Em grampos, ladrões de carro negociam com o tráfico espaço em favela para desmanche de veículos

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RIO - “Está usando a serra aí? Mais tarde, separa para mim que vou precisar cortar um negócio desse Honda que chegou”. “Tempo está bom para fazer corte, mas tem que ter as ferramentas”. “Estou aqui na rotatória, vamos usar (a serra) para cortar o teto do Vectra”. Interceptadas pela Polícia Civil, com autorização judicial, conversas como essas detalham a atuação de quadrilhas especializadas em receber, desmanchar, clonar e revender carros roubados na Região Metropolitana do Rio. Nos diálogos grampeados, os bandidos que são alvos de investigações da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) negociam valores, discutem locação de espaços para as atividades criminosas e ainda dividem suas funções. Ao longo deste ano, mais de cem receptadores foram presos pela especializada.

Segundo o delegado Márcio Braga, titular da DRFA, os inquéritos mostraram que os veículos roubados no Rio têm destino certo: são repassados a outros criminosos que atuam no desmanche e na clonagem. Dentro de favelas dominadas pelo tráfico de drogas ou pela milícia, há terrenos específicos para essas ações. “Pede para ver se tem vaga lá para colocar o Gol. Abriu um estacionamento novo lá no morro, parece que é até coberto”, avisou um desses bandidos, que atua no Engenho Pequeno, em São Gonçalo, em outro áudio gravado.

— Nosso foco tem sido sufocar as ações dos receptadores por eles representarem a ponta final do esquema que provoca toda a cadeia criminosa a partir da demanda. Então, atuamos com o monitoramento, por meio de interceptações telefônicas, parcerias com instituições como Detran e, ainda, integrados com outras forças de segurança para a troca de informações de inteligência. Todas as denúncias que chegam também são checadas pelos policiais em até 24 horas — explica Braga.

Os inquéritos mostram que, após entrarem nas comunidades, os carros são separados de acordo com encomendas previamente realizadas. Enquanto uma parte tem a carcaça completamente cortada e as peças enviadas a ferros-velhos, outra é clonada. Nesse segundo processo, são usados produtos químicos para retirar as numerações originais de chassis, motores e vidros, além de equipamentos sofisticados para marcar as novas informações, em processo semelhante ao das montadoras.

‘Trabalho’ segmentado

Em uma conversa interceptada, a remarcação é negociada por R$ 300, na comunidade Sete Pontes, em São Gonçalo. “Eu estava dependendo de arriar um motor de um (Renault) Kwid para a gente escrever, aquele três cilindros. Quanto você acha que dá para fazer? Qual o valor da sua mão de obra?”, questiona um dos integrantes da quadrilha. “Eu nunca arranquei essa p…”, diz o comparsa. “Vou te falar. É mais fácil do que o Sandero, porque não precisa arrancar o bico”.

O crime envolve divisão de tarefas. Há quadrilhas que fazem apenas os novos documentos e revendem os veículos roubados a preços abaixo do valor de mercado.

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) apontam que, nos últimos anos, os roubos de carros vêm caindo em todo o estado. Comparando os meses de outubro, por exemplo, em 2016 houve 4.181 casos e este ano, 1.885. Analisando a média de 2016 a 2020 e de 2021, a diminuição foi de 46,4%.

Diante das operações frequentes, as interceptações telefônicas mostram também a preocupação dos criminosos com a chegada de viaturas da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis.

“Estão aqui por baixo, hein. Já chegaram aqui na Coreia, o pessoal da DRFA. São três viaturas, uma grandona e dois Corollas. Estão aqui desde cedo, morador falou que são três carros cheios”, avisa um dos bandidos numa ligação gravada. “Qualquer coisa você me fala aí, então. Vou até me adiantar logo”, responde o comparsa.

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