Em Hong Kong, Xi diz que cidade deve ser governada apenas por 'patriotas'

O presidente da China, Xi Jinping, disse nesta quinta-feira que o poder em Hong Kong “deve ser administrado exclusivamente por patriotas”, ao marcar o 25º aniversário da devolução da cidade pelo Reino Unido, do qual foi colônia por 156 anos. Em seu segundo e último dia, a visita ressalta o acirramento do controle chinês sobre o território, pondo fim na prática a boa parte da autonomia que havia sido acordada em 1997.

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Xi participou da cerimônia de posse do novo chefe do Executivo da cidade, John Lee, que era o responsável pela polícia local durante a dura repressão aos protestos antigoverno que tomaram as ruas durante todo o segundo semestre de 2019. O presidente, que saiu da China continental pela primeira vez desde o início da pandemia, foi claro:

— O poder político deve ser administrado exclusivamente por patriotas. Nenhum outro lugar ou país no mundo permitiria que aqueles que não são patriotas, até mesmo aqueles que cometem traição, assumissem as rédeas de seus governos — disse ele. — Hong Kong e Macau devem poder manter seus sistemas capitalistas por um longo período, com grande nível de autonomia. Mas todos os cidadãos de Hong Kong devem também ser capazes de respeitar e salvaguardar o sistema socialista fundamental da nação.

Críticos, contudo, afirmam que Pequim sacramentou o fim da autonomia política, administrativa e judicial da cidade garantida pela Lei Básica, a miniconstituição firmada quando o território foi devolvido e que deveria valer por 50 anos. Aquele que é considerado o golpe derradeiro contra o modelo conhecido como "um país, dois sistemas" veio na forma da Lei de Segurança Nacional.

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A medida, imposta por Pequim em junho de 2020, prevê punições que chegam à prisão perpétua para atos tipificados como subversão, secessão, conluio com forças estrangeiras e terrorismo. A detenção de dezenas de ativistas e manifestantes — alguns deles condenados já sob a legislação de dois anos atrás — e o veto à participação de críticos nas eleições locais, por meio de uma reforma eleitoral em 2021, fizeram com que praticamente todos os líderes da oposição estão na cadeia ou no exterior.

O discurso de Xi teve como tema central o sucesso da sua política linha-dura, que foi além da implementada por seus antecessores desde a devolução. Em outubro, no Congresso do Partido Comunista da China, ele deve ser nomeado para um terceiro mandato, consolidando-se como o líder chinês mais poderoso desde Mao Tsé-tung.

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Segundo o mandatário, o modelo "um país, dois sistemas" só é bem-sucedido sob a "jurisdição abrangente" de Pequim e não há "motivo para mudá-lo" no momento em que "Hong Kong entra em uma nova fase". A cidade, disse ele, está "fazendo a transição do caos para a governança, em direção à transição da governança para a prosperidade":

— Após vivenciar vento e chuva, todos sentiram dolorosamente que Hong Kong não pode ser caótica. Não deve ser novamente caótica — disse o presidente, em seu primeiro grande discurso na cidade desde 2017, quando disse pela primeira vez que quaisquer ameaças à soberania chinesa "nunca seriam permitidas". — O desenvolvimento de Hong Kong não deve ser adiado novamente, e qualquer interferência deve ser eliminada.

Economia no centro

Em seu primeiro discurso como o novo chefe do Executivo, substituindo Carrie Lam, Lee disse que a cidade pôde superar a "interferência de forças estrangeiras em assuntos internos de Hong Kong que ameaçam a segurança nacional do país". Segundo ele, "com forte apoio do governo central", a cidade "poderá recomeçar":

— Os próximos cinco anos serão um período crucial para Hong Kong progredir, da governança à prosperidade. O governo vai seguir adiante para superar desafios de forma pragmática (...) e adotar uma política focada nos resultados para resolver os problemas — afirmou Lee, que nos últimos meses era o número dois de Lam.

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Tal qual Xi, que prometeu "apoiar o status de centro financeiro" global da cidade, Lee também expressou seu compromisso com a economia. Nenhum dos dois, no entanto, fez anúncios maiores sobre novas políticas ou iniciativas para o território.

— O governo central minou a autonomia em Hong Kong. Ela não desapareceu completamente, mas foi reduzida. — disse ao Financial Times John P. Burns, professor emérito de política na Universidade de Hong Kong. — Xi deseja basicamente que o status [de centro] financeiro da cidade continue (...). Os negócios gostam de segurança, desde que estejam livres para fazer o que quiserem com o dinheiro.

Visita curta

A visita de Xi nesta sexta foi relativamente curta, após pernoitar na vizinha Shenzhen e cruzar a fronteira para a posse de Lee, segundo o FT. A decisão foi motivada pelas preocupações do governo central com o aumento dos casos de Covid em Hong Kong, que está sob quarentena, além de temores com a segurança, apesar do policiamento reforçado.

Xi, por exemplo, não participou da tradicional cerimônia de hasteamento da bandeira ao lado de Lee e Lam. Ao todo, passou menos de 10 horas na cidade ao longo de dois dias, mas ainda assim foi recebido com toda a pompa. As ruas, por sua vez, estavam vazias, sem os manifestantes que tradicionalmente protestavam todo dia 1º de julho.

Ao menos 10 jornalistas de veículos locais e da imprensa internacional foram banidos da cerimônia desta sexta, devido a “preocupações com segurança”, segundo a Associação de Jornalistas de Hong Kong. Comentando o aniversário da devolução, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, criticou as autoridades chinesas por ignorarem “a participação democrática e liberdades fundamentais”.

“Há 25 anos, fizemos uma promessa para o território e seu povo e pretendemos mantê-la”, disse Boris Johnson, o premier britânico, em comunicado. “Faremos o possível para que a China cumpra seus compromissos, para que Hong Kong possa novamente ser governada pelo povo de Hong Kong e para o povo de Hong Kong. (Com Bloomberg e AFP)

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