Em início de CPI, Planalto defende submersão de Pazuello e narrativa de escassez de vacinas

GUSTAVO URIBE E RICARDO DELLA COLETTA E JOÃO PEDRO PITOMBO
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Com receio de um aumento ainda maior de sua rejeição e dos impactos disso sobre suas chances de reeleição, o presidente Jair Bolsonaro escalou integrantes da equipe ministerial e montou gabinete de inteligência para blindar a gestão federal na CPI da Covid. Apesar de repetir em público que não se preocupa com a instalação da comissão, Bolsonaro tem manifestado, em caráter reservado, irritação com a possibilidade de uma devassa em contratos do governo e de que auxiliares presidenciais sejam, posteriormente, investigados pelo Ministério Público. Ao mesmo tempo, o Planalto quer discrição por parte do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, e um dos principais focos da CPI. Além de nos últimos dias ter atuado pessoalmente no diálogo com senadores independentes, o presidente montou, no Planalto, um gabinete de inteligência cujo objetivo, segundo assessores, é tanto produzir material para municiar a base aliada como preparar para depoimentos integrantes do governo que forem convocados. O bunker palaciano é coordenado pelo ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, e deve ter a colaboração de ministros como Marcelo Queiroga (Saúde), Fábio Faria (Comunicações), Flávia Arruda (Secretaria de Governo) e Onyx Lorenzoni (Secretaria-Geral). No fim de semana, integrantes do governo já começaram a esboçar a retórica adotada pela tropa de choque nos primeiros dias da CPI da Covid. O presidente tem quatro senadores governistas contra sete independentes ou oposicionistas. A falta de vacinas para imunizar a população foi identificada pelo Planalto como uma das primeiras críticas que devem ser exploradas contra o Ministério da Saúde na comissão. Para responder a ela, o discurso elaborado é que a escassez de insumos e imunizantes é um problema mundial, não só do Brasil. Para se defender no caso de mudanças recorrentes no calendário de imunização e atraso na chegada de vacinas, a estratégia será apresentar dados gerais, sobretudo dos países do G20, para argumentar que o Brasil está na frente de outras nações em números absolutos de imunizados. Para responder à acusação de que foi irresponsável ao recusar em 2020 três ofertas de compra de vacinas da Pfizer, o argumento é que não poderiam comprar um imunizante sem aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A tropa de choque do Planalto foi instruída a argumentar que adquirir o imunizante sem aval da agência seria irresponsabilidade. As lentas negociações com a farmacêutica americana são consideradas pelo Planalto como um potencial flanco de pressão. O governo brasileiro rejeitou proposta da Pfizer que previa 70 milhões de doses de vacinas até dezembro de 2021. Três milhões estavam previstos até fevereiro. O contrato com a empresa --de 100 milhões de doses-- só foi assinado em março. Uma entrevista do ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten à revista Veja renovou o interesse de oposicionistas sobre as conversas com a Pfizer. Wajngarten disse que a compra do ano passado não ocorreu por "incompetência e ineficiência" por parte de Pazuello. A Casa Civil enviou para pastas ministeriais questões que podem ser feitas a integrantes do governo, solicitando sugestões. A ideia é elaborar uma cartilha para ser distribuída para senadores e deputados governistas. Segundo assessores presidenciais, o conteúdo também deve ser explorados nas redes sociais do Executivo. A articulação política também solicitou de maneira informal ao Ministério da Saúde que realize um pente-fino nos principais contratos envolvidos no combate à pandemia para afastar eventuais indícios de irregularidades. Um assessor da Saúde lembra que, durante comissões de inquérito, é comum que servidores públicos que ingressaram em governos passados repassem cópias de contratos para deputados de oposição que possam prejudicar a atual gestão. Apesar de a CPI da Covid ter sido proposta com o objetivo de investigar o colapso de saúde em Manaus, a aposta do governo é que o assunto seja explorado só num segundo momento. Segundo relato feito à reportagem, nesta segunda-feira (26) um interlocutor do presidente contatou Eduardo Pazuello. A ligação foi para recomendar que ele evite exposição desnecessária. Causou irritação no Palácio do Planalto vídeo do general da ativa passeando no domingo (25) em um shopping center sem máscara. Para membros da cúpula militar, as imagens podem ser interpretadas por integrantes da CPI como uma provocação. O melhor, neste momento, é a submersão do militar para evitar comprometer ainda mais a imagem do governo. O presidente avalia acelerar a nomeação de Pazuello para um cargo na Secretaria-Geral da Presidência da República. O objetivo é mantê-lo sob o controle da Presidência e também começar a prepará-lo para depor. A orientação do presidente tem sido defender a condução da crise sanitária pelo ex-ministro. Na Esplanada dos Ministérios, no entanto, há auxiliares do governo que não descartam a possibilidade de Bolsonaro abandonar o general caso as acusações contra o militar evoluam para uma investigação contra o próprio presidente. Nesse caso, resume um aliado do governo, Pazuello pode se transformar em bode expiatório.