Em manobra, senadora se declara presidente da Bolívia sem votação no Congresso

SYLVIA COLOMBO

LA PAZ, BOLÍVIA (FOLHAPRESS) - Apesar de não ter reunido quórum nem na Câmara de Deputados nem no Senado, a senadora Jeanine Añez, 52, declarou-se presidente da Bolívia, ocupando o vácuo de poder deixado pela renúncia de Evo Morales e de seu vice no domingo (10).

“Assumo a Presidência do Estado”, disse ela na Assembleia Nacional, poucos minutos antes das 19h (20h em Brasília). “A Bolívia precisa ser livre, pacificada e democrática. Minha prioridade é convocar eleições o mais cedo possível.”

Ao final de seu pronunciamento, os senadores celebraram com gritos de “Bolívia, Bolívia” e entoaram o hino.

Não houve votação, e muitos legisladores do MAS (Movimento para o Socialismo), partido de Evo, não estavam na sessão —parte deles não conseguiu chegar porque as estradas que ligam o aeroporto a La Paz estão bloqueadas.

Añez justificou que assumiria a Presidência de acordo com o que estabelece o regimento do Senado sobre sucessão na Casa.

Segundo a interpretação que ela apresentou da regra, “ante a renúncia do presidente e do primeiro vice-presidente do Senado, o regimento da Câmara dos Senadores permite que eu assuma o comando do Estado para garantir a transição”.

Depois do anúncio, os militares que protegiam a entrada da Assembleia usaram gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes reunidos ali desde o começo da tarde.

Jeanine Añez caminhou escoltada por policiais e militares do parlamento até o Palácio Quemado, sede do governo. Estava cercada também por opositores de Evo.

Ela subiu a escadaria com a Constituição em mãos. “Agradeço aos que nos acompanham, o movimento cívico, os irmãos indígenas, a Igreja, amamos a Bolívia. Quero agradecer a essa juventude que saiu às ruas e que não conhecia outro objetivo. Eles saíram para mostrar que sim, se podia. Queria pedir um minuto de silêncio pelos que morreram nas últimas semanas.”

O minuto de silêncio foi respeitado, e houve aplausos e um grito de “viva a Bolívia”.

Política sem muita expressão nacional, que acabou alçada aos holofotes internacionais com a renúncia de Evo, Jeanine Añez Chávez é advogada de formação e foi diretora de um canal de TV local em sua cidade, Trinidad, no departamento de Beni.

Entrou para a política em 2006 como membro da Assembleia Constituinte e participou da elaboração da Constituição boliviana promulgada em 2009.

Já era de oposição nessa época, defendendo bandeiras como a limitação aos poderes presidenciais e a maior autonomia dos governos regionais.

Em 2009, foi eleita senadora pela aliança de direita Plan Progreso para Bolívia-Convergência Nacional. Em 2015, foi reeleita pela também direitista Unidad Democrata.

Sua bancada sempre foi minoritária, e foi graças a isso que ela se tornou a segunda vice-presidente do Senado. Pela lei boliviana, esse cargo deve ser ocupado por um integrante da minoria na Casa.

“Ela nunca foi uma líder de primeira linha, apesar de ter bastante experiência na política”, conta Christopher André, jornalista do El Deber, na Bolívia.

“É conhecida por ter desempenhado forte papel na Constituinte e na defesa da autonomia regional. Mas não teria sido candidata a esse cargo [de presidente] em outra situação.”

A Constituição da Bolívia determina que, em caso de ausência do presidente do país, assuma o vice-presidente ou o líder do Senado, mas ambos renunciaram junto com Evo.

O primeiro vice-líder do Senado, também governista, foi outro que pediu demissão. Assim, segundo a interpretação de Añez, ela seria a próxima na linha sucessória.

Quando chegou à sede do governo, ela apareceu com a faixa presidencial ao lado do opositor Luis Fernando Camacho. Ela segurava a Bíblia, e ele, a Constituição.

O ex-presidente boliviano, que renunciou por pressão das Forças Armadas e de manifestações populares, chamou a manobra de Añez de golpe. “O golpe mais astuto e nefasta da história foi consumado”, escreveu em uma rede social.

“Uma senadora de direita golpista se autoproclama presidente do Senado e presidente interina da Bolívia, sem quórum legislativo, rodeada de um grupo de cúmplices e cercada pelas forças armadas e pela polícia que reprimem o povo.”