Em guarani, Wera MC usa o hip hop para cantar a luta e resistência indígena

Por Paloma Vasconcelos e Sérgio Silva

“Essa terra aqui eu não invadi, voltei aqui pra retomar”. Essa é uma das rimas do novo álbum de Wera MC, 24 anos, rapper que une luta e resistência em seu som.

Já são 10 anos trazendo a luta dos 700 indígenas que habitam os 1,7 hectares demarcados no Pico do Jaraguá, na zona norte de SP. Uma terra, aliás, que traz em seu nome a quem pertence: os Guarani M’yba.

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“A gente sempre viveu de uma forma precária, de uma forma esquecida. Na minha infância tive muita época de fome, em que não tínhamos o que comer. A população foi crescendo e as pequenas hortas acabaram. Uma horta indígena deveria ter mais de 1 quilômetro”, relembra o rapper. Cria da aldeia Tekoa Pyau, Wera aprendeu desde cedo a importância de preservar os costumes Guarani, mesmo com a cultura do não indígena batendo em sua porta a todo instante, já que a aldeia fica no meio da cidade. “Se eu perder essa terra, eu não consigo me ver em outro lugar”, definiu Wera sobre o Jaraguá.

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Na verdade, sendo fiel à história, a cidade de São Paulo é que foi construída ao redor da Tekoa, como afirma Wera. A aproximação geográfica fez com que o hip hop entrasse em sua vida ainda na infância. Antes das rimas, o break foi o primeiro elemento do hip hop que ganhou o coração do artista.

Depois, inspirado nos Racionais MC’s e do RZO, ele começou a rimar. O estilo do trabalho de Wera é a trap, ritmo que mistura rap com batidas eletrônicas. “A gente se identificava muito com as questões que eles relatavam, falando das periferias, mas percebemos que eles não estavam falando dos indígenas, já que somos os oprimidos dos oprimidos”.

A produção do novo álbum de Wera aconteceu em meio a um embate difícil que os Guarani M’yba tem enfrentado nos últimos meses. Desde o final de janeiro de 2020, os indígenas tem brigado pela vida de centenas de árvores ameaçadas de serem derrubadas pela construtora Tenda, que pretende construir um empreendimento imobiliário a poucos metros da aldeia.

O clipe “Guardiões da Floresta“, aliás, primeira música de trabalho do álbum de Wera, conta a história dessa luta e foi gravada na ocupação que os Guarani fizeram no terreno, desocupado em março de 2020. Para montar o estúdio de gravação dentro da aldeia, Wera trabalhou em uma empresa na zona sul da cidade para juntar o dinheiro. A cada mês, ele comprava um material. Quando conseguiu tudo o que precisava, pediu demissão e começou a construir ele mesmo o seu espaço.

A relação com a cidade causa medo, conta Wera, principalmente depois da eleição do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a quem chama de fascista.

“Eles [povo não indígena] acreditam que a gente tem que viver só no mato. Muitas vezes ficamos incomodados de pegar transporte público e falar na nossa língua, porque muita gente fica olhando como se fosse algo de outro mundo, ficam bravos, nos xingam. Mas quando ouvem alguém falando em inglês querem se aproximar”, critica.