Em Frankfurt, jornalista exilado lança livro sobre liberdade de expressão

MAURÍCIO MEIRELES

ENVIADO ESPECIAL A FRANKFURT, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - A liberdade de expressão na Turquia -ou melhor, a falta dela- continua uma tema central na Feira do Livro de Frankfurt, como já havia sido na edição anterior.

Um dos destaques desta vez é o escritor e jornalista Can Dündar, que vive no exílio em Berlim há 13 meses. Ele, que divulga o livro "Von Istanbul nach Berlin" (de Istambul a Berlim) foi recebido no espaço da revista alemã "Der Spiegel".

"Estamos esperando há mais de 60 anos para ser membro da União Europeia. Se a Turquia tivesse entrado, não haveria um governo como o [do presidente Recep Tayyip] Erdogan. Teria sido uma prova de que a União Europeia não é um clube cristão", disse ele.

Dündar criticou ainda o que considera uma posta ambígua da Alemanha em relação ao regime turco -e que Berlim cede às chantagens do governo.

"De um lado, a Alemanha critica, mas as grandes empresas alemãs continuam fazendo comércio com a Turquia, vendendo armas por exemplo. É difícil explicar que estão alimentando um regime islamo-fascista", afirmou.

Dündar criticou o fato de, segundo ele, haver instituições internacionais a servir de apoio ao regime, como a Interpol, que prende intelectuais apontados por Ankara como criminosos.

"Não entendo como essa instituição pode ser usada por ele. A Interpol precisa separar os criminosos comuns dos pensadores e escritores."

Ele acrescentou ainda que o fato de seu país não ter entrado para a União Europeia permitiu a Erdogan se alinhar ao mundo islâmico.

"Nos anos 1960, a Turquia era mais democrática que a Ucrânia ou a Polônia hoje. Perdemos a chance. Quem acreditava nos princípios ocidentais ficou enfraquecido. Aí Erdogan diz: 'não nos querem porque somos muçulmanos'. E a Turquia era o exemplo de que islamismo e democracia podem conviver."

EXÍLIO

Dündar vive em Berlim há 13 meses, desde o golpe de Estado frustrado em seu país. Ele, que já havia sido preso com mais de 20 colegas de seu jornal, em 2016, por publicar uma reportagem mostrando como o governo vendia armas para terroristas na Síria, estava em Barcelona e foi aconselhado a não voltar ao país.

O autor diz que evita circular muito, porque Ankara incita a comunidade turca na Alemanha contra ele. Dündar lembrou que, no dia do julgamento que o libertou, na Suprema Corte turca, um atirador tentou cometer um atentado contra ele -e só não conseguiu porque sua mulher pulou em cima do criminoso e tomou sua arma.

"Ela foi muito corajosa. Ele queria ser um herói aos olhos de Erdogan."

O jornalista acusa Erdogan de manter sua mulher como refém no país. Ela já teria tentado vir à Alemanha, mas teve seu passaporte confiscado no aeroporto. Quatro colegas dele envolvidos na reportagem que desagradou o governo ainda estão presos.

"É engraçado dizer, mas eu era mais livre quando estava preso. Dentro da cadeia, não havia mais o medo de ser preso. Mas é difícil ser corajoso com família e amigos ameaçados. E, aqui, as mesquitas fazem propaganda do governo. Carreguei a minha cela comigo para cá."

Nesta quinta-feira (12), a Feira de Frankfurt receberá ainda Asli Erdogan -jornalista convidada ano passado, mas que não pode vir por estar presa. Na ocasião, ela enviou uma carta da cadeia para ser lida no evento editorial.