Em livro, padre Júlio Lancellotti destaca que amor cristão pressupõe ação

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***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, BRASIL, 17.09.2020 - Entrevista com padre Júlio Lancellotti. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, BRASIL, 17.09.2020 - Entrevista com padre Júlio Lancellotti. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Armai-vos uns contra os outros." Em seu mais recente livro, padre Júlio Lancellotti, usa esse trocadilho perverso para ilustrar o tamanho da distorção operada no Brasil de hoje em relação aos ensinamentos de Jesus Cristo, evocado em pregações religiosas e políticas muito distantes do original "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei".

Em "Amor à Maneira de Deus" (editora Planeta), o ativista e religioso faz uma leitura do amor cristão a partir deste mandamento. E apresenta esse amor não apenas como um sentimento, mas como um compromisso humanista que transforma por meio de uma solidariedade ativa e incondicional, com todos e com cada um. "Amor não é enfeite: é fundamento", escreve.

No livro, Lancellotti costura passagens bíblicas com memórias de sua vida de devoção às populações marginalizadas, numa abordagem pragmática da fé que é coerente com sua longa trajetória em defesa dos direitos humanos, em especial na cidade de São Paulo.

"O amor cristão é centrado no outro, nunca em si mesmo", aponta o padre, evidenciando a contramão das atuais retóricas sectárias e de ódio.

Há histórias, entre tantas outras, de conversas com prefeitos e governadores, mas também de rebelião de jovens infratores, de discussões filosóficas com uma criança soropositiva e da acolhida de uma mulher trans que, de tanto ouvir que era o diabo, passou a acreditar --e ouviu do padre que ela era amada como todo e qualquer filho de Deus.

"Amar a Deus é muito bom, é muito fácil. O problema é amar a família dele", diverte-se o pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, zona leste da capital paulista, cuja dedicação aos mais desafortunados desses "filhos de Deus" se tornou uma marca.

Lancellotti vem dedicando a vida a causas sociais. Pedagogo, foi um dos fundadores da Pastoral da Criança e um dos formuladores do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Integrantes de seu grupo, lembra ele, chegaram a receber de alguns veículos de imprensa a alcunha de "defensores de trombadinhas".

O padre militou contra os maus-tratos a que eram submetidos jovens infratores internados em unidades da antiga Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor), depois rebatizada de Fundação Casa. E foi lá que encontrou crianças soropositivas trancadas numa ala isolada de uma unidade.

Para elas, Lancellotti construiu a Casa Vida, um lar onde podiam brincar, estudar e receber os cuidados médicos necessários, num projeto que teve como madrinha a princesa de Gales, Diana. Era 1991, e o medo e o preconceito contra portadores do vírus HIV era tamanho que a casa enfrentou a insurgência de vizinhos que não queriam aquelas crianças por perto.

À frente da Pastoral do Povo da Rua de São Paulo, Lancellotti vem se notabilizando pela defesa dos sem-teto contra opressões, negligências e violências, numa perspectiva combativa e mão na massa.

Durante a pandemia, o padre ampliou essa atuação, com especial ênfase no fornecimento de alimentação para quem antes revirava os lixos do comércio que havia fechado por conta das medidas de contenção da Covid-19. A atuação lhe rendeu um telefonema do papa Francisco.

Ele esteve sob holofotes, virou sensação nas redes sociais e pautou debates que lhe renderam desafetos, ataques públicos e ameaças, mas também doações e menções de apoio.

O deputado estadual Arthur do Val (União Brasil), integrante do MBL (Movimento Brasil Livre) conhecido como Mamãe Falei, chamou o padre de "cafetão da miséria" por causa de seu trabalho assistencial nas ruas do centro de São Paulo.

O deputado sofre processo de cassação por falas sexistas no contexto da guerra da Ucrânia. Ironicamente, uma delas é "elas [as ucranianas] são fáceis porque são pobres".

Lancellotti quebrou, a marretadas, um "jardim de pedras" criado sob viaduto para impedir a permanência de pessoas em situação de rua, denunciando artifícios de uma arquitetura hostil que se espalharam pela cidade.

Uma das características da fé cristã, a misericórdia é uma palavra composta de "mísero" e "córdia", nos lembra Lancellotti, o que significa "coração para os míseros". "Quando lemos os Evangelhos vemos que Jesus não exercia a misericórdia na subjetividade. Ele agia na história , em meio a interesses religiosos, econômicos e políticos que movimentavam a vida do povo", escreve o padre.

Ao relacionar a passagem às fragilidades típicas às de pessoas em situação de rua, de refugiados, de doentes e de presos, Lancellotti brinca que "insistimos em procurar Jesus no sacrário e ele insiste em ir para debaixo do viaduto", uma ideia que ele adota como missão para um mundo mais justo, fraterno e solidário.

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AMOR À MANEIRA DE DEUS

Preço: R$ 42,90

Autor: Padre Júlio Lancellotti

Editora: Planeta (157 págs.)

Avaliação: Bom

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