Em Londres para funeral da rainha, Bolsonaro faz discurso em tom de campanha e fala em vitória no 1º turno

Com bandeira a meio mastro, Bolsonaro discursa a apoiadores na sacada da residência do embaixador em Londres
Com bandeira a meio mastro, Bolsonaro discursa a apoiadores na sacada da residência do embaixador em Londres

O texto foi atualizado às 10h40 de 18 de setembro de 2022.

Em viagem a Londres para o funeral da rainha britânica Elizabeth 2ª, o presidente Jair Bolsonaro fez discurso em tom de campanha e mencionou vitória em primeiro turno, embora apareça atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas de intenção de voto.

"Não tem como a gente não ganhar no primeiro turno", disse na manhã deste domingo (18/09) o presidente, em sacada da residência oficial do embaixador brasileiro em Mayfair, Londres.

O presidente iniciou a fala dizendo que se trata de um momento de pesar e falando em "profundo respeito pela família da rainha e pelo povo do Reino Unido". Disse que esse era o "objetivo principal", mas falou nos cerca de quatro minutos restantes sobre contexto político no Brasil e sobre sua plataforma de campanha (contrária à descriminalização do aborto e do consumo de drogas, por exemplo).

"A nossa bandeira sempre será dessas cores que temos aqui, verde e amarela", afirmou, ao lado de bandeira do Brasil a meio mastro. A frase faz uma referência a uma expressão popular entre seus apoiadores, de que a bandeira brasileira "jamais será vermelha" (cor associada ao comunismo e ao PT).

Bolsonaro chegou acompanhado do pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e do padre Paulo Antônio de Araújo. A comitiva presidencial inclui ainda o filho do presidente e deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e Fabio Wajngarten, ex-secretário de comunicação do governo Bolsonaro e membro da campanha de Bolsonaro à reeleição.

Questionados sobre Bolsonaro falar em campanha eleitoral em meio às cerimônias fúnebres da rainha, Wajngarten argumentou que o presidente iniciou sua fala hoje falando do funeral. Malafaia, por outro lado, disse que não dá para "fingir que não está tendo um processo eleitoral no Brasil".

O discurso de Bolsonaro foi acompanhado por um grupo de 100 a 200 pessoas, segundo a polícia londrina.

Após a fala dele, parte dos apoiadores do presidente hostilizaram jornalistas brasileiros que estavam no local, entre eles a equipe da BBC News Brasil.

Ativistas protestam contra Bolsonaro em Londres
Ativistas protestam contra Bolsonaro em Londres

Houve xingamentos, gritos e acusações de parcialidade. Não houve registro de violência física contra os jornalistas.

Em seguida, policiais londrinos passaram a escoltar os jornalistas nas proximidades da casa do embaixador brasileiro em Londres.

Quase duas horas depois, um grupo de manifestantes ligados às organizações Amazon Rebellion (rebelião amazônica, em tradução livre) e Brazil Matters (Brasil importa, em tradução livre) fez um protesto contra Bolsonaro. Os cartazes em inglês traziam dizeres como "Parem Bolsonaro pelo futuro do planeta" e "Bolsonaro é uma ameaça ao planeta e à humanidade".

Os ativistas começaram a ser hostilizados pelos apoiadores do presidente, e por isso a polícia londrina precisou separá-los para evitar uma escalada na violência.

Manifestantes separados de bolsonaristas por policiais londrinos
Polícia londrina precisou cercar manifestantes (à esquerda, com cartazes) para evitar escalada da violência

No Twitter, o jornalista britânico e editor de meio ambiente do jornal The Guardian Jonathan Watts disse: "O insensível, superficial e grosseiro Bolsonaro está tentando usar o funeral da rainha como uma parada de campanha eleitoral. Que vergonhoso representante do Brasil." O comentário de Watts foi feito em resposta a uma postagem do correspondente do jornal The Guardian no Brasil, Tom Phillips, que escreveu: "Bolsonaro decidiu marcar o funeral da rainha com discurso sobre gênero, ideologia, abortos e males do comunismo de sua sacada em Mayfair."

