFR), de Washington.

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Biden pretende se reunir com o enfraquecido presidente palestino, Mahmoud Abbas, em Belém, na Cisjordânia, e fazer uma visita a um hospital em Jerusalém Oriental, ambos territórios ocupados pelos israelenses desde 1967, após a Guerra dos Seis Dias. Segundo o site Axios, ele deve anunciar um pacote de ajuda de US$ 100 milhões para hospitais palestinos.

Por outro lado, não são esperados movimentos pela retomada do processo de paz entre palestinos e israelenses, parado desde 2014. Na terça-feira, o embaixador americano em Israel, Thomas Nides, afirmou que “dará um soco na mesa” para que sejam feitas concessões aos palestinos, mas esclareceu que falava apenas de benefícios econômicos.

— Não acho que Biden esteja tentando conduzir uma determinada ação ou decisão dos israelenses no campo político. Nesta etapa, quando não há negociações, se trata mais de manter a ideia da solução de dois Estados [um palestino e um israelense] para um momento posterior — disse, à CNN, o ex-embaixador americano em Israel Dan Shapiro.

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A agenda inclui um encontro com Netanyahu, que humilhou Biden antes de uma visita a Israel, quando ele era vice de Barack Obama, em 2010. Na véspera da chegada, Netanyahu anunciou a construção de 1.600 casas em assentamentos em Jerusalém Oriental, um movimento que irritou Washington.

— Não é segredo que Biden e seus assessores não gostam de Netanyahu, mas no passado tentativas americanas de interferir no processo eleitoral israelense não deram certo — disse Indyk, sugerindo que a Casa Branca busca passar uma imagem de neutralidade.

Novo contexto

A viagem de Biden ao Oriente Médio marca um desvio em uma política externa que, inicialmente, pôs a região em segundo plano, passando a dar maior destaque à competição com a China. Mas as mudanças no cenário global obrigaram a Casa Branca a rever algumas posições, a começar pelo petróleo.

A invasão russa da Ucrânia estrangulou ainda mais um mercado que já enfrentava problemas de oferta. Embora os EUA não sejam mais tão dependentes do petróleo do Oriente Médio, as sanções ao petróleo russo acentuaram o aumento global dos preços. A gasolina em alta ajudou na queda dos índices de aprovação de Biden.

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Biden vem dizendo que o petróleo não é a razão principal de sua viagem à Arábia Saudita, que começa na sexta-feira: em artigo no Washington Post, afirmou que vai priorizar a diplomacia, reforçando a ideia de que os EUA não abandonaram o Oriente Médio, e que estão dispostos a conter iniciativas chinesas e russas de ampliar a presença na região.

“Gostem ou não, a Arábia Saudita continua sendo o segundo maior produtor de petróleo, e um ator central na economia global, ainda mais agora, que a guerra na Ucrânia ajudou a elevar os preços de energia”, escreveu, na revista The Atlantic, Andrew Exum, que integrou o Pentágono como assessor para políticas do Oriente Médio no governo Obama.

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Em termos práticos, não há sinais de que os sauditas ou as demais monarquias do Golfo Pérsico estejam dispostos a aumentar suas produções em curto prazo, ou se teriam capacidade para fazer alguma diferença no mercado internacional.

— Biden precisa que os preços da gasolina caiam de maneira significativa em casa, mas os sauditas não têm a capacidade ociosa para tal — disse ao GLOBO Bruce Riedel, diretor do Projeto de Inteligência do centro de estudos Brookings.

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Para ele, uma ação mais eficaz passaria pela retomada do acordo sobre o programa nuclear do Irã, rasgado por Donald Trump em 2018 e substituído por uma política de sanções que barrou as exportações de petróleo iranianas. Hoje, as negociações estão paralisadas, e o risco de o plano naufragar é grande. Ao mesmo tempo, as nações do Golfo e Israel criticam o que veem como ações agressivas de Teerã na região, citando o apoio de Teerã aos houthis no Iêmen, a milícias na Síria e Iraque e ataques contra embarcações comerciais.

Uma das propostas que devem estar à mesa nas reuniões de Biden com líderes árabes em Jedá é um plano para integrar os sistemas de defesa regionais, sob liderança dos EUA, para reagir de forma coordenada a ataques do Irã. O modelo começou a ser discutido no ano passado, mas os detalhes ainda não estão claros. Para analistas, Biden não deve se comprometer com um sistema no qual os EUA precisem intervir em um eventual conflito com os iranianos.

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Outro ponto em aberto é a aproximação entre Arábia Saudita e Israel, um processo iniciado por Trump e que se assemelha à normalização de laços entre israelenses com países como Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Marrocos. Em um movimento simbólico, Biden será o primeiro líder americano a voar diretamente de Tel Aviv a Jedá, mas provavelmente não retornará a Washington com algum acordo, como adiantaram representantes dos dois países.

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Mas o presidente não escapou de críticas pela decisão de se encontrar o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, confirmada pouco antes do embarque. Segundo um relatório de inteligência dos EUA, liberado em 2021, Bin Salmon aprovou a execução do jornalista Jamal Khashoggi dentro do consulado saudita em Istambul, em 2018.

Em 2019, Biden disse que tornaria a monarquia saudita um "Estado pária", e vinha deixando os laços com Riad em segundo plano, pelo menos até agora — em seu artigo no Washington Post, no sábado, afirmou que buscará "uma reorientação, não uma ruptura".

— O governo Biden não forneceu uma razão convincente para a viagem à Arábia Saudita. E isso reflete o fato de que a viagem é realmente desnecessária — disse Riedel. — A visita vai fortalecer a posição do príncipe herdeiro, e de fato ele saiu impune de um assassinato.

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