Em Halabja, no Iraque, ainda se espera por justiça 33 anos após ataque químico

Shwan MUHAMMAD
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Hawker Saber usa um respirador 20 horas por dia. Trinta e três anos após o ataque químico perpetrado pelo regime de Saddam Hussein, esse curdo continua sofrendo, assim como toda a cidade iraquiana de Halabja, onde as pessoas continuam pedindo por justiça.

Hawker tinha apenas três anos na época, mas guarda lembranças do terrível 16 de março de 1988. Naquele dia, durante cinco horas, a aviação iraquiana lançou uma mistura de gases de combate - incluindo mostarda - sobre homens, mulheres, crianças, casas e fazendas, de acordo com especialistas.

Já que os peshmerga, combatentes curdos, apoiaram o exército iraniano na guerra contra o Iraque, cerca de 5.000 curdos-iraquianos, em sua maioria mulheres e crianças, foram mortos no mais sangrento ataque com gás contra civis.

Muitos morreram naquele dia, mas o restante dos habitantes de Halabja - atualmente 200.000 - parecem nunca ter encerrado aquele dia de desgraça.

"Ainda há 486 doentes graves por causa do ataque químico a Halabja", situada menos de 250 km a nordeste de Bagdá, como conta à AFP Loqman Abdelqader, presidente da Associação das Vítimas do ataque.

"Eles têm dificuldades respiratórias e problemas visuais", acrescenta o curdo, que perdeu seis parentes no ataque.

- "Ninguém cumpriu com a palavra" -

"Nem as autoridades federais, nem as curdas no Iraque criaram um programa de atendimento para salvá-los", acusa Abdelqader.

Até a chegada da pandemia da covid-19, era o Irã que a cada ano assumia o atendimento de vários pacientes, mas sempre com uma proposta a conta-gotas.

Além dos doentes, em Halabja há outra questão delicada não resolvida: a das crianças que foram oficialmente transferidas para um lugar seguro no Irã, a menos de dez quilômetros dali.

Trinta e três anos depois, "142 crianças ainda estão desaparecidas", explica à AFP Ayad Arass, responsável pela Comissão de Proteção à Criança no local.

Suiba Mohamed pede justiça para todos esses crimes. Este curdo, de 60 anos, foi até Bagdá em 2006 para testemunhar contra o primo e cúmplice de Saddam Hussein, o general Ali Hassan al Majid, o famoso "Ali, o químico".

Quatro anos depois, "Ali, o químico" foi enforcado, principalmente por causa do massacre de Halabja - que ele justificou como uma necessidade da guerra contra o Irã - mas a vida de Suiba, que perdeu cinco de seus filhos, assim como a própria visão, não mudou.

"Durante anos, as autoridades prometeram me enviar ao exterior para fazer uma cirurgia e, finalmente, ver os rostos dos meus filhos ainda vivos", relata à AFP.

"Mas ninguém cumpriu com a palavra", ressalta entre soluços.

- Cúmplices europeus? -

Quanto a Saddam Hussein, condenado à morte pelo massacre de 148 aldeões xiitas, foi enforcado no final de 2006. Isso encerrou o julgamento contra ele por "genocídio" pela morte de cerca de 180.000 curdos, incluindo 5.000 de Halabja, símbolo de sua "campanha de Anfal" (1987-1988).

Sendo impossível forçar o ditador a se responsabilizar perante a lei por este massacre, Halabja agora tenta tirar seus cúmplices das sombras.

Em 13 de março de 2018, 5.500 parentes das vítimas processaram 25 empresas e indivíduos europeus e iraquianos que teriam ajudado o regime de Hussein a desenvolver seu arsenal químico, informou um de seus advogados, Ayad Ismail, à AFP.

"Já foram oito audiências e a próxima será em junho", explica o advogado, e "as empresas mencionadas serão convocadas, que pediram para consultar as provas".

Porém, para Abdelqader, o tempo está se esgotando.

Desde a queda de Saddam Hussein, em 2003, "116 sobreviventes do ataque morreram", logo, há muito menos testemunhas na cidade mártir.

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