Em reação, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que integra a comitiva do presidente, escreveu que o jornalista britânico omitiu que Bolsonaro mencionou a rainha no início do seu discurso. E afirmou que "vocês se enterram sozinhos, sem credibilidade".

Agenda de Bolsonaro em Londres

Bolsonaro chegou à capital inglesa na manhã deste domingo e deve deixar a cidade na segunda-feira (19/09), em direção a Nova York, onde participará da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Em Londres, está previsto que Bolsonaro faça uma visita à câmara ardente em Westminster, onde o corpo da rainha está sendo velado, por volta das 10h (horário de Brasília). Pouco depois, o presidente brasileiro deve assinar o livro de condolências.

Bolsonaro vai ao velório da rainha acompanhado da primeira-dama, Michelle, e do pastor Silas Malafaia
Bolsonaro vai ao velório da rainha acompanhado da primeira-dama, Michelle, e do pastor Silas Malafaia

Por volta das 13h (horário de Brasília), Bolsonaro deve comparecer à recepção real acompanhado da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e possivelmente de um tradutor.

O Itamaraty não soube informar se Bolsonaro terá em seguida algum compromisso com aliados ou seus apoiadores em Londres.

No dia seguinte, segunda-feira (19/09), Bolsonaro participará da cerimônia fúnebre da rainha (exéquias) por volta das 7h (horário de Brasília). Haverá logo em seguida uma recepção para os convidados estrangeiros promovida pelo governo britânico.

Horas depois, Bolsonaro deve seguir para os EUA. Ainda não há informações sobre o horário exato do voo do presidente, mas ele deve ocorrer por volta das 13h (horário de Brasília).

Corpo da rainha está sendo velado em câmara ardente de Westminster
Corpo da rainha está sendo velado em câmara ardente de Westminster

Funeral da rainha: quem foi convidado e quem não foi

Os convites para o funeral da rainha foram enviados poucos dias depois da morte dela, e espera-se que compareçam quase 500 chefes de Estado e dignitários estrangeiros ao funeral na Abadia de Westminster, que tem capacidade para cerca de 2,2 mil pessoas..

Além de Bolsonaro, diversos líderes mundiais já chegaram a Londres para as cerimônias em torno do funeral da rainha. Entre eles, Joe Biden (presidente americano), Justin Trudeau (primeiro-ministro canadense) e Jacinda Ardern (primeira-ministra neozelandesa).

Primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, presta condolências ao rei Charles 3º no palácio de Buckingham, em Londres
Primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, presta condolências ao rei Charles 3º no palácio de Buckingham, em Londres

A lista de convidados ao funeral da rainha gerou polêmica no Reino Unido. Houve críticas ao convite feito ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, por causa das acusações de envolvimento dele com o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi em 2018, dentro de um consulado saudita na Turquia. Salman nega qualquer envolvimento com o assassinato.

Outro que gerou controvérsia no Reino Unido foi o convite feito ao presidente chinês, Xi Jinping, por causa de acusações de crimes contra a humanidade que teriam sido cometidos contra uigures, uma etnia majoritariamente muçulmana com mais de 11 milhões de pessoas no noroeste da China. O governo chinês nega qualquer irregularidade.

Xi, no entanto, não deve comparecer ao evento. Segundo a BBC apurou, a delegação chinesa (caso compareça ao evento) teria sido barrada de visitar a câmara ardente, onde o corpo da rainha está sendo velado.

Há ainda aqueles que não foram convidados, entre eles os mandatários de Belarus, Síria, Venezuela, Afeganistão e Rússia.

As relações diplomáticas entre o Reino Unido e a Rússia entraram em colapso desde a invasão da Ucrânia pela Rússia no início de 2022, e um porta-voz de Putin disse na semana passada que ele "não estava cogitando" comparecer ao funeral.

Houve, por fim, convites ao Irã, à Coreia do Norte e à Nicarágua, mas apenas para os embaixadores, e não para os chefes de Estado.

- Este texto foi publicado originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62946305

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