Em livro, documentarista busca raízes judaicas na Amazônia

Em meio a tantas notícias vindas da Amazônia, como o recente assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, chega às livrarias “Hakitia — Amazônia hebraica”, do mineiro Felipe Goifman. O volume faz parte de um extenso projeto do documentarista em busca das ramificações da cultura judaica no Brasil. Nos últimos anos, ele já produziu obras retratando os grupos religiosos em Pernambuco e Rio, além de filmes “Marranos do sertão” e “Amazônia hebraica: O rio dos Cohen”. Outros virão.

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Com quase 200 fotos, o registro visual tem o apoio de textos sobre a presença dos judeus na região amazônica, que se intensificou a partir do século XIX, mas foi iniciada bem antes. No fim das contas, é uma grande e sempre bem-vinda aula de História.

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Inquisição

O Brasil nem tinha nascido quando, em 1492, os reis católicos da Espanha determinaram a expulsão dos judeus da Península Ibérica — os sefaraditas. Quem ficou por lá teve que se converter ao catolicismo — pelo menos nas aparências. O Marrocos acabou se tornando o destino de milhares de judeus que deixaram a Espanha na época, iniciando a chamada diáspora sefaradita. Mais cedo ou mais tarde, muitos deles vieram parar por aqui.

— O povoamento do Brasil segue os passos da Inquisição. Contando a história do período colonial brasileiro, do pau-brasil ao açúcar, contamos a história da diáspora sefaradita, incluindo a conversão obrigatória ao cristianismo que, internamente, poucos faziam, em um processo que durou três séculos, até a chegada da família real, a independência do Brasil e a liberdade religiosa — conta o documentarista. — Me dei a missão de documentar a história da imigração judaica para o Brasil em livros e filmes.

Povos Indígenas

Para produzir “Hakitia” — dialeto dos sefaraditas do Marrocos —, Goifman fez quatro viagens para a Amazônia, somando 80 dias entre rios, igarapés, floresta e cidades. Segundo ele, há muitas semelhanças entre a história da região e a do povo de Israel.

— A resistência histórica do povo judeu tem grande semelhança com a resistência indígena. Ambos são civilizações que resistem com sua própria cultura através dos tempos, evitando a assimilação total à cultura dominante — diz ele.

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O resultado dessa resistência está nas fotos de “Hakitia”, que se dividem entre registros de famílias com suas práticas religiosas, a arquitetura própria da tradição judaica, hábitos cotidianos em várias cidades da região e a grandiosidade da floresta, como se vê em algumas imagens reproduzidas nestas duas páginas.

Hoje, cerca de três mil pessoas se declaram judeus na Amazônia, mas estima-se que existam mais de cem mil descendentes diretos dos primeiros judeus que chegaram à região — muitos dos quais formavam até mais que uma família, enquanto outros tantos se desligaram do judaísmo para poderem se casar com as mulheres de outros credos.

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É assim que vamos conhecer famílias que estão na Amazônia há séculos, mantendo ritos milenares. A história delas começou, invariavelmente, com a prática do comércio, desbravando o labirinto de rios. Muitas enriqueceram.

Algumas escolheram a vida ribeirinha desde sempre, fugindo das cidades. São “verdadeiros caboclos de alma judia”, diz Goifman, numa vida híbrida, quase anfíbia:

— É uma natureza que pulsa tão forte dentro da gente que, quando saímos da floresta, sentimos o efeito inverso de ficarmos mareados sem a presença do mato, da água, dos ruídos, cheiros e do balanço sem fim dessa terra, meio navio, meio ilha, essência vital neste planeta em risco.

Decadência

A paixão pela floresta e pelos rios não quer dizer que Goifman passe pano para a degradação ambiental e urbana da região. O texto de “Hakitia” faz críticas veementes à decadência que ele presenciou em cidades como Belém e Óbidos, no Pará, ou Manaus, no Amazonas.

“Hakitia” é o terceiro de uma série de cinco livros (e filmes) do projeto de Goifman sobre a imigração judaica no Brasil. Os próximos volumes vão tratar das comunidades da Região Sul, além de Argentina e Uruguai. Mais sobre o autor e o livro está disponível no Instagram @felipegoifman.

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