Em exposição na Mul.ti.plo, Waltercio Caldas mostra 14 obras inéditas criadas na pandemia

Com a rotina de trabalho concentrada em sua casa no Cosme Velho, onde também fica seu ateliê, Waltercio Caldas manteve-se ainda mais imerso em sua produção durante a pandemia. Datam dos dois últimos anos as 14 obras inéditas que o carioca de 75 anos expõe na galeria Mul.ti.plo, no Leblon, até 2 de dezembro, na individual “Livros espelhos consequências”.

Uma das marcas de sua produção, as obras fogem a uma definição de técnicas ou suportes, transitando entre a linha riscada no plano e a forma escultórica, com cinco desenhos tridimensionais, nove objetos e uma publicação de notas extraídas de sua caderneta de trabalho. O título propõe releituras dos objetos e suas funcionalidades, em livros sem palavras ou páginas e espelhos de reflexo opaco.

— O isolamento potencializou a introspecção. Ajuda muito poder trabalhar ao lado de casa, e, com todos os outros compromissos suspensos, acabei ficando menos disperso — relembra Waltercio. —Essa relação intrínseca entre vida e obra para mim sempre foi muito normal. Na realidade, sempre que alguém questiona se a arte deve estar separada da vida, eu pergunto: “Mas quem foi que separou as duas”?

A mostra é a terceira do artista na galeria desde 2012, quando apresentou um conjunto de múltiplos, e depois em 2017, com uma seleção relacionada ao desenho. De volta cinco anos depois, Waltercio vê uma relação entre as obras apresentadas anteriormente e a produção recente, numa linha do tempo em que o processo de trabalho e os resultados ganham pesos equivalentes. Não por acaso, a publicação com as etapas de trabalho de sua caderneta, intitulada “Consequências”, ganha status de obra.

— É como se o trabalho não parasse nunca. Ele não para quando estou fazendo uma obra, uma exposição ou um catálogo. Também não para quando esse catálogo está pronto, e é visto como um objeto independente, em relação à própria exposição a que ele pertencia — observa . — Sou um leitor aplicado do (argentino Jorge Luis) Borges. Esses livros surgem como se fossem máquinas, e não conheço uma máquina mais complexa do que uma biblioteca. E, da mesma forma, sempre me pareceu que um grande desafio seria construir um espelho baseado apenas em informações arbitrárias, que retratam um ponto central da arte: a expectativa que temos da nossa própria imagem.

Para Waltercio, a autonomia reivindicada pelas obras fazem com que a exposição possa prescindir de um tema, com a relação entre os objetos também se constituindo como uma das partes do trabalho.

— Para mim, mais que ter um tema ou uma proposta, uma exposição é uma configuração poética. O título da mostra reforça isso, com “livros”, “espelhos” e “consequências” escritos sem vírgula entre as palavras, para mostrar a autonomia de cada uma dessas partes — destaca o artista. — É muito difícil encontrar uma palavra adequada para certos trabalhos, que não são exatamente objetos, ou esculturas, ou desenhos, ou pinturas. Talvez meu trabalho esteja exatamente nessa limitação de tentar traduzir aquelas expressões para outras linguagens. Daí vem a minha dificuldade de explicar os trabalhos, eles precisam “falar” a língua deles através das matérias que eu preferi usar.

Ano que vem, a primeira individual de Waltercio, realizada no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, realizada em 1973, completa 50 anos. Por ora, o artista conta que não trabalha em nenhum projeto específico para celebrar a marca.

— Acho que essa iniciativa deveria partir de uma instituição, já que um de seus focos é a preservação da nossa arte e sua história. É engraçado porque me parece que tenho uma produção que é conhecida e desconhecia ao mesmo tempo. Conhecida por ter obras em vários museus e coleções, participando de exposições importantes ao longo deste período. E desconhecida por ter uma parte dessa produção que raramente é mostrada, que acaba negligenciada nas seleções — entende o artista. — Eu tentei, desde o início da minha carreira, criar uma assinatura que não fosse evidente, sem se expressar por uma por uma repetição de procedimentos. Isso pode até criar dificuldades, mas é uma liberdade que sempre busquei.

Onde: Mul.ti.plo Espaço Arte. Rua Dias Ferreira 417/206, Leblon (2294-8284). Quando: Seg a sex, das 11h às 18h. Sáb, sob agendamento. Até 2 de dezembro. Quanto: Grátis.