Em livro, Deltan diz que repercussão de Power Point o "pegou de surpresa"

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - "Imagens, linhas e quadros" para simplificar "esquemas complexos que, de outra forma, seriam de difícil compreensão".

Era o que o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, o procurador Deltan Dallagnol, aspirava ao preparar apresentações no Power Point sobre a investigação. Fez várias delas.

A técnica sempre dava certo. Até o dia em que decidiu aplicá-la para explicar a denúncia contra o ex-presidente Lula.

"A estratégia foi repetida com sucesso em várias coletivas" de imprensa, sempre com uma "excelente" resposta dos jornalistas, conta Dallagnol em "A Luta Contra a Corrupção", livro sobre a Lava Jato que lança nesta quarta (26), em Curitiba.

A "repercussão negativa e imediata" para o gráfico para Lula, alvo de achincalhações mil nas redes sociais, "nos pegou de surpresa", escreve.

No quadro, o nome do petista aparece num círculo central. Com palavras como "mensalão" e "perpetuação criminosa no poder", 14 círculos o rodeiam –setas apontam para o suposto maestro de um megaesquema de corrupção.

Como nas apresentações anteriores, acreditou estar sendo didático. "Se a sociedade tinha o direito de saber, nossa obrigação era fazer o melhor para explicar os sofisticados esquemas criminosos de modo que todos pudessem assimilar."

Produziu o primeiro Power Point em 2014. "Quase dois anos depois, na ocasião da segunda denúncia de Lula, como era de praxe, acertamos que faríamos a apresentação das acusações nos mesmos moldes."

Ainda mais espantoso do que a má reação, segundo Dallagnol, foi uma frase a ele atribuída -mas que jamais saiu da sua boca: "Não temos prova, mas temos convicção".

Juntaram frases diferentes dele e de um colega e, sem qualquer contexto, montaram esse "Frankenstein", diz.

A coletiva de setembro de 2016, aos olhos dos críticos à Lava Jato, "teria sido, então, um espetáculo midiático voltado à desmoralização da figura política do ex-presidente".

Dallagnol discorda da tese, mas reconhece que "o próprio ministro Teori Zavascki [morto quatro meses depois] criticou a 'espetacularização' da denúncia, com lastro na mesma premissa de que o papel de Lula supostamente foi descrito de modo desnecessário como líder de toda a organização criminosa".

A LUTA CONTRA A CORRUPÇÃO

AUTOR Deltan Dallagnol

EDITORA Sextante

QUANTO R$39,90 (320 págs.)