Em filme e no teatro, Cinderela ganha nova roupagem para dialogar com debates sobre representatividade e igualdade de gênero

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A Gata Borralheira não é mais a mesma. Com um novo filme e dois espetáculos teatrais em cartaz em Londres e São Paulo, Cinderela ganha roupagem contemporânea para conquistar um público que pede empoderamento feminino e representatividade. Mas, diante do longo histórico de representações da personagem como uma jovem linda, mal tratada pela madrasta e que só encontra a felicidade nos braços do príncipe encantado, não custa perguntar: afinal, a protagonista é uma mocinha indefesa ou uma potencial feminista?

Lançamento recente da Amazon Prime, “Cinderella Movie” marca a estreia de Camila Cabello, ex-integrante do grupo Fifth Harmony, como atriz. Além de ter protagonista de origem cubana, o filme traz Billy Porter (da série "Pose")como Fab G, a fada madrinha negra que transcende o binarismo de gênero e rouba a cena com salto agulha e vestido de gala.

Em meio à luta crescente por igualdade, Kay Cannon, roteirista e diretora do longa, escreve personagens femininas determinadas e estratégicas, incluindo a madrasta, em busca da felicidade apesar das pressões sociais. A própria Cinderela põe em xeque seu relacionamento com o príncipe pelo sonho de ser estilista e dona do próprio negócio.

— Cinderela é forte e rebelde, representa uma pessoa que não se deixa abater, que ultrapassa obstáculos e tem coragem de ir adiante. É essa rebeldia que as versões mais modernas captam e reforçam com enredos voltados para o nosso tempo — defende Karin Volobuef, professora da pós-graduação em Estudos Literários da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Essa visão é compartilhada pela psicanalista Diana Corso, para quem Cinderela é uma mulher em busca de seus direitos:

— Em todas as versões, ela luta contra a madrasta e as irmãs que lhe retiraram os direitos de filha após a morte do pai. Cinderela busca seu lugar no mundo, que, no caso, equivale ao baile da Corte. Evidentemente, ela ainda espera um homem, como tem ocorrido com as mulheres desde o início do milenar reinado do patriarcado — aponta a autora do livro “Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis”.

Nos palcos, a personagem também levanta novas bandeiras. Em Londres, “Cinderella”, musical de Andrew Lloyd Webber com texto de Emerald Fennell (vencedora do Oscar 2021 de melhor roteiro por “Bela vingança”), aposta em uma reflexão feminista com humor. Em uma cidade onde todos querem alcançar a perfeição, a única que se recusa a viver no conto de fadas é a autoconfiante e gótica “Bad Cinderela”.

Já em “Cinderela, o musical”, versão de Charles Möeller e Cláudio Botelho para espetáculo da Broadway com música de Rodgers & Hammerstein — em cartaz no Teatro Liberdade, em São Paulo, até 31 de outubro —, a personagem quer encontrar o príncipe para salvar o reino de um desastre político.

— Cinderela sempre ganha novas camadas, principalmente com a evolução do papel da mulher na sociedade. Sempre dá vontade de ver o que fizeram com a personagem e como se relaciona com o que estamos vivendo — diz Möeller.

A história de Cinderela é antiga e remete a um conto folclórico, transmitido oralmente. Uma das versões escritas mais antigas foi registrada na China, no século IX, e provavelmente chegou à Europa através das mulheres que trabalhavam na Rota da Seda. A personagem se popularizou através dos tempos por meio de adaptações feitas por autores homens, que se desfizeram do potencial feminista de Cinderela.

O texto mais conhecido é assinado pelo francês Charles Perrault e data de 1697. Foi este que inspirou inúmeras versões para o cinema, incluindo “Cendrillon” (1899), filme de seis minutos do pioneiro Georges Méliès; “Betty Boop em pobre Cinderela”(1934), primeira animação em cores da personagem; a versão da União Soviética stalinista “Zoloushka” (1947); o clássico “Cinderela” (1950) de Walt Disney; o live-action “Cinderella” (2015), com Lily James; e até mesmo a versão brasileira, “Cinderela Baiana” (1998), com Carla Perez no papel principal. Carla, aliás, usou o Twitter para reivindicar o posto de primeira Cinderela latina depois que Camila Cabello declarou-se honrada pelo posto.

A narrativa, que conhecemos tão bem, é marcada pela dominação masculina. O pai de Cinderela, ainda vivo, descuida da filha de seu primeiro casamento, aceitando que ela seja escravizada e excluída. Sem a tutela parental, a jovem é privada de um dote e, afinal, de seu lugar social. É neste momento que o príncipe aparece para devolvê-la a seu papel de “escolhida”.

Diana Corso lembra que ser a “escolhida” em meio a uma massa de “outras” faz parte da fantasia conhecida como “cinderelismo”, uma tradição ficcional feminina que está presente até nos improváveis “Crepúsculo” (2008) e “50 Tons de Cinza” (2015). Dessa forma, a rivalidade feminina ganha dimensões importantes, como acontece com a madrasta invejosa, que quer eliminar a enteada a qualquer custo.

— A madrasta carrega todos os preconceitos dedicados às mulheres maduras, consideradas sempre perigosas. Já a disputa entre as irmãs retrata a ausência de sororidade que sempre se esperou do nosso gênero. São recentes e bem-vindas as histórias de alianças, apoio e inspiração mútua entre as mulheres— afirma Corso, para quem Cinderela sobrevive aos séculos se moldando pela subjetividade de cada época, mas mantendo um núcleo comum.

Será então que vai sucumbir à atual onda feminista?

— Creio que tomará o desejável rumo da sua categoria, que é ser liberta, guerreira e, enfim, o que ela quiser ser — conclui a pesquisadora.

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